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A Roupa Nova da Internet

Jaime Wagner // terça, 27/05/2003 00:00

Na fábula "A Roupa Nova do Rei", Andersen conta a história de um rei vaidoso e de dois vigaristas que se fizeram passar por tecelões de um tecido maravilhoso com a propriedade de parecer invisível aos estúpidos. Como ninguém queria passar por burro, todos, inclusive o rei, fingiam ver o tecido que os dois teciam a peso de ouro. O rei foi desfilar a sua nova roupa quando um menino gritou: "o rei está nu". Todos admitiram então o óbvio e o rei se refugiou no castelo coberto de vergonha, enquanto os trapaceiros escapuliam com os bolsos cheios.

Não sou contra a Internet gratuíta. Aliás, sou a favor da Internet grátis, da comida e do remédio grátis, do jornal e do livro grátis, da energia gratuíta e também do imposto zero. Mas só uma Polyana ingênua poderia esperar um mundo assim com benefícios sem custos. Ou será que as coisas ficaram tão complexas neste mundo da Internet que ninguém quer passar por burro ao fazer uma pergunta simples: Por que a gratuidade em outras áreas é vista como absurda e na Internet é encarada como verossímil?

Respondo: graças à retórica do mestre manipulador Nizan Guanaes que, ao criar o IG, vendeu a idéia de que a receita de publicidade on line cobriria os custos de um provedor. Acho que ele acreditou na própria fábula e, como o tecelão da outra fábula, visualizou uma bela roupa para este rei a ser criado. Mas o fato é que depois de dois anos, tinha-se um rei devidamente coroado, mas que continuava nu. A bolha estourou e o tecelão desembarcou da canoa. Hoje, acreditar que receita de banner cobre custos de um provedor é como acreditar que a roupa cobre o rei nu.

Como pode então o rei continuar nu e ninguém ver? Ou melhor, quem continua afirmando que o rei está vestido? Como é que se pode convencer o Brasil inteiro de que um serviço com apenas uma parcela dos seus custos cobertos pela receita própria é viável?

Quem substituiu o tecelão Guanaes? O tecelão Telemar. Então ele afirma que o novo tecido da roupa do rei continua invisível mas tem um manto ainda mais longo e bonito que se chama inclusão digital. E mais, o manto é tão grande que poderá cobrir todos os pobres do reino. E agora está todo o reino procurando uma beira no manto invisível.

Hoje, todos os provedores gratuítos são empresas controladas direta ou indiretamente por empresas de telecomunicações, que, por sua vez, são os maiores fornecedores dos provedores, gratuítos ou não. Uma operadora tem uma receita indireta por ter um provedor de internet (gratuíto ou não) ligado em sua rede, pois uma operadora paga a outra um diferencial na troca de tráfego entre elas, que é artificialmente aumentado por uma distorção da regulamentação que prescreve uma igualdade tarifária entre dois tipos de tráfego totalmente distintos: o de voz e o de internet. Alguém já se perguntou por que não há tantos provedores gratuítos em países com sistemas de telecomunicação (e instituições) mais avançados?

Temos de convir que há também outra receita indireta, esta legítima, resultante do fato de que um maior número de usuários acessa a Internet com a existência do acesso grátis, o que gera um aumento do tráfego geral. Mas seria de perguntar se este aumento não é marginal e se por si só sustentaria a Internet gratuíta, não houvesse a distorção tarifária mencionada.

Não sou contra a Internet grátis. Mas sou contra qualquer tipo de monopólio, público ou privado, pior este do que aquele. Se o resultado da privatização das telecomunicações for a transformação de um monopólio público em um privado, isto será a confirmação da opinião de De Gaulle de que o Brasil é uma república de bananas que não se leva a sério. Seria uma ignomínia. E até o Daniel Dantas concordaria (em tese) com isso.

Qualquer área econômica que explore concessões do governo apresenta uma concorrência imperfeita e administrada. Que isto precisa acontecer nas telecomunicações devido ao volume de investimentos necessários, vá lá. Mas permitir que esta concorrência imperfeita se comunique para a Internet, são outros quinhentos. Até isso eu admitiria se fosse feito às claras. Eu até aceito um rei nu. Mas não me venham dizer que o rei está vestido.

Jaime Wagner
Jaime Wagner é Diretor da PowerSelf

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