Letícia Polydoro // terça-feira, 10/08/2010 16:14
Em dezembro de 1998, a NASA, agência espacial americana, enviou para o espaço a sonda de 125 milhões de dólares Mars Climate Orbiter, com o objetivo de estudar o clima de Marte. Ao entrar na atmosfera marciana, a nave simplesmente espatifou-se. O problema? Ao aproximar-se do planeta vermelho, a sonda recebeu simultaneamente informações em medidas distintas: metros e quilogramas, do sistema métrico decimal (adotado como padrão na grande maioria dos países) e também em pés e libras, unidades do sistema imperial britânico (padrão utilizado nos EUA. Até mesmo a Inglaterra já adotou o métrico decimal). A comissão de cientistas que investigou o caso concluiu que os programas de computador da NASA não foram capazes de detectar as diferenças entre valores expressos em dois sistemas. Além do grande prejuízo em milhões de dólares, o ocorrido gerou um enorme constrangimento aos envolvidos pelo erro considerado primário.
O caso acima é um exemplo extremo da consequência que um pequeno descuido de conversão pode causar. Outros problemas de natureza equivalente ocorrem frequentemente, embora sem a mesma repercussão mundial.
De posse de um produto de software nacional de sucesso, é comum ver empresários brasileiros desejarem derrubar barreiras e aventurar-se em mercados diversos, com o intuito de repetir o mesmo êxito em âmbito internacional. Infelizmente, também é comum que o investimento realizado nesse processo de internacionalização se transforme em prejuízo. Muitos são os motivos que podem levar a esse fim indesejado. Excluindo os casos em que o produto é muito ruim e não tem jeito mesmo, comentarei aqui algumas das possíveis causas de insucesso.
Um exemplo disso pode ser observado no seguinte texto, trecho fiel do manual de um produto internacional vertido para o português: "O sistema funciona em Ligação, reserva, suspenso e desligação. Os modos de operação e prazo fixam através de utilização Software que vem com sua placa de vídeo. Desligue seu moitor quando você não for usa-lo por um longo períldo de tempo." Após essa leitura, reflito sobre a péssima impressão que um produto cujo manual descrito dessa forma pode causar. A sensação de descrédito ao ler algo escrito assim é a mesma que estrangeiros têm a respeito de um produto, quando malvertido para o seu idioma. Uma catástrofe. Qual a receptividade que esse possível consumidor terá a um produto apresentado dessa maneira? Qual a sua percepção de qualidade? E quanto a sua credibilidade? E, no entanto, muitos dos softwares nacionais se apresentam exatamente dessa forma para o mercado ao qual se projetam. E, pior ainda, o empresário responsável por sua produção não tem consciência disso.
Abaixo, listo alguns aspectos que precisam ser observados em um processo de internacionalização de software bem encaminhado:
• Estudar as diferenças culturais do país ao qual o produto se destina;
• Providenciar uma tradução redigida e revisada por um profissional que, além do domínio do idioma em questão, tenha desenvoltura em redação e que conheça os termos técnicos da área;
• Observar as diferenças de unidades de medida, fuso horário, feriados, formatos de data e hora, formatos monetários, entre outros itens do gênero;
• Ater-se à documentação de usuário, já que em alguns mercados ela pode ser decisiva;
• Disponibilizar suporte técnico especializado em horários compatíveis e no idioma do usuário;
• Considerar seriamente outros fatores como legislação, aspectos jurídicos e modelo de negócio.
Nunca teremos uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão. Essa conhecida frase é muito pertinente ao assunto internacionalização de software. Lembrando do exemplo desastroso da NASA, mesmo que o investimento seja menor do que 125 milhões de dólares, ninguém quer ser protagonista de um fiasco de proporções intergalácticas. Melhor ficar em casa.
* Letícia Polydoro é diretora da Hypervisual, empresa gaúcha é especializada em design para empresas de TI e outras áreas de base tecnológica.
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