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29/08/2007 - Sarkozy quer Brasil no Conselho de Segurança da ONU
Em seu primeiro grande discurso sobre política externa, o novo presidente da França, Nicolas Sarkozy, defendeu, na segunda-feira 27 de agosto, uma ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com a inclusão como membros permanentes de Alemanha, Brasil, Índia, Japão e um representante da África, e do Grupo dos Oito (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia), com a adesão de África do Sul, Brasil, China, Índia e México.

Para o pesquisador Philippe Moreau Defarges, o discurso de Sarkozy não teve "nada de sensacional. Há uma grande continuidade . Segue a linha de política externa da França desde o general Charles de Gaulle: a França deve se manter como potência mundial, buscar um engajamento europeu e um equilíbrio internacional, sobretudo na questão nuclear".

Na sua opinião, as principais diferenças em relação ao ex-presidente Jacques Chirac são "um engajamento europeu mais acentuado" e uma "tonalidade pró-americana". Sarkozy quer uma Europa que assuma a condição de superpotência, fala em aliança sem alinhamento com os Estados Unidos, e vê o dispositivo de defesa europeu como complementar e não concorrente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

É um forte e decidido apoio à pretensão brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança. Sarkozy não tocou na questão mais sensível: os novos membros terão o poder de veto dos atuais cinco grandes (EUA, China, França, Reino Unido e Rússia)? Mas deixou claro que os líderes mundiais perderam tempo depois do fim da Guerra Fria para criar uma nova ordem internacional.

O presidente francês apontou três grandes desafios para este começou de século 21:
1. Evitar uma confrontação entre o Islã e o Ocidente como querem os jihadistas que sonham em recriar o Califado reunindo os muçulmanos da Nigéria à Indonésia, rejeitando qualquer abertura, toda modernidade e qualquer diversidade. "Se essas forças atingissem seu objetivo sinistro, este século seria ainda pior que o passado".

2. Como integrar na nova ordem global os gigantes emergentes, a China, a Índia e o Brasil? "Motores do crescimento mundial, eles são também fatores de graves desequilíbrios; gigantes de amanhã, querem ter seu status reconhecido mas ainda não estão prontos para respeitar as regras que são do interesse de todos", disse Sarkozy.

3. Como enfrentar as grandes ameaças globais, pela primeira vez identificadas cientificamente por esta geração, sejam as mudanças do clima, as novas pandemias ou a questão energética?

FRANÇA COMO POTÊNCIA
Sarkozy pensa no que a França tem a oferecer ao mundo, "porque tem um dos povos mais dinâmicos e de melhor formação, uma das economias de melhor desempenho, Forças Armadas e diplomacia das melhores". Mas adverte: "A França, como qualquer outro país, não tem direito adquirido a seu status internacional. Sua mensagem será entendida se ela for levada por um povo ambicioso e confiante, uma sociedade reconciliada consigo mesma e com uma economia de alto desempenho".

Ele acredita que "a emergência de uma Europa forte, um dos principais atores da cena internacional, pode contribuir de modo decisivo à construção de uma ordem mundial mais eficaz, mais justa, mais harmoniosa que os povos reclamam".

Numa das principais mudanças em relação a seu antecessor Jacques Chirac, o novo presidente francês pensa que a "amizade entre a França e os EUA é tão importante hoje como nos dois séculos passados. Aliados não quer dizer alinhados, e eu me sinto completamente livre para exprimir tanto os acordos quanto os desacordos sem complacência nem tabus".

Os valores da França que Sarkozy oferece ao mundo são "os da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, do humanismo e também, mais recentemente, do dever de proteção humanitária encarnado por homens como Bernard Kouchner, que tive a honra de acolher em meu governo e de lhe dar a direção da nossa diplomacia".

"A construção da Europa será uma prioridade absoluta de nossa política externa", afirmou Sarkozy. "Sem uma União Européia forte e ativa, a França não poderá apresentar respostas eficazes aos grandes desafios do nosso tempo. Sem que a Europa assuma o papel de potência, o mundo não terá um pólo de equilíbrio necessário".

Mais uma vez, ele se declarou contra a adesão da Turquia, alegando que não é um país europeu.

Outro ponto importante foi a retomada da Iniciativa Européia de Defesa Estratégica, lançada em Saint-Malo, na França, num encontro entre as duas potências européias com Forças Armadas importantes: França e Reino Unido. Com o distanciamento entre os dois países por causa da invasão americana no Iraque, o projeto estava parado.

"A UE dispõe de toda uma gama de instrumentos de intervenção durante crises: militares, humanitárias e financeiras. Deve se afirmar como um ator do mais alto nível na luta pela paz e a segurança no mundo, em cooperação com as Nações Unidas, a aliança atlântica e a União Africana."

Para Sarkozy, não faz nenhum sentido opor a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar liderada pelos EUA: "Precisamos das duas".

AMEAÇA TERRORISTA
No momento, a grande ameaça é o jihadismo: “Nosso país e todos os países, inclusive os muçulmanos, estão hoje sob a ameaça de atentados criminosos como os que atingiram Nova Iorque, Báli, Madri, Mumbai, Istambul, Londres e Casablanca. Pensem no que aconteceria se os terroristas tivessem armas químicas, biológicas ou nucleares”.

Como tarefa imediata, o presidente francês propõe aumentar os esforços na guerra contra a milícia dos Talebã, no Afeganistão, e para a reconstrução do país. “Mas nossas ações no Afeganistão serão em vão se do outro lado da fronteira o Paquistão continuar sendo um refúgio para os Talebã e Al Caeda”, ressalvou Sarkozy.

Ao mesmo tempo, para evitar um choque de civilizações entre o Islã e o Ocidente, “encorajar e ajudar em todo país muçulmano as forças da moderação e da modernidade que façam prevalecer um Islã aberto e tolerante, que aceite a diversidade como um enriquecimento”.

Para resolver o problema, o líder francês considera necessário acabar com os conflitos no Oriente Médio, que na sua opinião hoje são quatro, bem diferentes mas com ligações que os realimentam:

1. No conflito entre israelenses e palestino, “o paradoxo é que sabemos qual será a solução, dois países convivendo lado a lado com paz e segurança, em fronteira seguras e reconhecidas”. O desafio é o caminho para chegar lá. “A paz será negociada entre israelenses e palestinos”, mas “os países árabes moderados e o Quarteto devem ajudar a reconstruir a Autoridade Nacional Palestina, sob a liderança de seu presidente”. Lembrou que, quando se fala na “criação de um Hamastão na Faixa de Gaza” fica evidente o risco de que seja apenas a primeira etapa do controle dos territories palestinos por muçulmanos radicais.

2. “O Líbano está há séculos no coração dos franceses”, afirmou Sarkozy, frisando que falava para todos os libaneses, embora a França historicamente seja mais próxima dos cristãos libaneses. “Todos os atores regionais, inclusive a Síria, devem buscar uma solução. Se Damasco se engajar claramente neste caminho, as condições para um diálogo franco-sírio estarão reunidas”.

3. “A tragédia iraquiana não pode nos deixar indiferentes. A França foi e continua sendo contra esta guerra. Que a História tenha nos dado razão não nos dispensa de medir suas conseqüências: uma nação que se destrói numa guerra civil sem piedade; um enfrentamento entre sunitas e xiitas capaz de envolver todo o Oriente Médio; grupos terroristas que instalam suas bases e aperfeiçoam seu treinamento militar para atacar alvos civis no mundo inteiro; uma economia mundial à mercê de qualquer faísca nos campos de petróleo. Não há outra saída, a não ser política: ela implica a marginalização dos grupos extremistas e um processo sincero de reconstrução nacional. (…)”

4. A quarta crise do Oriente Médio na visão do presidente da França é a mais grave hoje no mundo inteiro: a nuclearização do Irã. Há anos a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha negociam em nome da Europa. “Os parâmetros são conhecidos: não vou revisar nada, a não ser para reafirmar que um Irã dotado de armas nucleares é inaceitável para mim”, reproduzindo o discurso do presidente George W. Bush. A diplomativa é a forma de evitar “uma alternativa catastrófica: a bomba iraniana ou o bombardeio do Irã”.

Como exemplo, ele citou a negociação para desarmar o programa nuclear da Coréia do Norte e a decisão da Líbia de acabar com seus programas de armas de destruição em massa em troca de uma reaproximação econômica com o Ocidente.

UNIÃO MEDITERRÂNEA
Outro projeto de Sarkozy é a União Mediterrânea para, a exemplo do que propos Jean Monnet ao lançar a idéia de uma Comunidade Européia, tomar medidas “concretas de solidariedade” que aproximem os países da orla do Mar Mediterrâneo.

“Desde 1990, a confrontação bipolar desapareceu; as noções de Terceiro Mundo e Não-Alinhamento não fazem mais sentido. A liberalização econômica, comercial, financeira, a revolução das tecnologias de informação e de comunicação e sua extensão ao mundo inteiro criaram um planeta onde reina a interdependência, multiplicando as oportunidades, os riscos e as crises”, observa Sarkozy.

Isso provoca reações contra “a ocidentalização”: “rejeição, busca de identidade, tentações nacionalistas ou religiosas de retorno pela violência à pureza de idades de ouro míticas”.

“O mundo inteiro se tornou multipolar mas este multipolarismo deriva sobretudo dos choques de políticas de poder”, raciocina o presidente da França. “Os EUA não resistiram à tentação de recorrer unilateralmente à força e infelizmente não demonstram, na proteção ambiental, a capacidade de liderança que reivindicam.”

Já “a Rússia impõe seu retorno ao cenário internacional jogando com uma certa brutalidade”, enquanto a China, engajada no renascimento mais importante da história da humanidade, transforma sua busca insaciável de matérias-primas em estratégia de controle, sobretudo na África”, constata o líder francês.

UE COMO SUPERPOTÊNCIA
“Diante dos excessos de uma mundialização mal controlada, dos riscos de um mundo multipolar com antagonismos, estou convencido de que a União Européia deve dar uma contribuição importante para a emergência de um multilateralismo eficaz fundado no respeito por regras comuns e recíprocas”, propõe Sarkozy. “A experiência prática de uma soberania compartilhada corresponde bem às exigências do nosso tempo.”

Para o presidente da França, “as instituições necessárias já existem”, e a reforma do sistema Nações Unidas começou em 2005 sendo necessário “especialmente ampliar o Conselho de Segurança”.

O G-8 também deve ser ampliado e institucionalizado, sugere o líder francês. “A proteção do planeta torna indispensável reconhecer as responsabilidades comuns, mas diferenciadas, pelas principais potências desde novo mundo”, inclusive o Brasil, em questões como meio ambiente, preservação das florestas, respeito à propriedade intelectual.

“A globalização contribuiu”, notou Sarkozy, “para o surgimento de uma opinião pública mundial cada vez mais bem-informada e disposta a reagir”. Uma sociedade civil global se articula através dos meios de comunicação e dos movimentos sociais. O líder francês renovou seu compromisso de “manter um diálogo regular com as principais organizações não-governamentais”.

Quanto à África, Sarkozy defende uma “aceleração do crescimento”, “não só com maior volume de recursos” mas visando acima de tudo “melhores resultados”.

“Mas não pode haver desenvolvimento sem segurança”, e a África ainda é um continente assolado por guerras. “A mais trágica hoje é em Darfur”.

Na sua política Africana, “para mobilizar a comunidade internacional diante dos desafios de paz e segurança na África, tomei a iniciativa de convocar uma reunião do Conselho de Segurança que se realizará em 25 de setembro, em Nova Iorque, a nível de chefes de Estado e de governo, que eu presidirei”, disse Sarkozy.

‘Tenho grandes ambições para a UE”, adiantou o presidente francês. “Seu lugar natural é no centro de um sistema multilateral justo e eficaz.”

NOTAS
• A preocupação do Federal Reserve Board, o banco central dos EUA, com a crise imobiliária mesmo antes das fortes quedas nas bolsas, revelada na terça-feira, 28, e a queda na confiança do consumidor americano voltaram a derrubar os mercados internacionais.
• O estoque da casas a venda nos EUA é o maior em 16 anos e o preço médio das residências caiu 3,2% nos últimos 12 meses, outros sintomas da crise imobiliária americana.
• Em terceira votação no Parlamento, o ministro do Exterior, Abdullah Gul, foi eleito presidente da Turquia, o que preocupa as Forças Armadas e a oposição muçulmana porque tanto ele quanto o primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan pertencem ao mesmo partido islamita moderado.
• As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) agradeceram a mediação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Mas não aceitaram sua proposta de troca de prisioneiros com o governo colombiano, alegando que a questão precisa ser negociada dentro da Colômbia.
• Confira meu blog Vida Global em http://nelsonfrancojobim.blogspot.com

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Nelson Franco Jobim
Jornalista, professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics e pesquisador associado do Centro de Estudos das Américas da Universidade Cândido Mendes. Foi editor na Rádio Gaúcha, repórter especial na Cia. Jornalística Caldas Júnior, editor internacional nas Redes Globo e Manchete, repórter especial e correspondente em Londres do Jornal do Brasil, além de colaborador eventual do Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Valor, Veja, Época, Exame, Playboy, Elle, SuperInteressante, Nominimo.com, TV Globo, GloboNews, SBT, Rádio Bandeirantes, BBC Brasil e London Radio Service. Atualmente é editor internacional da TV Brasil.
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