Carlos Dottori // terça-feira, 13/01/2009 11:49
Quando alguém pensa em computadores, e por tabela em profissionais de TI, provavelmente a associação mais comum seja com máquinas, sistemas, etc. Todas coisas de natureza matemática e lógica, e, portanto, com alto grau de previsibilidade. Por essência estamos atrelados a essa imagem, já que de fato o computador é um autômato. Às vezes me pergunto se esse preconceito não está na raiz da incompreensão dos verdadeiros desafios das áreas de TI nas empresas.
Uma vez assisti a uma palestra de Walker Royce, um dos fundadores da Rational, que expressou uma opinião para mim marcante: “Criar (ou implementar?) um software é muito mais parecido com dirigir um filme do que com construir uma ponte”. Com isso ele explicava por que modelos tradicionais de desenvolvimento ruíram, substituídos por outros que buscam ampliar a interação entre desenvolvedores e usuários (RUP, Scrum, etc).
Aparentemente tal tipo de visão, orientada aos riscos inerentes a projetos de TI, expressa amadurecimento. Mas também aponta para a conclusão de que se a implementação de TI fosse realmente exata, os prazos dos projetos não estourariam tanto e estes seriam sempre um sucesso, independente do contexto.
O fato é que, apesar dos diversos artefatos dos quais lançamos mão para “encaixotar” a TI, como metodologias, melhores práticas, novas ferramentas, etc., continuamos inseridos em um ambiente instável e em grande medida imprevisível.
Olhemos para o cenário: tecnologias “milagrosas” surgem a cada dia, o déficit de profissionais aumenta, a pressão de fornecedores e clientes é permanente, e os negócios aprofundam a sua dependência pela TI nem sempre refletindo essa maior importância no orçamento. Para completar, muitas vezes os projetos de TI representam mudanças significativas, que podem entrar em choque com a cultura estabelecida ou alterar o equilíbrio de poder nas organizações. Mas até que ponto todas essas dificuldades são percebidas pelos nossos clientes e por nós mesmos?
A TI é o grande integrador corporativo, amarrando os processos de negócio e desempenhando papel fundamental no desenvolvimento de novos produtos e serviços. Como tal, tende também a refletir as virtudes, os conflitos e desafios da própria organização. Para bem ou mal (e muitas vezes decepção dos usuários) não somos independentes do contexto. Quem já não viu um projeto fantástico do ponto de vista técnico naufragar pela incompreensão do ambiente no qual está inserido? Inversamente, projetos humildes tecnicamente podem gerar grande valor, se, além de atingirem os requisitos técnicos, forem sabiamente conduzidos e modelarem-se ao contexto organizacional.
O tema não é novo, mas aparentemente insistimos em vender a TI como um produto “plug-and-play”, enquanto os orçamentos e prazos continuam estourando, em episódios muitas vezes traumáticos para as organizações. Nesse sentido não há dúvida de que é fundamental para o profissional de TI atualizar-se e qualificar-se em métodos, ferramentas e tecnologias. Mas sem nunca perder de vista o fator humano como peça chave dentro das iniciativas de TI.
A compreensão do que está em jogo em um projeto, e também a habilidade de implementação, podem ser muito mais importantes para o sucesso ou fracasso do que a tecnologia propriamente dita. Por isso, continuo me perguntando, se estamos mesmo diante de uma ciência exata.
postado em: seg, 02/03/2009 - 17:11
Oi Dottori, como vai, tudo bem?
Gostei muito do seu artigo, simples e direto.
Lembra quando atuei como consultor junto a TI da Dimed na implementação de uma metodologia de desenvolvimento de software, por volta de 2001?
Discutíamos sempre a previsibilidade descrevendo as atividades, os produtos gerados, os papéis envolvidos, mas sempre foi difícil tratar o "imprevisível".
Hoje trabalhando na gerência de um escritório de projetos tenho a visão clara da importância da "gestão do imprevisível" neste contexto, sem perder a crença de que a forma de trabalho através de um processo bem definido é também é fundamental.
Um grande abraço,
Angelo Maratia
postado em: qui, 22/01/2009 - 21:48
Oi Carlos, compartilho a idéia de que o fator humano é o diferencial na área de TI, afinal as máquinas fazem muito bem o seu papel!
No entanto, no dia-a-dia das empresas de TI ainda adotam-se muitas práticas da industria em geral, como o controle do horario e do volume de trabalho. Sem dúvida é um desafio para os coordenadores de TI e gerentes de projeto zelar pelos aspectos humanos. O papel destes deve ser de agregar as equipes de trabalho, preocupar-se com a motivação, criatividade e com o relacionamento interpessoal no ambiente de trabalho e não apenas atuar como facilitadores das necessidades tecnicas dos projetos.
A revolução da TI é antes de mais nada uma revolução cultural e por isso reflexões como esta são muito importantes. Um abraço!
postado em: qua, 21/01/2009 - 10:25
Olá Carlos. Fiquei feliz em saber que você assumiu a coordenação da TI da Dimed. Trabalhei na Dimed em 2001 quando você estava no projeto Web-EDI. Parabéns pelo artigo. Ainda hoje tenho dificuldade de explicar para minha mãe o que faz um Consultor de TI. Principalmente quando digo que passamos mais tempo com humanos do que com máquinas. Ossos do ofício...
postado em: sex, 16/01/2009 - 17:24
Carlos, parabéns pelo artigo.
postado em: qua, 14/01/2009 - 09:00
Oi Dottori,
Ótima abordagem sobre o fator humano e imprevisível na TI. No que tange os resultados, somos muito mais dependentes das pessoas do que das tecnologias e processos, causando subjetividade e imprevisibilidade ao conjunto. O livro A Lógica do Cisne Negro, do Nassim Nicholas Taleb, trata do assunto da incerteza com maestria (estou lendo o livro agora, por isso também a empolgação).
Um abraço.