Abençoados dias, estes que correm, os de Internet. Quando escrevia em Porto Alegre, em papel jornal, a crônica sequer atravessava o rio Uruguai. Nestes tempos de Web, a discussão ultrapassa o Equador. Dos EUA, reclama um interlocutor: "Quando eu jurava que ele iria dizer alguma coisa sobre a modelo que está vivendo numa casa de vidro em Santiago do Chile, e da celeuma que isto está causando na cidade, da falsa moral da América Latina, etc., ele me veio com uma dessas". A "uma dessas" foram minhas considerações sobre a lenta e merencória domesticação dos homossexuais. Mas pouco importa. Ocorre que a dose de estupidez que os jornais nos trazem é diária. E a coluna, semanal.
Não me parece que a celeuma em Santiago seja fruto de falsa moral, nem que falsa moral seja atributo exclusivo da América Latina. Jamais ocorreria a um latino, sem ir mais longe, pedir o impeachment do supremo mandatário da nação por felações de rotina. No Chile, a questão transcende a moral. Se a exibição da intimidade alheia em alguns causa repulsa, para outros pode ser fonte de prazer. Antes da casa de vidro de Santiago, a WEB já oferecia dezenas, talvez centenas de webcams, pelas quais os navegantes podiam espiar o cotidiano entre quatro paredes de moças em outras longitudes. Um site americano, o de Jennifer, foi pioneiro neste voyeurismo eletrônico. Com a diferença de que a intimidade de Jennifer, se estava à distância de um clique de mouse, não era imposta a transeuntes que nada querem com a vida alheia.
Esta idéia de transparência nada tem de novo. Em 1920, no seu romance de antecipação, Nós, o escritor russo Eugene Zamiatin já propunha este tipo de arquitetura. Não como modelo a ser imitado, mas como sátira a um Estado onipresente, que exige de seus cidadãos total transparência. Mais recentemente, em 1949, Orwell retomou a idéia em 1984, através do olho sempre vigilante do Big Brother.
Nós foi proibido pela censura soviética e só foi publicado nos países do Ocidente.
Zamiatin, que além de escritor era matemático e engenheiro naval, sobreviveu por milagre às purgas stalinistas. Em função de seu ofício, foi testemunha de importantes momentos históricos. Estava em Odessa por ocasião da rebelião da tripulação do Potemkin e em Helsinki - então Helsingfors - durante a do Sveaborg. Em 31, ousou escrever a Stalin pedindo permissão para emigrar: "O autor desta carta, um homem condenado à pena capital, solicita-lhe a comutação desta pena. Você provavelmente conhece meu nome. Para mim, como escritor, ser privado da possibilidade de escrever eqüivale a uma condenação à morte". Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, que devia ter acordado de bom humor no dia em que recebeu a carta, deixou-o partir.
Zamiatin viveu algum tempo em Praga e morreu em 1937, praticamente esquecido, em Paris. Nós é narrado pelo cidadão D-503, homem dos séculos futuros, que acredita nos princípios da sociedade totalitária em que vive. As casas são transparentes. Nos dias previstos para atividades sexuais, o morador pode cerrar as cortinas. "Em nossas paredes transparentes e como que tecidas de ar resplandecente, nós vivemos sempre abertamente, lavados de luz, pois nada temos a esconder, e este modo de vida facilita a difícil tarefa do Benfeitor". Orwell conhecia a obra de Zamiatine. O Benfeitor é uma antecipação do Grande Irmão. Para D-503, "o vidro, nosso admirável vidro, transparente e eterno", é garantia de fidelidade do cidadão ao Estado.
Esta total transparência da vida do cidadão é o sonho de todo poder totalitário. Não espanta que o livro de Zamiatin tenha sido proibido na finada URSS. O que espanta é ver, em um regime democrático, alguém se propondo como cobaia de uma condição sonhada por todo ditador. A casa transparente de Santiago do Chile é decididamente idiota. Fosse erigida nos dias de Pinochet, a imprensa internacional estaria denunciando a invasão da privacidade do indivíduo pela prepotência do tirano.
Não sei se a moça de Santiago pretende baixar alguma cortina na hora sexual. Mas há momentos indubitavelmente mais íntimos que o sexual, e para isso a humanidade concebeu a privada cercada de quadro paredes. Vejo na primeira página dos jornais a moça baixando, não as cortinas, mas as calças, ao sentar em um vaso sanitário. Ora, este é um dos momentos íntimos do ser humano que a ninguém agrada assistir, muito menos ser compelido a assisti-lo quando passa pela rua.
O problema não é de falsa moral, mas de graus de civilização. Nem mesmo entre bugres do paleolítico - que ainda existem no Brasil, para alegria e sustento dos antropólogos - este momento é público. Para isso existe o mato. Ou talvez a modelo, em sua ânsia de transparência, queira transformar a esplendorosa Santiago numa espécie de São Paulo, onde baixar as calças na rua, na ótica dos defensores dos tais de Direitos Humanos, é garantia consagrada na Constituição de 88, a dita Cidadã.
A exposição da moça é superficial. Como expediente para gerar manchetes, nestes dias em que a mídia dá o mesmo destaque às aventuras de cama de uma piranha de sangue real que ao pronunciamento de um estadista, é método eficaz. Mas a transparência mais grave é outra. É aquela à qual o Estado tem acesso quando nos confere números. Diante do número pessoal, usado em todos os atos contratuais do cidadão - método de identificação já rotineiro em diversos países - a casa de vidro de Zamiatin vira inocente metáfora do passado.
Isso sem falar na transparência informática, preço a ser pago nestes dias, como dizia, abençoados. Do fundo desta telinha, leitor, 40 mil cookies te contemplam. Em verdade, nossa privacidade está muito mais devassada que a da moça de Santiago. Só que já nem ligamos.