Gustavo Chierighini // sexta-feira, 27/01/2012 10:51
Caros leitores, antes de tudo peço calma. Tranquilizem-se, por favor. Podem prosseguir na leitura com a segurança de que aqui não encontrarão brados ufanistas, e nem mesmo convocações para luta contra o imperialismo internacional ocidental – antes discorreria sobre o oriental, esse sim, vindo como uma locomotiva disfarçada de amiguinho Bric.
Não, não me enquadro entre os nacionalistas de plantão, estes que nasceram no aparente (ou quem sabe – assim espero – momentâneo) apagar das luzes ocidentais com a crise de 2008 e suas consequências cotidianas.
Com toda franqueza, nutro pouquíssima empatia pelo nacionalismo, justamente por observar nele uma certa cegueira, uma falta de ceticismo saudável, e um excesso de ilusão, que honestamente me faz questionar a qual destino pode levar. No lugar disso fico com o patriotismo, na minha opinião mais elegante, legítimo, pragmático, e próximo do sentimento de posse que toda sociedade deve ter e nutrir pela nação que ajuda a manter com seus tributos e obrigações civis cumpridas, e o que é melhor, não anula o senso crítico.
Mas o fato é que nossa timidez espanta. Depois do urros do carnaval de 2011 quando alcançamos o posto de 7ª economia mundial, e agora - menos de um ano depois – com os festejos por conta de nossa ascensão à 6ª posição, (com direito ao pré-agendamento para a festa da 5ª posição antes de 2015, ultrapassando a orgulhosa França), o que resta é um melancólico “New York New Your” típico de fim de festa.
Como se não bastasse a nossa teimosa insistência em permanecermos como nação produtora de commodities, sem movimentos concretos para novas participações de valor agregado na parte da balança comercial exportadora, mesmo que considerando algumas honrosas exceções - mas ainda insipientes quando nos comparamos aos nossos amiguinhos do clube Bric -, insistimos também em não atuarmos com convicção naquilo que os especialistas em relações internacionais denominariam como: criação de influência. Que é justamente o desenvolvimento de conteúdos, ideias, e atuações repletas de personalidade, consistência, e altivez de propósito, o que é muito diferente de berros de revanche em cima da desgraça econômica alheia.
Vamos aos fatos: A expectativa de nossa participação no Fórum de Davos (onde somos esperados como uma das principais estrelas) será evidentemente frustrada pelo cancelamento da participação da presidente Dilma Rousseff. Ali onde se reúne há mais de 40 anos o grosso calibre da expressão política, empresarial e acadêmica do mundo, ao que tudo indica, a nossa participação será praticamente nula em termos políticos, escassa em termos empresariais e praticamente inexistente para o ambiente acadêmico.
Em outros Fóruns ainda teimamos em antagonizar por antagonizar, deixando explícito um travestido complexo de inferioridade, típico dos reflexos que a insegurança produz. Existem acertos, sim, é importante reconhecer, mas ainda não insuficientes diante da voracidade dos nossos competidores.
No mundo corporativo copiamos métodos e modelos métricos, incapazes de novas criações ou questionamentos críticos substanciais sobre a eficácia de sua aplicação. Nas reuniões muitos ainda se orgulham em adotar um infantil e inculto anglicanismo despejando em outro idioma expressões facilmente compreensíveis em português nativo – sem deixar de reconhecer que algumas expressões estrangeiras não são realmente atendidas pela língua de Camões - mas o resto é uma absoluta perda de tempo ou nítido desconhecimento da matéria.
Os modismos de além mar, sempre anunciados com urros do tipo: “A última onda!” “Agora 10 entre 10 empresas adotam (isso ou aquilo)!” são risíveis. A nossa incapacidade em criar modelos e métodos sólidos, próprios, em diferentes aplicações e tecnicamente defensáveis não se explica.
Em termos de institutos e pesquisas, ainda aceitamos sem questionamentos e com crédito excessivo, os postulados de qualquer organismo internacional que se dedique, ainda que superficialmente a nos estudar.
No campo internacional precisamos de uma vez por todas empenhar uma presença consistente, ancorada em desenvolvimento efetivo. Tecnológico, científico e metodológico.
Necessitamos jogar fora com urgência a nossa fantasia de duas caras, onde hora somos coitadinhos vítimas da colonização internacional, hora somos bravos, hostis e nativos do Brasil varonil.
É verdade que muita coisa melhorou, e é verdade também que a nossa postura pouco a pouco vai ficando cada vez mais calibrada. Mas o fato é que há muito chão para percorrermos.
É chegada a hora de compreender que uma potência não se faz apenas com PIB e bravatas.
Precisamos importar doses cavalares de autoconfiança efetiva, que é repleta de serenidade e sincero reconhecimento de fraquezas; desenvolver um saudável pragmatismo internacional, onde não caiba nem amadorismo, e nem um pingo de ingenuidade, e por fim; resgatar do fundo da alma a coragem necessária para crescer com consistência e conteúdo, mas csem perder uma única oportunidade.
Vamos em frente!
Até o próximo.
Gustavo Chierighini é empresário, fundador das empresas Plataforma Brasil Investimentos e Plataforma Brasil Editorial....