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My Precious ITIL!

Baguete // sexta-feira, 05/03/2010 18:37

- Então meu jovem amigo, alguma dúvida?

- Não seu Roberto, creio que já sei quase tudo para começar o meu estágio. Apenas uma questão; O que tem naquela sala escura lá do fundo? O Sr. me mostrou todas as dependências do Data Center, da diretoria ao no-break mas passamos reto por aquela porta...

Visivelmente consternado, Roberto pega o braço do quase imberbe e franzino aspirante e aproximando-se de seu ouvido lhe diz, aos sussurros... “nunca se aproxime de lá, Rafael, nem por descuido. Se lhe chamarem ou alguém falar com você, pegue algum papel e faça de conta que está muito apressado para entregá-lo em algum lugar”.

- O o o o quei seu Roberto! Mas dava para largar meu braço, que os dedos ficaram brancos e sem sangue?

Roberto se recompôs e ajeitou a gola da camisa do estagiário que havia ficado amarrotada.

“Certo filho! Agora, ao trabalho” disse já a caminho da sala do NOC, com o prazer de quem volta para casa.

Os dias da agenda do Outlook passaram rápido na trilha das atividades de altíssima relevância que a lida do estágio trazia para Rafael. Eram documentos para serem levados para vários lugares e depois serem trazidos de volta para os lugares de origem, digitações de notas fiscais de fornecedores nos sistemas administrativos, carregar suprimentos para as impressoras setoriais, e eventualmente, idas ao posto bancário da empresa fazer um favorzinho rápido (que nunca era rápido) para seu Roberto e demais chefes.

Em um dias destes, enquanto Rafael preparava ( de maneira um pouco mais lenta do que seria adequada , é verdade) seu café solúvel batido, o seu Ramiro, o Sr. da limpeza passou por ele com seu carrinho e parou para dois dedos de prosa.

- E aí seu Ramiro, Tudo limpeza! A piada era sem batida mas ele simplesmente não resistia...).

- E aí guri Rafael. Ainda não cansou de correr tanto? Como estão as coisas em casa? Tú tá ajudando a dona Silvia? Ou tá gastando tudo em festa?

- O seu Ramiro, eu ajudo a mãe sim, mas ninguém é de ferro, né?

- Seu Ramiro, deixa eu lhe perguntar uma coisa, que talvez o Sr. possa me explicar. Toda vez que falei no assunto as pessoas ou se assustaram ou brincaram comigo.

- Fala guri!

- O que tem na sala escura lá do fundo? Passei ali perto outro dia e senti um frio úmido vindo lá de dentro e uma luzinha fluorescente brilhando e parecia que havia alguém folheando uns livros ou caderno grandes...

Seu Ramiro esbugalhou os olhos e virou a cabeça para um lado e outro para ver se havia alguém por perto. Diminuiu a voz e se aproximou de Rafael dizendo...

- Não é bom falar sobre isto aqui, dizem que ele tem olhos e ouvidos em todos os lugares...”

- ... ele quem seu Ramiro? Rafael agora olhava de um lado ao outro também.

- Se você quer mesmo saber, venha ao meu depósito no final do turno! E o baixo senhor saiu rápido, ou pelo menos tanto quando o coxear lhe permitia. 

Na hora marcada, foi um ansioso Rafael que o Ramiro encontrou sentado no depósito.

- ah guri! tú veio... Tú tá curioso para saber do Ráitiu, não é?

- RAITIU???? Seu Ramiro, isto é nome de gente ou de bixo?

- Pois é guri, nem nós sabemos, mas deixa eu me ajeitar que esta crise de gota está acabando comigo.
 

- Rafa, o que eu vou te dizer é segredo dos baita mesmo, tá. Não pode comentar com ninguém e tu tens que jurar pela alma da Santa BPM que é a santa dos procedimentos e processos perdidos.

- Tá seu Ramiro, já jurei, olha aqui!

- Rafa, lá na sala tem um ser muito estranho que tem mania de pegar tudo o que a gente faz e dizer que tá errado. Ele vive indicando outras maneiras de fazer as coisas que sempre são muito mais complicadas do que a gente está acostumado. E quando alguém diz que aquele jeito que ele apresentou é mais difícil, ele surta e começa a gritar que o que ele apresentou são as melhores práticas e que todo mundo reconhece, blá, blá, blá.

Diante da cara espantada do rapaz, o experiente ainda complementou...

- É, pode acreditar guri, eu mesmo já fui atacado por ele. Um dia, eu me atrasei na limpeza e quando tentei limpar a sala dos computadores, ele pulou de traz de um destes armários de vidro em que ficam os computadores e me perguntou seu eu havia feito o registro do incidente pelo atraso da limpeza e seu sabia quais os serviços estavam em risco por eu estar ali naquela hora... Olha guri, ver aquele quatro-olhos se aproximando, como se fosse uma pêra com cabeça e membros carregando aqueles livros com capa de raio-x e um bafo que era uma mistura de 4 queijos  com lombo canadense... foi de amargar!    

- Meu Deus, seu Ramiro, que coisa horrível!  Mas porque não demitem este monstro, ou prendem, ou pior, coloquem ele em algum programa de qualificação corporativa, sei lá!

- Olha Rafael, talvez porque ninguém tenha coragem. De certa forma, ele representa aquilo que todo mundo acha que é certo mas que não quer ou não tem disciplina para fazer.  Além disto, ele não foi sempre assim. Eu me lembro bem do inicio desta história.

Neste momento, o auxiliar de serviços gerais começou a ver em sua mente cenas de tempos melhores onde um outro  promissor rapaz ficou sabendo  de um modelo internacionalmente aceito e achou que poderia fazer parte de uma TI que entregasse serviços de melhor qualidade com uma organização dos processo produtivos.

Ramiro lembrou de quando o rapaz, após assistir uma palestra muito convincente, entrou em uma profissão de fé  corporativa ao tentar convencer todos os dirigentes a começar um trabalho de qualificação de processos. O velho lembra-se de ver o sorriso na face deste jovem ao sair da reunião com o diretor que aprovou o orçamento para começar o programa de qualificação de processos.

Foram entusiasmantes os dias em que este rapaz começou a estudar e prestar exames e colecionar bottons que demonstravam sua capacidade no assunto, e o orgulho dele em ostentar estas marcas. De como ele usou seu conhecimento para apoiar os consultores contratados a fazer o diagnóstico ds processos e a proposta de melhoria.

Até que o caldo entornou!

Ramiro estava lá no dia em que seria a apresentação dos resultados da avaliação e e o início dos projetos de redesenho de processos.

Ele lembrava a altivez e o controlado nervosismo com que tudo foi apresentado em audiência para todas as pessoas importantes da TI.         

 E mais ainda, ele lembrava como quando tudo estava se encaminhando para um grande final quando um dos colegas, reconhecido por sua toxidade, perguntou para ele e para o presidente ali presente, se a empresa iria contratar aquele monte de “gerentes de processo” que o modelo falava, ou mesmo se ele iria contratar e treinar todos os recursos necessários para fazer o Help Desk virar o tal do Service Desk. Afinal, era isto que o modelo pregava. – “EMA, EMA. EMA, CADA UM COM SEUS PROBLMAS”- E se sim, como o presidente iria tratar a necessidade das ferramentas para fazer rodar os processos, se ele iria comprar estas ferramentas também.

Ramiro viu o sangue brotar no olhar do jovem rapaz que imediatamente pediu a palavra e tentou contornar as criticas. Firam hábeis as palavras de defesa, mas o poço estava irremediavelmente envenenado.

O velho lembrava com pesar os sorrisos marotos na face de alguns enquanto o presidente dizia em alto e bom tom que gostaria de revisar os planos e adéqua-los a realidade financeira da empresa. Todos sabiam que isto ira a metáfora bonita para o cancelamento do trabalho.

A mistura de decepção, ódio e por fim raiva vinda do rapaz era tangível, palpável, audível, e tinha gosto de ácido.

Após todos saírem da sala , Ramiro, sob o pretexto de fazer a limpeza acompanhou silenciosamente o olhar do gerente de projetos, e viu brlihar, mesmo que num lampejo, a insanidade.

Acompanhou de longe os passos do rapaz até a sala e viu quando ele diminuiu as luzes e ficou próximos aos livros acariciando a capa daquele que tinha um raio x de uma estrela do mar. Ao chegar mais perto pode ouvir o rapaz murmurar...

- Meu precioso Haitiu, Haitiu.

Depois disto Ramiro ficou em silencio pesaroso e Rafael, com os olhos esbugalhados disse:

- esta na minha hora , vou embora” e despediu-se do velho amigo.

Nunca mais, durante toda sua vida na empresa, Rafael se aproximou daquela sala mais do que dez passos, e pelo mais do que uma vez pode ver dois grandes olhos de vidro fixos nele.

Uma vez pode ouvir claramente umas poucas palavras vindas da porta, diziam:

- Meu precioso. Haitil, Haitil!

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Imagens: 
COMENTÁRIOS
Edroaldo Roloff

postado em: qua, 30/11/2011 - 11:03

Me soou muito mais como um relato real que uma sátira, mas como não formado em letras quem sou eu para questionar...
Muito bom o post, ao longo de minha "vasta" experiência de 11 meses convivendo com o ITIL, consigo enxergar uma salinha destas em cada uma das empresas que trabalhei...

jader

postado em: seg, 23/08/2010 - 17:23

Esta é uma clara piada sátira-técnica, que só profissionais podem entender. Divertida. Mas também pode ser encarada como uma discussão séria. Onde termina o gerenciamento de TI e começa a ITIL? Quando é ora de usar o bom senso?

Rodrigo mior Correa

postado em: sex, 12/03/2010 - 10:23

muito boa esta postagem, divertida e interessante.
foi deste tema que deve ter surgido o filme do Senhor dos Anéis.
o cara deveria falar: \" my precious Raitiu.....\"

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