Letícia Polydoro // segunda-feira, 26/07/2010 14:43
Dizem que o confronto final da humanidade será entre os admiradores da Apple e os da Microsoft. Se isso for verdade, a Apple acaba de dar munição ao inimigo com o tumultuado lançamento do iPhone 4. Admiro muito a Apple. Muitos de seus adeptos afirmam que quem experimenta os produtos da marca, não quer mais saber de nenhuma outra. Pode ser. Aliás, os usuários da Apple costumam cultuá-la com uma devoção quase religiosa, mantendo uma invejada fidelidade em um mercado tão concorrido.
A inovação está no DNA da Apple, figurando continuamente no ranking das cinco empresas mais inovadoras do planeta. Em sua estratégia está o desafio de lançar produtos novos a cada um ou dois anos. Difícil, arriscado e estimulante. Até então, a empresa vinha se saindo muito bem em seu empreendimento, colecionando vários sucessos (só para citar os mais recentes, iPod, MacBook e iPad). A cada lançamento, Steve Jobs, o visionário CEO da empresa, se apresenta ao público de forma aparentemente displicente, descolada, passando uma imagem de elegante simplicidade, vanguarda e perfeição.
Aí veio o iPhone 4, trazendo consigo uma série de problemas amplamente divulgados mundo afora. Menos de um mês após seu lançamento, a Apple, por pressão da mídia, precisou vir a público e explicar-se. Creio que essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Para quem ainda não sabe, o iPhone 4 foi recordista de reclamações devido a quedas constantes na recepção da antena. Sua função primária aparelho celular falhou, frustrando as expectativas de muitos consumidores. A repercussão foi tanta que chegou a atingir as ações da empresa, que caíram mais de 3% logo após o episódio.
Falhas acontecem (lembram-se da tela azul de Bill Gates?). O problema é que a Apple construiu uma imagem de intocada perfeição, e agora está pagando por isso. Os consumidores se sentiram traídos em sua confiança, e o mercado não está aceitando a falha com tanta naturalidade quanto Steve Jobs tentou sugerir em sua conferência. Particularmente, achei deselegante sua atitude de colocar-se na defensiva, atacando a concorrência, e um tanto fraca e insuficiente a iniciativa de distribuir capinhas plásticas aos compradores do iPhone 4 como compensação.
Durante o processo de desenvolvimento do aparelho, parece que a Apple teria sido advertida sobre os potenciais problemas por membros da equipe envolvida no projeto. Não sei se é verdade. Steve Jobs diz que não. Até acredito, pois é muito fácil prever o passado, e uma pessoa tão inteligente quanto ele não iria expor-se dessa maneira. Ou iria?
Sobre esse episódio me restam muito mais indagações do que constatações. Será que, de fato, a Apple sabia dos problemas e optou por assumir o risco? Será que, por contabilizar tantos sucessos consecutivos, deslumbrou-se consigo própria, imaginando-se imune a qualquer problema? Será que os usuários da marca tiveram sua fidelidade abalada pelo ocorrido? Será que a imagem da empresa sofrerá um baque e nunca mais será a mesma? Se alguém tiver algum palpite, por favor, me ajude.
* Letícia Polydoro é diretora da Hypervisual, empresa gaúcha é especializada em design para empresas de TI e outras áreas de base tecnológica.
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