Coisa de ianques

Janer Cristaldo - quarta-feira, 12/05/2010 - 10:10
-A +A
""

As pessoas têm de aprender a conviver com os "sem-deus" – diz hoje na Folha de São Paulo Daniel Dennet, escritor a quem o jornal confere o título de filósofo. Li pelo menos dois livros do autor e não vi nele filósofo algum. É apenas um pensador que contesta o teísmo, sempre opondo o evolucionismo às crenças religiosas.

É mania típica de americano contrapor Darwin à Bíblia. Nunca me ocorreu negar a existência de Deus através da ciência. Para descrer de qualquer deus, basta ler história das religiões. Para descrer do deus cristão, uma leitura atenta da Bíblia é mais do que suficiente.

Dennet fala de aprender a conviver com os sem-deus. Deve ser coisa daquele estranho país, que produziu a bomba, mandou o homem à lua, mandou naves além do sistema solar e continua sendo uma nação onde proliferam religiosos fanáticos. Comentei há dois dias o livro de outro ianque, que afirmava: "O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural". Deve também ser coisa lá daquele estranho país. Porque cá, entre nós, desde há muito ser homossexual não constitui peso algum.

Segundo Dennet, “ainda há enormes áreas do país onde, se você disser que não acredita em Deus, vai perder seus amigos, seu negócio. Nesse ponto, os ateus estão mais ou menos na mesma posição em que estavam os homossexuais nos anos 1950, ou seja, se você admitir que pertence a esse grupo, sua vida está arruinada”. Se procede a afirmação do “filósofo” – e vamos admitir que proceda – os Estados Unidos, apesar de sua ciência, sua tecnologia, sua riqueza, é hoje país tão intolerante quanto um emirado árabe.

Sou ateu desde meus verdes anos e nunca perdi amigos nem amigas por isso. Até hoje continuo conversando com minha professora de francês dos dias de ginásio, católica devota que até hoje não renegou – pelo que sei – sua fé. Após descrer, continuei mantendo boas relações com os padres que me falavam de Deus e correlatos, e minha descrença nunca afetou nosso diálogo. Verdade que os perdi no tempo e no espaço. Largaram a batina, casaram, tiveram filhos e desapareceram no vasto mundo. Se hoje não conversamos, não é por questão de fé ou descrença. Como se diz, a vida nos separou.

Nunca me senti discriminado por ser ateu e duvido que alguém o seja neste país. Claro que se eu me manifestar como descrente em Deus nalgum culto dos bispos evangélicos, certamente sofreria um violento exorcismo. Fora esta hipótese pra lá de hipotética, por ser ateu nunca perdi amigos nem negócios. Falo em negócios por alusão a Dennet, pois jamais fiz negócios em minha vida.

Perdi amigos e namoradas, isto sim – e mesmo empregos – por não ser marxista. Quem discriminou este ateu que vos escreve foram outros ateus, que professavam um ateísmo fanatizado e virulento. Nos dias de universidade, se eu me interessava por uma colega, bastava uma frase mágica para afastá-la de mim: “ele é de direita”. Ou seja, eu não era marxista. Já estive nu debaixo de uma ducha com uma árdega militante, que me afastou delicadamente com as mãos: “sinto desejo por ti, pena que política e ideologicamente não combinamos”.

Jamais tive uma namorada marxista. Espíritas, católicas e até mesmo budistas, sim. Desde que pequem, nada contra. Pecar é mais fácil do que trair a luta de classes. Aníbal Damasceno Ferreira, um de meus mestres, me dizia: "Tu estás contra toda tua geração". Na época, eu não entendia muito bem a afirmação. Mais tarde, entendi. Eu não era marxista.

Em Florianópolis, quando lá estava se instalando o Diário Catarinense, fui convidado pelo editor a assinar uma coluna. Pediu-me uma crônica, para testá-la na edição zero do jornal. Enviei-a. Na época, Stroessner, o ditador paraguaio, estava doente. Sugeri que as esquerdas rezassem pela saúde de Stroessner. Como também pela de Pinochet. Não que eu fosse defensor incondicional desses senhores. É que, após suas mortes, Castro seria o último ditador do continente. Pra quê? - leitor. Minha crônica circulou pelos terminais e foi vetada pela redação. O editor preferiu não confrontar a comunada. “Tu não podes escrever uma coisa dessas!” – vociferava indignada uma adorável comunista, em plena Beira-Mar. “Mas não é verdade? – ousei objetar. “É. Mas isso não pode ser dito”. Fui demitido por Fidel Alejandro Castro Ruz. Não devo ter sido o único.

Antes mesmo de assumir a coluna, fui ejetado do jornal. Como mais tarde fui ejetado da universidade. Neste caso, as razões não foram ideológicas. Mas fosse eu comunista, até hoje talvez estivesse vegetando em meio aos miasmas ilhéus. Desconheço caso de comunista que tenha sido expulso da academia.

Verdade que, há algumas décadas, ser ateu não recomendava ninguém no Brasil para a Presidência da República. Fernando Henrique que o diga. Candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, deve ter perdido não poucos votos, quando vacilou ante a pergunta se acreditava em Deus:

- É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de alguém que quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que este nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo e, na medida em que respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Ficou tão atrapalhado que chamou Casoy de deputado. Interrogado sobre o mesmo assunto, Lula saiu pela tangente. Disse algo mais ou menos assim: não importa se acredito em Deus. O que importa é se Deus acredita em mim. Mesmo hoje, duvido que um Serra ou Dilma, velhos comunossauros, ousem afirmar que não acreditam na divindade.

Os tempos mudaram. Hoje até mesmo divorciada aspira ao trono. Mas isto diz respeito a candidatos ao poder, que precisam satisfazer os baixos instintos do eleitorado. Noves fora esta luta pelo voto, não consigo ver nestes trópicos discriminação nenhuma a ateus.

Pelo jeito, é coisa de ianques.

Janer Cristaldo

Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo....
<< Voltar
Andre ter, 31/08/2010 - 19:17

O preconceito contra ateus (assim como o preconceito étnico, classista e político) é evidente no Brasil. Quem afirmar o contrario está completamente desligado da realidade que o cerca (eu ia dizer alienado, mas é um termo marxista hoje ja fora de moda). O problema é que nós nao assumimos nossos preconceitos abertamente, criando um tipo peculiar de preconceito: temperado com o "jeitinho brasileiro", cordial ao gosto de Sergio Buarque. O pior tipo, talvez, pois nao aparece de imediato, mas que esta tao introjetado em nós, e faz tao parte de nós, e que por isso mesmo nao nos damos conta dele.

Veridiana sex, 20/08/2010 - 15:36

"Nunca me senti discriminado por ser ateu e duvido que alguém o seja neste país"

Por que você nunca sofreu discriminação então duvida que alguém seja? Que primôr de raciocínio hein? Diga isso ao Chico Anysio que recentemente foi duramente críticado e ofendido por fâs depois que se declarou ateu; diga isso ao aluno que foi expulso da sala de aula numa escola PÚBLICA porque ele se recusou a tirar um boné durante a "hora da oração" (www.youtube.com/watch?v=vmUfYRaAAPg)

Poderia citar inúmeros outros casos, mas não vou entregar tudo mastigado para você. Faça uma breve pesquisa e se informe melhor. Agora saia de seu mundo pequeno e viva a realidade.

Yuri seg, 16/08/2010 - 22:04

São os ateus que estão coçando sarna indo na onda do Dawkins, Dennet e cia.

Mailson sab, 24/07/2010 - 11:26

Pra mim, o Sr. Janer foi demasiadamente crítico quanto ao aspecto de "perder amigos''. Não é que vc os perderá, mas que sempre existirá uma piadinha ou algo por trás pelo fato de vc ser ateu, isso é inegável. Parece que os religiosos ficam a todo momento observando até o momento que por simples instinto vocabular vc solte um "meu deus" ou coisa parecida, para que role a discriminação contida no fato de não acreditarem que possa existir alguém ateu. Enquanto a segunda parte do texto, existe tmb preconceito aos não marxistas, eu tive o prazer de não sofrer com isso na faculdade de História, pois hoje em dia esse aspecto marxista diminuiu um pouco, mas o que o autor sofreu com o preconceito marxista simplesmente não anula ou diminui o aspecto do preconceito ateu, são assuntos diferentes que devem ser tratados em óticas diferentes, na minha opinião!

Igor ter, 22/06/2010 - 03:09

O Sr Janer deve viver em outro planeta.
Eu, como ateu (não-ativista, diga-se de passagem), já perdi vários amigos, SIM. Sou mal visto, discriminado e ridicularizado, SIM.
Sorte a sua, Senhor Janer, nunca ter sofrido isso. Mas eu, e outros milhões de ateus do Brasil, sofremos.

gabriel seg, 17/05/2010 - 20:40

ridículo.
cristaldo é daqueles que acham que preconceito não existe, ou só existe quando ele se manifesta de forma direta.
os homossexuais ainda são extremamente discriminados, e é um dos preconceitos mais enraizados em nossa sociedade. não é dizendo "eu tenho um amigo gay" que vc está imune ao preconceito.
com os ateus a coisa é semelhante. já fui mal visto inúmeras vezes por ser ateu. é um absurdo pras pessoas ainda conceber que alguém simplesmente não acredita em deus.
o diferente é sempre mal visto, seja ateu, gay, negro ou mesmo, como eu, marxista. pois é, eu já perdi emprego por descobrirem que eu era marxista, ao contrário do autor da coluna. eu inclusive acredito nele, pois ideologias contrárias não são bem vindas em certos redutos, na esquerda ou na direita, por puro preconceito mesmo. e até hoje, não foi só coisa de guerra fria.
infelizmente, a maioria de nós ainda rejeita o diferente, e esconde seus preconceitos nesse mito da convivência pacífica e democrática.
o primeiro passo é combater o mito, e é nesse sentido que o colunista é extremamente infeliz

Dedeco seg, 17/05/2010 - 19:43

Não faz sentido chamar o preconceito e a discriminação que sofrem os ateus de outra coisa. Pior cego é aquele que não quer ver.

Juliana dom, 16/05/2010 - 16:19

Ateus são discriminado, sim. A nossa sorte é que não temos escrito em nossa testas ATEU ou ATÉIA, no meu caso. Do contrário, a vida de vários ateus seria um "inferno".

César sex, 14/05/2010 - 14:23

Janer, olhando essa sua foto no site de relance é o Lula escrito!!!! Cuidado!!!!

Alexandre qui, 13/05/2010 - 14:44

Sorte a sua não ser discriminado. Que bom pra vc. Mas não é meu caso, nem da maioria dos ateus que conheço. Infelizmente já fui discriminado no que diz respeito a moral. Depois, ficaram "surpresos" ao constatar que sou uma pessoa "normal", "honesta", que "respeita o próximo", é bom pai e bom cidadão.

jorge dib qua, 12/05/2010 - 17:01

ateus, sao pessoas que nao acreditam em divindades, nao acreditamos em nenhum deus, assim como os teístas cristaos, eles rejeitam todos os outros deuses, thor, zeus, shiva, mitra entre outros, taístas cristao sao ateus em relação a todos os outros deuses, nos somos apenas um a mais. quando eles entenderem pq rejeitam todos os outros deuses possiveis, entenderao pq rejeitamnos o dele.
(alguem algum dia disse isso) rss..
ABRAÇOS A TODAS (OS) E FIQUEM COM DEUS, COM TODOS OS 40.000 QUE EXISTEM.

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
VALIDAÇÃO
Esta questão serve para validar se você é um leitor do Baguete!
Image CAPTCHA
Digite os caracteres que aparecem na imagem.

Entrevista

Gerente de TI da Mundial detalha implantação do ERP Oracle, entre outros projetos.

Enquete

Onde você gostaria trabalhar?: