Janer Cristaldo // quarta-feira, 01/02/2012 12:51
Por esta Cesare Battisti certamente não esperava. Condenado à prisão perpétua na Itália, foi recebido quase com honras de chefe de Estado no Palácio Piratini, em Porto Alegre. Desfilou ainda pela imprensa gaúcha e pelo centro da cidade com uma aura e sorrisos de celebridade.
Em março de 2007, o terrorista foi preso quando passeava tranqüilamente no calçadão de Copacabana. Ligado às Brigadas Vermelhas, que durante dez anos sabotaram fábricas, assaltaram bancos e realizaram atentados contra juízes, jornalistas, policiais e empresários, culminando com o seqüestro e assassinato do ex-premiê Aldo Moro, em 1978, Battisti foi condenado à prisão perpétua - à revelia - por quatro homicídios nos anos 70.
Battisti se diz inocente. Mas não ousou comparecer aos tribunais para defender-se quando estava sendo julgado. Estava gozando de um exílio idílico na França, graças a uma lei de Mitterrand que negava extradição a terroristas italianos.
Em 2004, com a cassação do asilo, fugiu para o Brasil, para não ser reenviado à Itália. Sua escolha foi sensata. O Brasil está se tornando um resort de luxo para terroristas aposentados. É o único lugar do mundo em que guerrilheiros presos e condenados por ações terroristas estão hoje confortavelmente sentados nos altos escalões do poder. Battisti deve ter intuído que encontraria nas praias cariocas o meio-ambiente ideal para gozar ses vieux jours. Antonio Negri, outro terrorista italiano, ligado às Brigadas Vermelhas e responsável por inúmeros crimes, ganhou coluna na Folha de São Paulo. Por seus feitos, certamente.
Com a ameaça de extradição de Battisti para Itália, Fernando Gabeira imediatamente saiu em socorro do companheiro de terror e liderou um movimento, junto ao governo e parlamentares, para evitar que Battisti tivesse de cumprir a pena a que foi condenado na Itália: prisão perpétua.
Gabeira certamente terá êxito – escrevi na época. O Supremo Tribunal Federal já havia negado extradição a três outros terroristas italianos: Achille Lolo, acusado de matar duas crianças em incêndio e hoje assessor oficioso do PSOL; Luciano Pessina, membro das Brigadas Vermelhas e Pietro Mancini, participante da organização Autonomia Operária.
Gabeira teve êxito. Em 2009, quando ministro da Justiça, o stalinista Tarso Genro concedeu asilo político ao assassino. "A sua potencial impossibilidade de ampla defesa face à radicalização da situação política na Itália, no mínimo, geram uma profunda dúvida sobre se o recorrente teve direito ao devido processo legal", dizia o texto assinado por Tarso ao justificar a concessão do refúgio. Como se a Itália contemporânea fosse uma ditadura onde um réu não tem direito à defesa. Battisti foi condenado à revelia porque estava refugiado na França, sob as asas protetoras do colaborador nazista François Mitterrand.
O Brasil já teve fama internacional por ser um país generoso com assaltantes internacionais e mafiosos. Você já deve ter visto não poucos filmes em que um vigarista bem sucedido, já nas cenas finais, após livrar-se da polícia, prepara as malas com uma bela cúmplice e escolhe seu rumo com um sorriso beatífico: Brasil. Os tempos mudaram. Atualmente estamos recebendo de braços abertos uma nova safra de delinqüentes, os terroristas.
Em Porto Alegre, Battisti foi recebido com abraços no palácio do governo por Tarso Genro, que acaba de voltar das Disneylândia das esquerdas tecendo loas à ditadura cubana. Tudo muito coerente. O capitão-de-mato que devolveu ao gulag tropical dois dissidentes que buscavam refúgio no Brasil, recebe agora os agradecimentos do terrorista ao qual ofereceu refúgio.
Diz Battisti em entrevista à Zero Hora:
- Tarso como homem, ministro e hoje governador é uma pessoa que mostrou ter um valor muito alto de ética e de coragem política. Quando ele teve de se expressar e decidir sobre o meu caso, mostrou tudo isso. Eu tinha muita vontade de conhecê-lo pessoalmente e de apertar a mão dele, como hoje aconteceu.
Tarso desejou que Battisti fizesse bom proveito da liberdade. Que aproveitasse a generosidade do povo brasileiro. O criminoso quer agora encontrar-se com Lula, que foi o responsável, em última instância, por seu asilo. Lula, que já abraçou Kadafi e o saudou como “amigo e irmão”, certamente não verá nisto nenhum inconveniente.
A Zero Hora, gentilmente, define o terrorista como ativista. A Folha de São também é gentil. Fala em ex-terrorista. Ora, se Battisti é inocente dos assassinatos pelos quais é acusado – como pretende – nunca foi terrorista nem pode ser ex-terrorista. Se é culpado, como foi julgado, é terrorista e terrorista continua sendo, pois em momento algum renegou seu passado.
O ativista Bin Laden teve uma idéia infeliz ao refugiar-se no Paquistão. Viesse para o Brasil não precisaria esconder-se e estaria sendo caitituado pela imprensa e recebido por governadores.
Por falar em Tarso, está ficando cada vez mais difícil para as esquerdas ir a Cuba e falar da viagem. Tanto Tarso como Luciana Genro voltaram de cabeça gacha e nada disseram sobre o país. Falaram muito, isto sim, contra os Estados Unidos. De Guantanamo e do embargo.
Tarso chegou a falar em bloqueio. Ora, bloqueio naval foi o que decretou John Kennedy, em 1962, para obrigar um desmoralizado Castro a devolver à União Soviética os mísseis e ogivas que Kruschov lhe enviara. Terminada a crise, terminou o bloqueio. O que existe agora é embargo comercial. Embargo para inglês ver, pois boa parte dos países ocidentais está negociando com Cuba. Dona Dilma, por exemplo, foi levar à Disneylândia das esquerdas um aporte de US$ 523 milhões, questão de dar um pouco de oxigênio a uma ditadura cuja economia agoniza na UTI.
Por falar em Dona Dilma... nenhum pio sobre direitos humanos. Para justificar seu silêncio, chegou a acusar seu próprio país de ferir direitos humanos. Atabalhoada, juntou duas expressões proverbiais que nada têm a ver uma com a outra, para justiticar sua omissão: “"Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós no Brasil temos o nosso”. O dito é outro: não atira pedra quem tem telhado de vidro. Quem atira a primeira, pode muito bem não ter telhado de vidro.
E dê-lhe o mantra: Estados Unidos, Guantánamo, embargo. Comunista adora ir a Cuba. Para falar dos Estados Unidos. Cuba é a melhor tribuna do mundo para xingar o Império. Sobre Cuba, silêncio obsequioso. O que me lembra um diálogo de Kennedy com Kruschov.
- Nossos cineastas têm toda a liberdade para criticar os Estados Unidos – disse o americano.
- Os nossos também, respondeu o russo.
Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo....
postado em: sab, 04/02/2012 - 16:59
E pensar que Chico Buarque achava que a censura aqui era a pior do mundo... em Cuba,sim, a vida é simplesmente maravilhosa!!!
http://oglobo.globo.com/mundo/pode-tentar-quantas-vezes-quiser-diz-havan...
postado em: sab, 04/02/2012 - 08:03
Jornalistas brasileiros que ainda se atrevem a fazer reposrtagens, mostrando realmente como vive o povo cubano, só irritam os fanzocas do regime da paradisíaca ilha, porque exibem a verdade do que veem, do que suas câmeras podem captar,sempre sob o supervisão da polícia de lá. A liberdade dolugar é tão boa que há mesmo essa necessidade de se dar atenção e assessoramento aos nossos jornalistas. Isso para evitar assédio do povão, atrapalhando-os na hora de tirarem fotos,por exemplo.
Imperdoável mesmo é não deixar passar o projeto de censura que o excelente governo petista deseja impor garganta abaixo à nossa imprensa.
Na época da ditadura brasileira (a militar foi uma delas, verdade seja dita) a censura foi tão dura que a publicação de livros de esquerda foi recorde e educação do país continuou nas mãoes de socialistas e comunistas do maternal ao pós-doutorado. Hoje colemos os bons frutos disso,ocupando um lugar privilegiado no ranking munidal da educação. Basta o curioso pesquisar, porque não darei aqui de graça tais informações, embora as tenha para esfregar na cara de qualquer idiota.
Não importa se ditadura a ditadura é de direita ou de esquerda. Ditadura é essencialmente ruim, porém as de esquerda, ou melhor,as "do proletariado" (prefiro dizer as "sobre o proletariado") conseguem a proeza de superar anos luz as de direita. Porém, quando se usa a matemática para computar apenas os mortos entre a tal ditadura militar brasileiira e a cubana,chinesa, ou soviética, por exemplo,e as indenizações que as famílias receberam, esquerdistas daqui dão logo chilique, muxôxo, ficam irritadinhos, negam,afirmando que é tudo uma grande mentira manipulada. Dane-se o "Livro Negro do Comunismo" e "Protocolos de Moscou". Preferem citar o vergonhoso "Livro Negro do Capitalismo" e outros mais.
Quanto aos EUA, não se preocupem: desde a eraClinton que deu uma guinada mais forte à esquerda. Obama ( "O cara") está fazendo a parte dele também. Trata-se de um invejável país e isso irrita os demais. Por despeito,por inveja, por incompetência e outras tantas coisas mais, há sempre o desejo de destruir,ou melhor, "desconstruir" a irritante democracia norte-americana. Podem ocorrer crises, desemprego, guerras que fazem em toda parte do planeta,exceto dentro de seu território, ou isso ou aquilo, os EUA seguem em frente, fazendo com que milhares de pessoas de todas as nacionalidades solicitem um green card. Outras são sorteadas na loteria que promovem. Já ouvi dizer que Cuba, China e Coreia do Norte, por exemplo, desejam fazer o mesmo.
postado em: qui, 02/02/2012 - 09:44
Comunismo só é possível sem direitos e sem liberdade. Cuba já tá liberalizando. Até a China não suporta mais 50 anos. O capitalismo tem seus defeitos mas nele quem é competente consegue. Este não precisa ser bajulador do partido pra arrumar cargo comissionado.
Antonio
postado em: qui, 02/02/2012 - 00:17
Bem lembrado!Como tem aquela turma - Tarso, Dilma, Luciana Genro, Marco Aurélio Garcia et caterva - que só se preocupa com ditadura quando é de direita, eu tento equilibrar o jogo.
postado em: qua, 01/02/2012 - 15:22
Boa tarde, meu nobre. Sei que não trato do tema da coluna, mas espero
vênia. Procuro saber onde posso encontrar os números publicados do RS, pois
fui leitor (inclusive assinante) do mesmo em tempos de antanho. Já andei
procurando sem sucesso na rede. Sabes me dizer se existe alguém ou algum
lugar onde posso obtê-los?
Um abraço.
Frederico Dornel
postado em: qua, 01/02/2012 - 19:17
Não tenho idéia, Frederico. Mas se você anda atrás de meus artigos, encontrará boa parte do que escrevi no RS em Crônicas da Guerra Fria:
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/cronicasdaguerrafria.html
postado em: qua, 01/02/2012 - 13:17
"Comunista adora ir a Cuba. Para falar dos Estados Unidos. "
Não será o oposto, jornalista de direita que adora aproveitar oportunidade para perguntar só o que convém?
Mas devem ser perdoados, afinal representam e alimentam uma grande parcela do público com a mesma opinião.
Esses que citam Cuba com preocupação constante, mas minutos depois já falam da ditadura brasileira com saudade (mesmo os que não a viveram) ou omissão.
A verdade escancarada é que só se preocupam com ditadura quando de esquerda.
E isso tudo se pode projetar para a opinião internacional: Quando Iranianos e palestinos são postos como eternos suspeitos e não se critica as ações dos EUA e sua sucursal do oriente médio.