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Mentiras

Maurício Renner // terça-feira, 07/02/2012 13:14

Outro dia me contaram a história do formando que sumiu da própria formatura.

 
É um caso bem interessante e eu gostaria de poder dar mais detalhes. É basicamente o que segue.
 
Durante a formatura do jovem, os convidados não conseguiam achar ele entre os colegas no palco, mas não falaram nada.
 
Porque se preocupar? São sempre muitos formandos em Direito, todos tem as mesmas togas e rostos radiantes e, na verdade, quantos dos convidados prestam mesmo atenção no que está acontecendo? 
 
Talvez o pai e mãe do jovem bacharel tenham ficado inquietos, situação que se ampliou ao grupo de convidados como um todo quando a cerimônia terminou sem o formando ser chamado ao palco. Quando ele não apareceu na saída, a coisa ficou feia.
 
Havia algo errado aí. Diligente, o pai do jovem mandou os convidados para o clube onde seria a janta – um dos melhores da cidade – e foi procurar os organizadores da cerimônia.
 
Eles descobriram rapidamente que os convidados não deveriam estar lá. O jovem não constava entre os formandos porque não tinha entregue seu trabalho de conclusão de curso.
 
No telefone, o orientador demorou um pouco para lembrar de quem era o rapaz, para responder casualmente que ele tinha ido à primeira reunião e depois sumido. A essa altura, os convidados já estavam jantando, sem entender nada.
 
Porque o guri esse seguiu adiante com os preparativos da formatura mesmo sabendo que não tinha TCC nenhum para entregar é um mistério para mim. 
 
Imagino que tenha sido a primeira coisa que o pai dele perguntou, ao encontrar o jovem sozinho em casa horas depois.
 
@@@
 
A história do formando me lembrou da história do Jean Claude Rommand, um francês que deve sair da cadeia em 2015, depois de cumprir 23 anos de prisão pelo assassinato do pai, da mãe, da mulher e de dois filhos, um de três e um de sete anos.
 
Quase 20 anos antes dos crimes, cometidos em janeiro de 1993 na pequena cidade de Gex, perto da fronteira da Suíça, Rommand faltou a uma prova do segundo ano do curso de Medicina. 
 
Ele não concluiu o curso, mas nunca contou isso nem para o pai, nem para a mãe, nem para a futura mulher e nem para os filhos ou para uma amante, quando os teve depois de casado.
 
No lugar disso, Rommand construiu uma ficção da sua própria vida na qual tinha um emprego na Organização Mundial da Saúde, do outro lado da fronteira. 
 
O custo desse reality show para um espectador só era pago pelo dinheiro das economias de familiares e amigos, que ele prometia depositar na Suíça, onde os rendimentos são muito maiores do que na França. 
 
Quando o esquema piramidal se tornou insustentável Rommand cometeu os assassinatos, comprou os jornais do dia, assistiu algumas horas de TV e depois tentou suicídio com barbitúricos após atear fogo a sua casa. Foi salvo pelos bombeiros.
 
O fatos do caso foram relacionados em 48h pela polícia local, com algumas ligações para a OMS. Rommand segue sendo um mistério.
 
@@@
 
Dizia aquela música do Legião Urbana que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. Pode ser.  
 
Mas é bom lembrar que uma das piores coisas que pode acontecer a um mentiroso é que as pessoas acreditem nele.
 
@@@
 
As histórias do formando que sumiu e do Jean Claude Rommand não deixam de ser cases, um meio triste e outro bastante mórbido, sobre segurança da informação.
 
Chama a atenção a facilidade com que uma terceira parte descobriu a verdade sobre o assunto, ao ser capaz de questionar informações fundamentais que outros assumiam por certas.
 
@@@
 
Rommand conseguiu que boa parte do conhecimento do mundo sobre ele fosse uma simulação total, pelo menos na medida em que nosso trabalho, nossa formação e nossas aplicações financeiras nos definem, o que é ainda outra discussão.
 
Hoje, milhões de pessoas trabalham seus próprios simulacros todos os dias, vivendo uma vida real e uma narração da própria vida em diferentes redes sociais.
 
Ao mesmo tempo, o tamanho da mentira de Rommand, que dizia sair para trabalhar na OMS todas as manhãs para passar os dias lendo jornais, relatórios sobre medicina e passeando nos bosques da região, parece ser impossível no mundo de hoje.
 
Ou será que não?
 
@@@
 
A história de Jean Claude Rommand é tema de um livro e um filme. Recomendo os dois.
Maurício Renner

Maurício Renner é editor do Baguete Diário...

COMENTÁRIOS
felipebasso
felipebasso

postado em: seg, 13/02/2012 - 13:10

Mentir pra si não tem perdão (Nasi)

Alexandre Costa

postado em: qua, 08/02/2012 - 16:50

Na vida virtual sempre se tem uma segunda chance ou até a primeira para quem nunca teve, o AVATAR virtual pode ser uma saída para todos os problemas e responsabilidades reais de nossa vida.

Apredi isto trabalhando com a gerção Y....

Continue com tua coluna!

Abçs,
Alexandre

Tiago Rosa

postado em: ter, 07/02/2012 - 15:56

Eu trabalho com mídias sociais numa multinacional, e o que eu posso dizer é que muita gente tenta transmitir uma imagem virtual superior ao que é a sua real imagem. Falsa, em alguns casos. Numa sociedade onde cada vez é mais difícil assumir o fracasso e todos querem de alguma forma aparecer ou pelo menos aparecer mais que os outros, por vezes é mais fácil tentar algo no mundo virtual que no mundo real.
Seja o cidadão que é chato na vida real e um comediante no facebook, o mal amado da vida real que tem um blog sobre como conquistar mulheres ou o fulano que não tem onde cair morto e adora contar vantagem no twitter....
Ótimo texto, Maurício! (All-In)

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