Jaime Wagner // terça-feira, 09/12/2008 17:49
Vivemos entre duas éticas: o hedonismo consumista e o moralismo utilitarista. Duas finalidades da vida, duas visões de felicidade. De um lado, a felicidade sensitiva de desfrutar o prazer: ser feliz é sentir-se feliz. Do outro lado, a felicidade cognitiva de conhecer o dever e saber cumpri-lo: ser feliz é saber-se feliz.
Para o hedonista moderno a boa vida é uma série de prazeres que podem ser comprados e o dinheiro é a chave de acesso ao paraíso. É preciso ter dinheiro suficiente, pouco importa a forma de obtê-lo. Tampouco interessa acumulá-lo – a cigarra hedonista não poupa. O hedonista não deseja o dinheiro em si, mas sim o prazer que ele proporciona (quem ama o dinheiro é o avaro).
Trabalho é apenas uma forma de conseguir dinheiro. Mas requer esforço. Melhor tirar a sorte grande ou herdar. Só não vale roubar. O hedonista é um individualista, mas não é necessariamente egoísta, não coloca sua felicidade acima da felicidade do outro. O outro é sempre um indivíduo, um igual, e não há tal coisa como uma felicidade geral, uma entidade coletiva acima ou separada dos indivíduos.
Se para o hedonismo o trabalho é o preço do consumo, para o moralismo utilitarista o trabalho em si é a própria finalidade. A verdadeira felicidade está em ser útil, em servir, em aumentar a felicidade geral, até mesmo (ou ainda melhor) com algum sacrifício pessoal. Trabalho é geração de valor e todo valor é social. Gerar valor, ser socialmente útil, eis o dever maior: o dever de ser uma pessoa melhor.
Em que sentido? No sentido de um ideal. Há que conhecer esse ideal (mesmo que inatingível), e todo esforço para agir nesse sentido é uma recompensa em si mesmo. O trabalho é a própria finalidade: criar valor. O utilitarismo, mesmo reconhecendo que a felicidade geral seja a quantidade de prazer global que a coletividade possa desfrutar, ainda é um idealismo.
Mesmo que negue a existência de uma forma ideal do Bem e admita que todo ideal é social e historicamente determinado, o utilitarista é transcendente, pois sabe que o ideal social está acima dos indivíduos comuns.
O hedonismo tem duas vertentes. O hedonismo ativo de Aristipo afirma que felicidade é desfrutar o prazer. E não há sentido em recusar um prazer presente em nome de uma promessa de prazer maior no futuro. Desfrutar agora, de preferência sem esforço. O hedonismo em repouso de Epicuro também iguala felicidade e prazer, mas condena a sua busca ativa: o desejo que pode originar a dor da carência. Para Epicuro a felicidade é um estado de plenitude, serenidade e harmonia (ataraxia) propiciado pela ausência de dor e de carências. Epicuro, apesar de hedonista, condenaria o marketing de consumo.
Epicuro classificou o desejo em duas dimensões (necessidade e natureza), mas vislumbrou apenas três categorias. A satisfação de um desejo natural e necessário, como a fome ou a sede é mandatória, porém deve-se evitar o excesso. O sexo é um exemplo de desejo natural mas não necessário.
Esses desejos devem ser desfrutados, mas pode-se viver sem eles. O exemplo de Epicuro para um desejo nem natural nem necessário é a acumulação de dinheiro, e ele recomendava evitar os desejos dessa espécie. Para Epicuro não existiriam desejos necessários que não fossem naturais. É que Epicuro não conheceu o celular, o automóvel, a Internet e toda a parafernália que viabiliza a complexidade e velocidade da sociedade moderna, artificial (no sentido de não natural) e tecnológica. É justamente na esfera dessa espécie de desejo necessário e não natural, inexistente para Epicuro, que o marketing trabalha.
É injusto condenar o marketing como meramente consumista ou puramente comercial. Ele também promove causas nobres e seus apelos vão muito além do hedonismo ativo tocando até a vontade de sentido idealista. Mas sempre com uma intenção de influência, de mudar a atitude, de mobilizar para a ação. E, cá entre nós, na maioria das vezes, a ação visada é o ato de comprar e se aplica aquela definição jocosa de que o marketing é a “fina arte de separar as pessoas do seu dinheiro”.
postado em: qua, 10/12/2008 - 17:00
Oi Jaime,
Ótimo tratado filosófico contemplando a atualidade do marketing com o classicismo da filosofia de Epicuro.
Eu ousaria dizer que a dicotomia hedonismo consumista X moralismo utilitarista poderia ser abstraída através dos pólos yin e yang da filosofia chinesa, ou através dos deuses gregos Apolo e Dionísio (bem retratados e personificados no livro Narciso e Goldmund, do Hermann Hesse). Realmente na atualidade vivemos entre estas duas éticas, estas duas forças que direcionam nossas ações.
Poderíamos utilizar a Hierarquia das Necessidades de Maslow em uma tentativa de definir uma ordem de valores para estas duas práticas. Parece-me que o moralismo utilitarista, por abranger um aspecto mais transcendente de realização pessoal através dos outros, seria uma prática mais nobre, estando em uma hierarquia de valores, em um patamar mais alto que o hedonismo consumista.