Jaime Wagner // segunda-feira, 11/02/2008 17:11
Não deixa de surpreender que entidades empresariais sejam freqüentadas e até presididas por advogados, fenômeno que se estende aos “think tanks” liberais, numa simbiose complementar.
Afinal, a profissão de fé do empresário é a confiança enquanto o advogado é o profissional da desconfiança. O empresário está, por assim dizer, no contraponto emocional do advogado. Seu sentimento básico segue a máxima de Mill: “A ação conjunta [empresa] é possível apenas na medida em que os seres humanos podem contar uns com os outros”. Para ele o risco compensa. O advogado, por seu turno é treinado para a desconfiança, para advertir e evitar riscos. Quanto mais capaz de ver e lidar com a maldade, tanto melhor. Se seguissem os conselhos dos advogados os empresários não investiriam.
Outra explicação resultante de uma simplificação tão grosseira quanto a anterior é a de que empresários “não têm tempo para ler”, ocupados que estão com a objetividade embrutecedora da vida econômica e a urgência em ganhar dinheiro. Já os advogados, instruídos nas artes da retórica saberiam o valor da leitura. Bem falar para convencer. Porque no limite a política e a moral se encontram lá onde o certo é o convencionado pela maioria ou o ordenado pelo príncipe. Mas em épocas de instantaneidades, que tem tempo (paciência) para fazer a própria cabeça? Quem consegue manter a atenção (segurar a ansiedade) sem partir para a “próxima atração”? A maioria é ilustre, no sentido de que fica no lustro: ilustra-se o bastante para convencer e convencer-se das crenças que já professava.
Ética é mais do que a moral. Se o bem falar basta à moral e ao poder, só a ética conduz ao bem viver. Ética: quando a razão (mais do que o hábito e o instinto) comanda o sentimento. Para isso não basta o lustro, é preciso exercitar o conhecimento. Não só o técnico científico – a descrição do que é, como é e a explicação do porquê causal. Há que exercitar-se no conhecimento ético – a prescrição do que deve ser, como deve ser e a explicação do porquê final.
Sem contestar a superioridade do mercado, Mill, um dos melhores pensadores liberais, destacava a importância da infra-estrutura ética para explicar o melhor ou pior desempenho econômico de indivíduos, empresas e nações. Seu componente mais importante seria o grau de confiança (ou seu inverso – o grau de improbidade). Para Mill a vantagem da confiabilidade era incalculável e é interessante o indicador de desperdício que ele associava ao custo da improbidade: o número de advogados e juízes e a exorbitância da sua remuneração.
Numa sociedade eticamente falha, o nível de confiança é baixo e o rico em geral (e o empresário em particular) é visto como alguém que “levou alguma vantagem” num jogo, senão visceralmente roubado, pelo menos absolutamente isento de consideração para com o outro.
Apesar das contradições apontadas, ou talvez justamente devido a elas, empresários e advogados se irmanam nas lides comunitárias numa complementaridade virtuosa.