Fernando Ferreira // segunda-feira, 21/09/2009 15:10
Enfim acabou a crise, e não sou eu quem diz, apenas faço coro a Joelmir Beting.
O lado bom desta notícia, é que além da própria retomada do crescimento, agora podemos dar andamento normal às ações de TI. O início do ano foi mandatário, era inovar ou inovar, não se comentava outra coisa, as previsões foram apocalípticas, se sua empresa não inovasse seria cruelmente esmagada pela crise e pelas concorrentes. Definitivamente a inovação era a palavra da moda e a nova ordem empresarial.
Nesta época, recebi a visita de diversos fornecedores com a fórmula mágica, um me disse que acabava com a crise num estalar de dedos, apenas, retirava o “s”, e transformava a dolorosa e pesada Crise, em um mágico e brilhante Crie.
Eu não perdi a oportunidade, no mesmo dia, agrupei toda minha equipe e ordenei a todos: -“Pessoal é hora de criar, é hora de inovar, sentem-se agora e inventem algo novo, algo diferente, que mude totalmente nossos processos produtivos, que agreguem valor e que nos possibilite economizar muito dinheiro”.
Ainda complementei que precisava dos resultados para o próximo dia pela manhã. O Analista de Redes, perguntou se poderia fazer isto após a análise e entrega do book com os indicadores do trimestre, que eu mesmo havia solicitado, categoricamente informei que não, as duas tarefas eram prioridades. Outro Analista, responsável por todas as mobilizações e entregas de infra-estrutura prometeu que certamente cumpriria a missão.
Na manhã seguinte aconteceu que eu mais esperava, ou seja, NADA!.
Evidente que isto é uma caricatura, a parte da conversa com minha equipe foi inventada, nada disso acontecera como acabei de narrar. Mas, a parte das premonições e promessas de ganhos incríveis aconteceu, esta é a parte verdadeira da história.
Todas as vezes que presenciei inovações e mudanças significativas nas empresas, elas ocorreram de modo planejado, situacionalmente surge uma idéia, depois estudamos sua viabilidade, calculamos o retorno do investimento e esforço empregado, projetamos e executamos um piloto para realizar uma prova de conceito, somente depois de todas estas etapas devidamente completadas é que partimos para a implantação do projeto.
Não me lembro de ter visto algo relevante em termos de inovação, que ocorrera de uma hora para outra e sem nenhum custo ou esforço, eu pessoalmente acredito que isto só possa ocorrer quando os processos atuais estejam sendo muito mal gerenciados, e para mim a inovação neste caso não agregou valor, simplesmente fechou um ralo de desperdício de dinheiro, questão simples de semântica.
A etapa básica para a geração de inovações, o surgimento da idéia, o insight criativo, para que ocorra é necessária uma total abstração da realidade, é necessário poder imaginar e vislumbrar coisas além do cotidiano e das linhas divisórias da verdade atual, é quase uma irresponsabilidade, uma sadia e transgressora relação entre trabalho, aprendizado e a brincadeira. Certamente a opressão e a cobrança, não são terrenos convidativos para a criação de idéias, eu diria que até são inibidores da inovação.
Outra questão importante é a vocação, existem claramente diferenças entre os colaboradores de perfil conservador e os de perfil inovador. Os conservadores são pessoas totalmente avessas às mudanças, por menores que sejam.
Existem diversas funções que exigem exatamente este tipo de perfil, pessoas que são capazes de realizar mecanicamente a mesma tarefa, dia após dia, com igual qualidade e pontualidade, o técnico de perfil conservador desempenha bem estas funções e sente-se muito confortável ao realizá-las. Ele é extremamente disciplinado, certeiro com os horários, sabe exatamente o que circunda suas responsabilidades, percebe detalhes é comprometido e executa bem aquilo que é solicitado, mas somente o que for solicitado.
Ao contrário, o técnico de perfil inovador sente-se subutilizado quando executa trabalhos repetitivos e metódicos, pois é da sua natureza mudar e transgredir. Freqüentemente questiona a causa e as conseqüências de sua atividade, se preocupa com o resultado de seu trabalho e com a sua utilidade no contexto da empresa, geralmente é dono de uma visão holística, sua percepção vai além do setor ou departamento onde trabalha. Adora mostrar resultados. O inovador se sente recompensado quando lhe é destinada uma tarefa cuja única cobrança é o resultado, quando a maneira ou modo de execução não lhe é determinado, ficando o próprio incumbido de definir como será feito, às vezes entrega o que foi solicitado e algo mais.
Estes dois tipos não são necessariamente excludentes, geralmente podemos encontrar as duas personalidades mescladas. A mente do perfil inovador é mais fértil quando a proposta for mudanças e a do conservador quando o assunto for metodologia.
Época de crise exige comportamento orientado à economia, com redução de custos, com cortes em projetos e com renegociação de contratos, não há mágica. Fornecedores em geral só aceitam redução de receitas mediante compensação proporcional em redução de serviços, salvo raríssimas exceções, que quando ocorrem nos levam a refletir sobre seus ganhos anteriores.
Portanto, neste momento em que a crise está no início do fim, acredito ser o melhor para de fato começarem as iniciativas voltadas para a inovação, e não me refiro a projetos, com início, planejamento, conclusão e produtos bem definidos, inovação com data certa para acontecer é paradoxal, tanto quanto, um dia semanal certo e freqüente para sair da rotina.
Penso na cultura pela inovação, na liberdade do pensamento, na criatividade pura e inconseqüente, na experimentação de pequenas e diferentes coisas cotidianas, em mudar o trajeto de casa para o trabalho, ouvir outros tipos de músicas, pedir no restaurante um prato desconhecido, usar uma roupa diferente de seu estilo, rir de si mesmo, instigar os sentidos, todos eles. Disse-me um professor, destes loucos que fazem teatro, certa vez: “-Te lembra o perfume do sabonete que usastes hoje?” - eu confessei que não, ao que ele retrucou: “-Então usas sabonete por quê?”, - e complementou que o segredo para inovar estava em cultivar a criatividade pura, a de todos os sentidos e das pequenas coisas.
A criatividade pura é mãe da criatividade aplicada, esta última é aquela que exige um resultado, uma melhoria, ou seja, é de fato a inovação. Para se chegar a inovação é preciso ter mente aberta, é preciso exercitá-la como se exercita o físico, em uma corporação os líderes precisam fazê-las emergir através de processos de incitação e de provocação, nós CIO´s precisamos criar momentos de ociosidade, precisamos permitir às nossas equipes formas de criação, precisamos ensinar que parar e pensar não é improdutividade, e de preferência contagiar os outros. Os tipos conservadores com esforço irão experimentar, e os tipos inovadores naturalmente irão criar, depois leva-se para as etapas de viabilidade, prova de conceito e execução, as inovações menores e maiores irão surgir, claro desde que tudo aconteça sem cobrança, sem imposição e sem a pressão dos tempos de crise.
* Fernando Ferreira é gerente de Tecnologia da Informação da Toniolo, Busnello
* Fernando Ferreira é gerente de Tecnologia da Informação da Toniolo, Busnello...
postado em: ter, 29/09/2009 - 10:33
Como sempre uma visão profissional aliada à critica precisa sobre a realidade de nosso meio.
Parabéns pelo artigo!
postado em: qua, 23/09/2009 - 11:05
Parabéns Fernando! Concordo plenamente com o teu texto e acrescento que o Mercado exige que tenhamos os 2 perfis, pois os inovadores devem criar cada vez mais e será necessário os conservadores para exeutar... Grande Abraço!
postado em: ter, 22/09/2009 - 19:30
Parabéns Fernando! Acredito que a sua definição sobre quando e como \"ter inovação\" foi a mais precisa de todas que já li até agora.
postado em: ter, 22/09/2009 - 11:40
Parabéns ! Muito interessanteo texto!
Nara Vizzotto
postado em: ter, 22/09/2009 - 10:27
Como o texto está recheado de idéias cada leitor se identificará mais com umas do que com outras, sendo que na minha visão os pontos mais fortes como moral da história foram:
Bons resultados são atingidos com planejamento acurado e execução controlada, e não com surtos de criatividade.
Não se pode esperar que um grupo sob pressão desenvolva soluções fantásticas e inovadoras, é preciso propiciar o \"meio\" para que estas soluções se desenvolvam.
Outro item que vejo como importante, e que acompanho no meu processo, é que as pessoas ficam \"bitoladas\" nas suas atividades e se preocupam somente em corrigir o que estiver errado, esquecendo de melhorar o que está funcionando, está pode ser uma questão de prioridade ou de orientação, e nestes dois casos cabe ao líder definir o melhor caminho.
postado em: ter, 22/09/2009 - 10:59
Mais um belo artigo!
Parabéns!!!
postado em: seg, 21/09/2009 - 22:15
Eu admiro profissionais como o Fernando Ferreira que está sempre inovando e se comunica muito bem com seus públicos. Parabéns!
postado em: seg, 21/09/2009 - 15:48
é bom esse ferreira heinhô batista!!!