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O Pirão e o Mosca

Fernando Ferreira // terça-feira, 05/01/2010 10:26

Voltei de um pequeno recesso, poucos dias de folga que emendado aos feriados de natal e ano novo, propiciaram momentos de lazer nas praias de Santa Catarina. Retornei ao lugar onde nasci e cresci até os seis anos.

No Balneário da Penha, hoje mais conhecida como cidade do Beto Carrero World, reencontrei alguns amigos de infância, entre eles o Pirão e o Mosca. O primeiro tinha este apelido por apreciar demasiadamente o prato principal local, uma espécie de água fervida e farinha de mandioca, mas, não é qualquer farinha, é uma bem fininha e saborosa cuja produção e comercialização só se encontra pelas bandas de lá.

Na ocasião que Pirão foi batizado assim ele ingeriu oito pratos e meio desta iguaria, vez em quando com um marisco cozido para incrementar, assim mesmo, no singular. O segundo na adolescência tinha fisionomia muito parecida com o Brundle, personagem do filme A Mosca, devido ao excesso de acnes no rosto. Sobre o Mosca me contaram, pois nesta época eu já estava em Porto Alegre, já o Pirão eu fui testemunha, oito e meio é verdade de fato.

Cheguei em um ótimo momento para rever os amigos, sentamos no boteco e começamos a contar cada um sobre suas próprias vidas, como me ensinou um grande guru,  escutei mais do que falei. O assunto principal era a final do praiano, o torneio de futebol entre os times locais, e meus amigos se encontrariam em cancha logo em seguida, defendendo lados opostos.
 
Não fora obra do destino, apesar deles serem grandes amigos, destes que você vai ao banheiro de porta aberta, no futebol eram rivais declarados, para começar um é vascaíno e o outro flamenguista. Era impossível aos dois jogarem coletivamente, tamanha era a necessidade e ímpeto de competirem entre si, se um dava um lençol no adversário, o outro tentava jogada igual ou mais bonita, eram craques, mas jogavam tanto um para o outro que quando atuando no mesmo time prejudicavam a equipe. A separação foi inevitável, desta forma, para entrarem juntos na areia apenas em lados opostos como no dia de hoje.

Sobre a mesa já havia umas doze garrafas vazias, em baixo  misturadas na areia outras tantas que não quis contar. Quando acabava a cerveja, um ou outro revezadamente apenas tirava o vasilhame vazio da camisinha, e o colocava na ponta da mesa de forma a ficar visível para o dono do boteco, este prontamente trazia outra, vinha bem gelada com uma casquinha fina e branca de gelo, de tão branquinha, de tão bela, eles a tratavam por “noivinha”.

Tal qual placar, o botequeiro marcava ora na conta de um, ora na conta de outro, não precisa comunicação entre o dono do bar e nós fregueses, era uma jogada tão perfeita que já devia ter sido treinada repetidas vezes. Percebi que havia ali uma pequena competição, nenhum dos dois levantaria após o outro servir a noivinha mais bonita. Faltavam menos de quinze minutos para o início da final do campeonato, neste momento tive um estalo e entendi porque o destino me pôs ali. Quando o botequeiro trouxe mais uma, eu disse: “-Essa é por minha conta”, tomamos a saideira, encerrei aquela partida deixando claro o empate, e saímos cambaleando para a canja de jogo, felizmente bem em frente ao boteco.

O vestiário e a casa-mata eram ali nas dunas mesmo, os jogadores se punham na areia e ali se fardavam enquanto ouviam a preleção, uma espécie de “vamu pegá junto negada”, alguns puxavam de um isopor garrafas de água para molhar o rosto e a nuca. Os que vieram da concentração, como o Pirão e o Mosca, molhavam muito mais, só que nenhum deles bebia daquela água, pois juravam fazer mal ao fígado. Vi tudo isso porque tinha o privilégio de trânsito livre entre os dois times, é bom ser amigo de todos. Começou a partida!

Pirão tinha uma habilidade fora do comum, só jogava do meio prá frente, por todos os lados, dava dribles e fintas secas e fatais, passes longos ou curtos com extrema precisão, no pé do parceiro ou no ponto futuro, para o quem flutua por trás da zaga adversária. Olhava pra direita e passava para a esquerda e o contrário também, de peito de pé, de bico, de chapa, de letra. Distribuiu três chapéus seguidos, ao ser apertado na lateral. Depois, caneta em um, elástico em outro. E o Pirão não era só habilidoso, também era forte, as chegadas mais duras e viris dos adversários eram absorvidas pelo porte físico, agüentava a seco umas trombadas mais fortes, e não eram poucas.

Mosca era muito mais tático, se postava do meio para trás, ficava na frente da zaga, enxergava o jogo como ninguém. Fazia umas jogadas de efeito vez quando, principalmente se Pirão tivesse feito antes, mas jogava mesmo distribuindo as jogadas e organizando o time, quando mosca gritava com um companheiro era prontamente atendido. E o mosca sabia exatamente quando gritar para incentivar ou para corrigir, sabia usar muito bem as diferenças entre o esbravejo de apoio e o de correção, além disso, conhecia bem todos os companheiros, e já sabia como cada um reagia a cada tipo de provocação. Chamava um prá apoiar o ataque, outro para ficar mais na defesa e entrar mais “firme” na jogada, era como um regente de orquestra.

O jogo estava ótimo, pegado e bonito de se ver. Do lado de fora havia muita torcida. Mosca tem mulher e dois filhos que raramente vão aos jogos. Já a mulher do Pirão freqüentava todos, uma morena alta e maliciosa, destas que sabe que é bonita e faz questão de reforçar, com roupas insinuantes. Estava de mini-blusa de pano leve e branco destes frouxinhos que rebatem com o vento, só isto lhe cobria os seios, rijos, que com a brisa marinha podia se notar sempre arrepiados e virados prá cima, não carecia de mais nada para escondê-los, menos ainda para segurá-los.

Seus shorts escondiam só o necessário, nem mais nem menos, sempre à mostra as pernas bem torneadas iniciadas logo ali, após o final das pequenas papadas traseiras, cor de bronze e com pêlos fininhos, pequenos e lourinhos. Assim como Pirão ele não se profissionalizou no futebol. É um bem que ela faz a todos ir aos os jogos, sempre com o pequeno Caudinho, filho de oito anos do Pirão e maior fã do pai, Pirão também cultivava um orgulho enorme pelo filho, o qual já demonstrava habilidade para malabarismos com a bola. Todos na cidade respeitam muito a mulher do Pirão, pois sabem o quanto ele a ama.

Com duas jogadas de craque de Pirão o jogo iria para o intervalo com 2 x 0 para o time dele, fora o baile. O time do Mosca não era ruim, e havia também diversos craquezinhos, mas a habilidade do Pirão fazia toda a diferença. Eu transitava entre os vestiários, Pirão era festejado e paparicado pelos companheiros, o ambiente era empolgante, todos combinavam voltar para completar a partida com mais dois golaços, e depois levantar a taça. No time do Mosca o desânimo era total, todos cabisbaixos e desolados, “-O que vamos fazer professor?” perguntou um dos atletas ao Mosca, “-Só tem um jeito, vou ter que anular o Pirão!”  refletiu também cabisbaixo.

Voltaram para o segundo tempo, e iniciou algo que ninguém nunca havia presenciado, Mosca mudou o posicionamento e começou a marcar homem a homem o Pirão. Era um duelo fenomenal, cada bola disputada com classe, com elegância, com malícia e às vezes com força bruta. Ficou evidente a superioridade técnica do Pirão, que chegou a conduzir a bola no ombro enquanto fintava o Mosca.

Pirão abusava e na maioria das vezes saía sorrindo de cada lance plástico que propiciava. A mulher e o filho Caudinho puxavam o côro de olé na torcida, virou um jogo particular. Em cada drible que tomava, Mosca falava algo ao pé do ouvido de Pirão, era um xingamento, mas ninguém podia ouvir o assunto. Mosca às vezes nem olhava a bola, ficava de frente para Pirão, e olho no olho lhe dizia uns desaforos, que só os dois sabiam, alguns dribles parecia que o Mosca levava propositalmente, mas não perdia a chance de xingar o adversário.

Foi tanto xingamento e diz-que-disse particular que Pirão começou a não achar graça. O sorriso já havia sumido, e a habilidade começava a esmaecer, Pirão ao receber a bola, batia de pronto, prá se livrar dela e evitar o embate com Mosca, que nunca perdia a viagem e no encalço, falava algo no ouvido dele sempre. Seja lá o que fosse Pirão estava realmente abalado e visivelmente nervoso, à flor da pele.

Foi então que Mosca distanciou e falou qualquer coisa com seu companheiro mais próximo, depois se antecipou em uma jogada roubando a bola do Pirão e em seguida colocando-a por entre suas pernas, puxando novamente, completando a jogada com um lindo lençol, num lance desmoralizante.

A torcida entrou em êxtase, o companheiro de Mosca, com o qual ele havia cochichado, virou para Pirão que ficou muito irritado e disse: “-Assim o menino vai chorar!” apontando para Caudinho, seu filho. Antes de qualquer resposta Mosca completou à voz baixa e só entre os dois: “-Filho nada, tu é um grande cabeça-de-guidão!”, apontando para Pirão e pondo em dúvida sua ligação biológica com Caudinho e a índole de sua esposa.

Postou-se a frente de Pirão desguarnecido propositalmente, e esperou por um ataque de fúria do amigo e rival de jogo. Veio certo, como se estivesse possuído, desferiu dois golpes rápidos e certeiros, que enviou Mosca direto ao chão, este caiu e ficou estático.

Ninguém entendeu nada, pois todo diálogo ficou só entre os dois, todo mundo entrou em campo. Se passou um bom tempo, após a confusão     ser amenizada o Juiz expulsou Pirão, óbvio não havia outro modo, Mosca foi substituído pois não tinha continuar jogando, e o jogo continuou em seus últimos dez minutos.

Com um dente quebrado e com um olho inchado, Mosca ainda comandou seu time pelo restante do tempo à beirada da cancha, colocou jogadores rápidos e hábeis nas posições corretas, explorou bem a superioridade numérica, invertendo as jogadas, jogando com velocidade e força. Em dez minutos, virou a partida e ganhou o campeonato praiano daquele ano. Ninguém acreditava porque o Pirão havia surtado daquele jeito, mas pela forma e competência que o time do Mosca jogou, ninguém discutia o merecimento da conquista. Como em todo final de campeonato, uns saíram tristes enquanto outros felizes festejavam a vitória.

Os vencedores ainda festejavam menos Mosca que se aproximou e nós três retornamos para aquele boteco, o amigo de Pirão se desculpou, e disse que fez o necessário para sair vencedor, Pirão perdoou e disse que o estrago que fez no amigo fora uma boa compensação pelos desaforos ditos, e lembrou que haviam compactuados no passado que nada dentro de dentro do campo poderia abalar a amizade que tinham.

As noivinhas começaram a voltar àquela mesa de ferro enferrujada, uma a uma. O sistema portuário do local possuía o que tinha de mais moderno no mundo em tecnologia para armazéns automatizados, destinados à logística e distribuição de pescados e frutos do mar, tudo para exportação. Descobri que Pirão tornou-se Consultor de Tecnologia, e é engenheiro especialista em equipamentos e sistemas, é consultado sempre que algo de anormal ocorre no complexo, quando há algum problema Pirão intervém e resolve, evitando grandes perdas para os proprietários e mantenedores das câmaras frigoríficas. É claro sempre recebe muito bem pelos serviços especializados prestados.

Descobri que Mosca é um executivo de Tecnologia da Informação, trabalha na empresa que administra o porto e o CD, aprendeu diversas linguagens técnicas, e uma dezena de metodologias de gestão, é um líder, conquista pessoas e mantém relacionamentos importantes, chefia colaboradores em muitos locais, inclusive é ele que contrata o Pirão quando precisa, ainda admira Bill Gates, Steve Jobs, James C. Hunter, Sun Tzu e Nicolau Maquiavel entre outros.

O Sol ia nascendo, havia parado a muito de contar as garrafas jogadas sob a mesa e a nossa volta, pois eu também já tinha aprendido como mostrar a garrafa vazia no canto da mesa e aguardar a chegada de “só mais uma” noivinha. A esta hora da manhã estávamos abraçados, contando histórias e rindo, quando soube do motivo desta e de muitas outras brigas dos dois.

A mulher do Pirão chegou perfumada, arrumada e de banho recém tomado para buscá-lo, quitou toda despesa, sedutora como sempre, despediu-se de nós e lhe conduziu até o carro e de volta prá casa. Confesso que ficara curioso sobre a verdade a respeito do menino, mas não ousei perguntar, se for verdade só quem sabe é o Mosca e certamente foi confidenciado pelo próprio Pirão seu melhor e fiel amigo.

Fernando Ferreira

* Fernando Ferreira é gerente de Tecnologia da Informação da Toniolo, Busnello...

COMENTÁRIOS
Fábio Noronha

postado em: ter, 05/01/2010 - 15:35

Li e reli.
Muito bom mesmo.
Parabéns Fernando.

Foste dos recuerdos da tua infância até a maturidade de desenvolver comentários do jogo e claro, da esposa do Pirão.
Texto bem feito, bem entendido, mensagem muito bem dita. Diria que se David coimbra lesse teu texto, logo receberia muitos elogios.
Parabéns!!!!!!

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