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O bom ladrão

cleber // sexta, 03/10/2008 10:35

Nesses dias, ando cantarolando a velha música de Chico Buarque de Holanda “Acorda, amor”, ainda mais porque ela tem um refrão que diz: “Chame o Ladrão, chame o ladrão”.

Essa música era do tempo em que ladrão simbolizava o mal e o bem estava representado pelas pessoas e a sociedade. Parece que agora as coisas andam modificadas e não sabemos quem representa o bem ou o mal.

O pior disso tudo é que não sabemos quem é quem e o que cada um representa, o que faz com que fique nebulosa a identificação do bem e do mal, do certo e do errado. Essa simples dualidade serviu durante séculos para orientar as pessoas e a sua conduta social, mas nesse milênio e na nossa sociedade brasileira parece confundir-se.

A história

Há algumas semanas, o Brasil todo se deparou com um crime ocorrido em Passo fundo, onde o ladrão furtou um carro e, após achar uma criança dormindo no banco de trás, chamou a polícia.

Esse caso de repercussão nacional evidenciou a irresponsabilidade dos pais, que deixaram uma criança de 5 anos dormindo no carro e foram beber e divertir-se num bar. O pai de 46 e a mãe de 22 anos só souberam do caso quando o carro e a criança estavam em segurança, com a Brigada Militar, após o ladrão ter ligado para a polícia e estar indignado com a atitude dos pais.

Contraventor humanista

Essa confusão trouxe à tona algumas questões, como a irresponsabilidade dos pais, ao abandonarem a criança em um carro em via pública e irem a um bar divertir-se. Além disso, o ladrão passou a ser visto, primeiro, como uma pessoa de bom senso, com atitude paterna e, finalmente, como um justiceiro, que jurou punir os pais caso o fato voltasse a ocorrer.

Essa visão do bom ladrão foi reforçada pela Delegada que investiga o fato, ao afirmar que a atitude do contraventor levou-a “a manter a esperança na humanidade”.

Incrível essa nossa sociedade, que identificou no ladrão uma pessoa com atitude, bom senso e humanidade. Só faltava ser exaltado, também, o seu senso de profissionalismo e civismo, para completar a sua transformação em herói das criancinhas mal tratadas.

O profissional

O ladrão transformou-se no centro moral e positivo da história, num exemplo de conduta, tanto que a polícia não pretende pedir a sua prisão. Só espero que não receba o prêmio de profissional amigo das crianças.
Essa incrível história de vida lembrou-me muito do poema de Chico Buarque e creio que tenhamos que ouvir atentamente a letra dessa canção e dizer em coro: “Acorda, amor!” Para finalizar, quando algo nos acontece, só faltava termos que pedir aos gritos: “Chame o ladrão, chame o ladrão!”

cleber
Cleber C. Prodanov é doutor em História Social e educador, trabalhando com inovação e novas tecnologias. Também é professor da Feevale, gestor do Parque Tecnológico do Vale do Sinos e assina uma coluna semanal todas as segundas no Jornal NH-RS.

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