Se a culpa é do dinheiro, me consigam uma doze!
Samuel Ramos - quarta-feira, 05/05/2010 - 11:29Recentemente tomei contato com um material, escrito por crianças devidamente “educadas”, que versava sobre alguns problemas do mundo. Como é de praxe, nestes casos, a problemática e a “solucionática” giram em torno de dois ou três temas, sendo o mais comum deles atribuir ao dinheiro e aos lucros das pessoas/pessoas/negócios a culpa sobre todas as coisas erradas do mondo.
Esse tipo de pensamento, que atribui ao dinheiro uma caracterização quase maligna, é praticamente onipresente na cultura (?) brasileira. É também um legado judaíco cristão do catolicismo que foi ensinado empurrado pelos padres portugueses aos “selvagens” que aqui habitavam.
Provas de que a idéia ainda persiste por aqui não são apenas encontradas no reflexo do que “ensinam” muitos professores. A igreja católica, esse ano, resolveu aproveitar a falta de reflexão que a crise de 2008/2009 trouxe e sentenciou ao apredrejamento, à fogueira e ao pedofilismo ele, o maldito dinheiro.

Losers religion
No país que revolucionou a maneira como as riquezas são construídas, os Estados Unidos, o catolicismo não possui a mesma (ui) penetração que registra em países de terceiro mundo. Dentre outras razões, que desconheço, sei que o catolicismo é considerado lá, por muitas pessoas, como a “losers religion” (religião dos perdedores).
A falta de representatividade do catolicismo lá é amparada pela relação que o país que inventou o capitalismo possui com o dinheiro: até 1776, ano da independência americana, não havia na história registros significativos de pessoas “que se fizeram” (self made man). A noção existente até então pregava que riquezas apenas existiam em quantidade limitada, e o acesso a elas só poderia ser feito pela força, caridade, herança, divisão, roubo/fraude ou obtida como favor. Os americanos quebraram isso ao inventar a expressão “to make money” (fazer dinheiro), e a partir daí o mundo descobriu que as riquezas não só não existiam em quantidades estáticas, mas também estavam a disposição de quem tivesse a capacidade e a virtude de enxergar oportunidades para ganhar dinheiro.
Dólares ou pólvora e sangue?
Devia parecer bastante óbvio, mas não é.
O dinheiro não é nada mais do que um meio de intercâmbio. Culpar o dinheiro pelos males do mundo, ignorando a natureza mesquinha do ser humano, é tirar o sofá da sala.
Do ponto de vista prático, o dinheiro só existe porque existem bens a serem produzidos, e homens que podem produzí-los. A moeda é apenas uma ferramenta, e o que cada um faz com ela não é problema do dinheiro, mas sim do próprio vivente que o possui.
Esses que acham que o dinheiro é o grande vilão da história, deviam entender uma simples prerrogativa: o dia em que o dinheiro deixar de ser o meio pelo qual os homens negociam entre si, não sobrarão muitas alternativas viáveis. Sei que alguns ripongos dirão “temos o amor e a fraternidade”, mas ao cair do dia tudo se resolverá na base da força bruta, da pólvora e do sangue.
Faça sua escolha.
Samuel Ramos
* Samuel Ramos é jornalista e editor do Viés Financeiro (www.viesfinanceiro.com). Também é diretor de redação da Plena Comunicação e Propaganda (www.plenapublicidade.com.br)....
Bom, se pensas que transporte público e sistema universal de saúde são "socialismo barato", tens que admitir que estás num ponto bem avançado da direita. Muitas soluções coletivas são essenciais para a vida moderna. Sem estradas e ruas, teríamos que pagar para atravessar cada propriedade no caminho, como no mundo feudal. Sem banco central e governo, teríamos sérios problemas para fazer comérico: que moeda usaríamos? Sem polícia e sistema judiciário, os negócios iam virar domínio de mafiosos.
Mas se liberdade significa morar num clã familiar, criar cabras e defender-se dos outros à espada e flechadas, então tenho que conceder que tens razão.
A discussão sócio-política nacional parece travada num ponto entre Marx e Smith, enquanto os gringos já estão em Nash, Tobin, Coase, Ostrom, etc. Não sou nenhum admirador da Igreja Católica, mas acho que a campanha veio numa boa hora. Estamos esquecendo que o objetivo da riqueza é viver melhor e não simplesmente acumular mais riqueza. Eles são reliogiosos, então obviamente a proposta deles é religiosa, mas a idéia fundamental é inteligente.
Muito simplista esta análise. O dinheiro é apenas uma representação de riqueza, sim, mas isso não significa que não possa ser mal usado. Nem que tudo que é bom ou útil tenha que ser monetizado. A vovó não prepara a canjica do netinho por recompensas materiais. E os jogos financeiros podem ser extremamente danosos, como os Argentinos podem atestar.
E se vamos nos espelhar nos americanos, não podemos só aproveitar o que convém. Os ricos aqui reclamam que o estado é paternalista, mas é paternalista com eles, não com os pobres. Universidades públicas, pensões de filhas de militares, juízes aposentados aos 48 anos, etc., são inconcebíveis lá. Aqui, uma pessoa que ganha até dois salários mínimos paga 53,9% do salário em impostos, segundo o IPEA. Quem ganha 30 salários, paga 29%.
Acredite, muitas soluções economicas funcionam melhor quando pensadas para o coletivo. Transporte de massa é mais barato para a sociedade como um todo que o individualismo extremo do automóvel (por isso o Metro de Nova Iorque é subsidiado e mais barato que andar de ônibus em Sampa). Os próprios americanos estão começando a perceber que o sistema de saúde deles (no estilo cada um por si) é mais caro que os sistemas universais da Europa e do Canadá.
E para terminar, o surpreendemente motivo pelo qual os americanos são solitários:
http://www.alternet.org/vision/146623/the_surprising_reason_why_american...
Samuca, excelente abordagem. Sobrevive no inconsciente coletivo tupiniquim a noção de que o mundo financeiro é um jogo de soma zero, no qual o próspero tira do infortunado. Essa é uma das bases culturais que sedimenta o Welfare State em que vivemos. []s
"O dinheiro é apenas uma representação de riqueza, sim, mas isso não significa que não possa ser mal usado"
Acho que você não leu o que escrevi.
No más, tens razão quanto a alguns pontos sobre o Braziu, país que importou uma versão distorcida do capitalismo americano.
Porém, isso não justifica as idéias do seu último parágrafo, em que defendes a restrição das habilidades/conquistas individuais em prol do "coletivo". Isso é socialismo barato que, embora esteja na moda, não leva a lugar algum.