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Desilusão

Letícia Polydoro // quarta-feira, 19/01/2011 22:27

Fazendo uma analogia com sistemas governamentais, a Apple seria uma monarquia absolutista.

 

Esses dias me perguntaram: "o que é melhor, Coca-Cola ou Pepsi?". Fiquei pensando um pouco e respondi: "Acho que Coca. E para ti, o que é melhor?", devolvi o questionamento.

E meu interlocutor respondeu: "o melhor é eu ter a opção de escolher qual eu acho melhor!". Foi meio que uma pegadinha, mas a questão ilustra muito bem o que vou falar em seguida.

Sempre fui usuária de Windows por uma questão de mercado. É a plataforma adotada pela maioria das pessoas, uma infinidade de aplicativos são disponibilizados para ele, e grande parte dos sistemas de meus clientes costuma ser para Windows. No entanto sempre tive uma pontinha de inveja daqueles que usavam Mac.

Em termos de mercado, o número de usuários costumava ser ínfimo. Esse pequeno número, no entanto, parecia representar um clube Vip, fechado, privilegiado. Alegava-se que, mesmo sendo mais caro, monetariamente falando, o Mac se pagava plenamente em termos de satisfação.

A interface era extremamente amigável, tudo muito simples, sem crashes nem bugs. E eu sempre acreditei nisso. No meu imaginário, a qualidade do Mac (entenda-se o conjunto de hardware e software) era superior a do Windows. Porém, não era popular por ser bem mais caro. Coisa de grife.

O tempo passou e novos dispositivos começaram a fazer parte de nosso dia-a-dia. O apelo dos novos gadgets tornou-se muito grande. E o que era restrito a um pequeno grupo de usuários passou a ser um fenômeno universal. Resolvi, então, me deleitar com os prazeres da Apple. Adquiri um iPad e pensei: "agora vou começar a ser feliz!". Foi aí que começou minha desilusão.

Como usuária de Windows, minha expectativa -- alimentada também pelo alarde da mídia -- era que esse pequeno aparelho superasse qualquer outro existente. Peguei então o meu novo dispositivo -- nada barato, diga-se de passagem -- e impetuosamente comecei a manipulá-lo. Os primeiros momentos foram de um prazer indescritível. A sensível tela reagindo ao menor contato de meus dedos, e um mundo novo se descortinando à minha frente.

Comecei, então, a navegar pela web e notei algo estranho nos sites que costumo frequentar. "Ah, está sem o Flash" -- que, como todos sabem, é um padrão mais do que consagrado e utilizado por uma infinidade de websites. "Então vou baixar o arquivo e instalá-lo. Ôpa, não posso? A Apple não permite?" Primeira pequena frustração.

"Bom, então vou colocar algumas fotos que estão no meu notebook para que eu possa exibi-las no iPad como um porta-retratos virtual. Mas ué? Cadê a entrada USB? Não tem? Hmmm....". Segunda média frustração.

"Ok, vou então baixar alguns programas para usufruir de todos os recursos de minha nova aquisição. Mas...só posso utilizar aplicativos da AppStore? E para isso preciso me pré-cadastrar e deixar os dados do meu cartão de crédito, mesmo que eu ainda não tenha intenção de comprar nada?".

Indignação total. A essas alturas minha boa vontade com o aparelho começou a esvair-se. "E câmera de vídeo? Paguei essa pequena fortuna, e ele não tem sequer uma câmera? E quanto aos aplicativos em si? Não percebi aquela fantástica diferença que julguei que sentiria. Pelo contrário, algumas interfaces, com o objetivo de serem tão cleans, acabam se tornando um verdadeiro enigma. Como uso esse raio de software? E o teclado, onde estão os acentos?? Acho que vou ligar o meu notebook...".

Como Henry Ford que dizia, no início do século passado, que automóvel poderia ser de qualquer cor desde que fosse preto, a Apple, em pleno século XXI, parece dizer que software pode ser qualquer um, desde que seja da AppStore.

Paralelo a isso, comecei a ter contato com outros hardwares que utilizam a tecnologia Android. Fiquei surpresa com o que são capazes de fazer. Não deixam nada a desejar para os dispositivos da Apple. E rodam Flash, têm USB, vídeo e permitem baixar e instalar arquivos de diversas procedências. E ainda por cima são mais baratos.

Aí que eu quero voltar à questão inicial. Inevitavelmente comecei a fazer comparações e me questionei: "afinal, o que é melhor?". E como na resposta do refrigerante, cheguei a conclusão que o melhor é ter opções, coisa na qual a Apple não é muito flexível.

Se fizéssemos uma analogia com sistemas governamentais, diria que a Apple, com seu pacote restritivo de hardware e software, seria como uma monarquia absolutista, e os dispositivos com Android, cuja combinação com o hardware pode variar livremente, seriam como uma democracia socialista.

A Apple se comporta como um monarca, que é reverenciado sem muitos questionamentos, e muitos desejam estar ao seu lado por conferir-lhes status. Já o Android é mais aberto ao diálogo e permite que se façam escolhas.

Os usuários da Apple seriam uma espécie de nobreza: duquesas, viscondes e barões que pagam mais caro, acabam tendo menos e se sentem em vantagem mesmo assim. Já os usuários de Android seriam as pessoas comuns, que buscam a liberdade de opções, por um preço mais justo.

Apesar de minha desilusão, minha relação com a Apple ainda não está rompida. Sigo utilizando meu iPad e me divertindo com ele. Mas desconfio que será só isso, apenas diversão. Relacionamento sério mesmo só com quem me proporciona mais segurança, diálogo e opções.

Letícia Polydoro

* Letícia Polydoro é diretora da Hypervisual, empresa gaúcha é especializada em design para empresas de TI e outras áreas de base tecnológica.

...

COMENTÁRIOS
André R.

postado em: sex, 21/01/2011 - 17:54

Olá,

Errado (e desinformado) é aquele que critica a Apple. Se você não gosta, não compre! É simples.

Sugiro a todos, e inclusive você, que tenham atenção ao produto (e suas caracterísicas) antes de comprá-lo. a Apple não faz falsa propaganda... você pagou (e caro) por aquilo que quis comprar!

Muitas pessoas compram um Apple na intenção de ostentar algo valioso que muitas vezes é somente possível a uma minoria...

Criticar a mentalidade da Apple de cobrar no AppStore é bem coisa de brasileiro... pra que pagar? Eu prefiro o modelo Apple... aplicativos filtrados, pagos, mas que funcionam.

Mas eu concordo com você em um aspecto... "o melhor é eu ter a opção de escolher qual eu acho melhor!" continue com o Android e eu com meu iPhone. Não tente entrar num mundo que é feito para aqueles que sabem viver nele!

Ah, escrevo do meu MacBook, que a bateria, como informado, dura 7 horas... li antes de comprar :) Sou muito feliz com ele também :)

Elder de Campos

postado em: qui, 20/01/2011 - 15:58

Bacana o artigo!
Comprei um Ipad há 7 meses atrás....não imaginava por onde iniciar! Dificuldades semelhantes. Na medida que o utilizava, aprendendo o mundo da apple, mais descartava o laptop.
Hoje utilizo no escritório laptop normal e ao final do dia, sincronizo-o com meu ipad e utilizo apenas o gadget em casa.

Alguns pontos que, na minha visão, não estão coerentes:
1. Não há necessidade de ter entrada USB, visto que, na compra do Ipad, é disponibilizado o cabo especifico para sincronizar o ipad com qualquer outra máquina (seja Mac ou não).
2. É possível registrar uma conta na AppStore sem informar o número do cartão. Basta selecionar Null no momento de registro.
3. Camera de vídeo? Em nenhum momento o ipad foi vendido desta forma, se foi, o vendedor certamente a enganou.

Referente a Appstore é um modelo de negócio diferente do utilizado pela Microsoft e/ou empresas que utilizam de licenciamento. Adquire os sw usualmente utilizados em escritório, por valores ridiculos (4 ou 5 dolares). Criticar este modelo, por mais que não dê opções, é um engano, visto que os custos são muito menores dos que os atuais (modelo tradicional de compra e venda de licenças de uso de sw).

Talvez, nos pontos abordados acima, exista uma desinformação, ao qual, poderia ser corrigida.

Abraços
Elder de Campos

Ismael

postado em: sex, 21/01/2011 - 13:35

A questão é se a pessoa NÃO quiser utilizar a Appstore, quiser instalar um programinha qualquer ?

Só com Jail break, o que é patético: necessidade de "crackear" meu aparelho.

João Atilio de Souza Motta

postado em: qui, 20/01/2011 - 15:56

Parabéns. A Apple agradece por não se informar sobre o produto antes de combra e dar dinheiro para ela ficar ainda mais rica.

A Apple está aí... quem quer comprar, compra. Quem não quer, existem outras opções no mercado que substituem até com vantagem os produtos Apple.

Igual ao refrigerante: Objetivo: matar a sede. Não gosta de Coca-Cola, tem Pepsi. Não gosta, tem Guaraná.

Nunca existirá um produto que agrade 100% ao cliente.
Ex.: Windows. Sistema operacional mais usado no mundo por ser prático e fácil de utilizar. É seguro? não tanto qnto um Linux ou o próprio MAC OS.

Deve-se ter em mente o que se pretende com o produto antes de efetuar a compra. Deve-se buscar informações nos mais variados canais de comunicação (google, redes sociais, revistas especializadas, etc). Ter pelo menos conhecimento do produto que se está comprando.

Ou, ter que ficar com mais uma quinquilharia cara na estante como enfeite.

Mundo perfeito para as empresas: todos os clientes fossem iguais a nossa amiga autora do texto.

Rafael

postado em: qui, 20/01/2011 - 15:32

A grande maioria de pessoas que compram o Iphone e o Ipad desconhecem seus recursos, é só para dizer que tem algo da apple e poder mostrar o ilusório "poder" para os outros.

Ismael

postado em: qui, 20/01/2011 - 15:10

Iria escrever para parabenizar, mas é pouco. Mais adequado é agradecer, então: OBRIGADO .

Cada vez mais difícil ver críticas a Apple. Principalmente de quem possui algum aparelho da marca. Sei que tem muita qualidade, mas parece haver um pacto de silêncio que impede de se fazer uma crítica.

Quando a questão da App Store, ela está chegando ao Mac. Por enquanto é opcional, mas quem duvida que o próximo passo é se tornar a única forma de instalação de aplicativos ?

É um passo lógico do ponto de vista da Apple. Controla quem entra e cobra ingresso.

Para o consumidor é algo bem perigoso. Eu diria que não ligo porque não possuo e nem pretendo ter nada Apple, mas da forma como a indústria imita o Jobs, é uma influência perigosa.

Diego Plentz

postado em: qui, 20/01/2011 - 14:41

Depoimento típico de quem não pesquisou antes de comprar um produto. Você procurava uma série de coisas que o Ipad não tem, mas comprou mesmo assim. Se tivesse ido atrás antes, lido à respeito e ao menos testasse o aparelho(coisa que qualquer loja permite), acredito que nem teria comprado o aparelho.

Desinformação = descontentamento.

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