Responsabilidade e Culpa

Jaime Wagner - terça-feira, 26/11/2002 - 23:00
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Responsabilidade e culpa se confundem. Para muitos, quem se sente culpado demonstra
responsabilidade. Entretanto, eu acredito que o sentimento de culpa é,
na verdade, uma forma de não assumir a responsabilidade.


Joãozinho está muito feliz porque comeu o doce que a mãe
fez para receber as visitas. O sorriso de Joãozinho se desfaz assim
que vê a expressão da mãe. Ela grita acusadora: “Você
comeu o doce da geladeira! Você é feio! Você devia se
envergonhar!” Joãozinho substitui o sorriso por um choro convulsivo.
Agora a mãe parece mais calma, até carinhosa. Ensinou o filho
a se arrepender. E pensa que lhe ensinou também a assumir a responsabilidade.
A repetição deste ritual transforma Joãozinho num menino
bonzinho, que aprende a se sentir culpado pelos seus erros.


Durante a infância somos ensinados a nos sentirmos culpados e envergonhados
quando cometemos um erro. Nossos pais nos ensinam a confundir responsabilidade
com culpa. E então, quando cometemos um erro ou uma omissão,
tendemos a pensar que basta nos sentirmos mortificados, para assumir a responsabilidade.
Ao contrário, muitas vezes o sentimento de culpa evita que a pessoa
se responsabilize verdadeiramente pelo erro. Funciona como um lenitivo que
permite que a pessoa conviva com o erro. E então o erro e a culpa
associada são introjetados como parte da própria pessoa. Ela
passa a se identificar com o erro. Ela diz “eu sou errada” ao invés
de “cometi tal erro, em tais circunstâncias”. E assim, ao
incorporar esta dor, impede-se de tomar uma decisão quanto a qual
comportamento adotar no futuro nas mesmas circunstâncias. A culpa substitui
e paralisa a ação corretiva. A auto-estima da pessoa cai e
ela não se sente motivada para agir.


Um exemplo corriqueiro pode ajudar a ilustrar a diferença entre culpa
e responsabilidade. Talvez você tenha uma “caixa de entrada”
em seu escritório onde deposita os papéis que chegam. Se você
faz como a maioria das pessoas, você deixa ali também os papéis
que pedem uma ação; para “não serem esquecidos”.
O que faz com que a caixa de entrada se transforme, com o passar do tempo,
numa pilha de pendências. Muito provavelmente os papéis que
se encontram embaixo da pilha pedem uma ação cujo prazo já
passou. Ora, então esse papel agora é apenas lixo. Porque então
você não o joga no lixo? Talvez você responda: “para
não esquecer que eu devia fazer aquilo”. Ora, o que você
não quer esquecer é apenas a culpa por não ter feito.
Você não joga o papel fora porque não quer assumir a
responsabilidade por não ter feito o que lhe foi pedido. Mas você
tem o direito de não fazer tudo o que lhe pedem. Muito provavelmente
você fez outras coisa mais importantes do que aquilo. Ainda assim você
não se permite esquecer. Aquele papel ocupa a sua caixa assim como
a culpa ocupa a sua mente. Ele é mais um espinho na coroa que você
carrega. E você sofre com cada uma das pendências vencidas que
se acumulam. Sente-se oprimido e vítima delas, sua auto-estima se
deteriora e você não tem coragem de jogar aquela pilha de papéis
inúteis fora. Você não tem coragem de assumir a responsabilidade
porque prefere carregar a culpa.


A própria cultura reforça este comportamento. O ritual católico
da confissão não faz outra coisa senão gerar um sentimento
de culpa que inibe a pessoa de se responsabilizar por sua escolha. Ela não
tem a possibilidade de escolher. Ela “é” pecadora e imperfeita.
Está marcada pelo pecado original. O que lhe resta é a contrição,
o sentimento que lhe permite conviver com o pecado.


A pessoa livre é responsável por seus atos. Também é
responsável e culpada por seus erros. Mas basta referir os sentimentos
associados para que a diferença se aclare. O sentimento de responsabilidade
é um sentimento positivo, afirmativo um sentimento de potência,
que elicita a vontade de agir e que se volta para o futuro.


A culpa é um sentimento negativo, debilitante, inabilitante, que paralisa,
voltado para o passado.


A essência está aqui: a responsabilidade molda o futuro, a culpa
prende ao passado.


O culpado se prende ao passado: ao que, já feito, não pode ser
desfeito. A culpa é uma vontade de mudar o passado. É uma espécie
de delírio, desejo do impossível. Daí o sentimento de
impotência ou a fuga para o esquecimento, para a negação
de si e da realidade.


Já o indivíduo que se responsabiliza por um erro cometido, paradoxalmente,
se liberta do passado. Aceita-o como passado, aceitando a si e à realidade
como imperfeitos (não ideais) e reconhecendo sua potência para
mudar o futuro.

Jaime Wagner

Diretor da PowerSelf, Diretor Presidente da Plug In Internet Corporativa e da Associação Junior Achievement do RS.

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Cristina M .Burgomeister sex, 23/01/2009 - 22:22

Prezado Sr.
Adorei este artigo, a dualidade de um conceito se assim posso dizer. Tenho me sentido mal e não sabia como agia meu pensamento e comportamento, e se é acaso ou não tbém tenho percebido q existe um outro lado de um conceito qquer.Ex.:ser perfeccionista é ser um chato, mas devemos procurar ser perfeitos. Naquele exemplo específico é q nossos pais não sabiam ensinar, explicar, fazer meditar sobre algo ,em função de seus conhecimentos restritos ,e diante do cotidiano estressante passavam a mensagem como podiam. O q é + importante, a pessoa ou a coisa enqto. ser e ter. Conscientizar q p se ter algo leva tempo, dinheiro, trabalho. O respeito q devemos ter pelas pessoas e coisas, tudo no seu devido tempo e lugar.Esse aprendizado dói muito.As Leis Naturais são justas, e mostra-nos q somoss espelhos, uns dos outros o tempo todo.É essa coisa desconexa q nos oprime, a cisão de algumas coisas, a confusão de outras coisas. A chave é o discernimento, libertarmos dos pensamentos, sensações distorcidas.Não é fácil!!!!! Coisas q são minhas, coisas q não são nossas, o nosso tagarelar interno, somados a questão da paranormalidade q penso ser talvez uma agravante.Obrigada!

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