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Saberes e sabores

Cleber C. Prodanov // quarta-feira, 06/05/2009 10:11

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Interessante como os movimentos da vida trazem-nos recordações de diferentes maneiras. Nem sempre elas se revelam em imagens e cores ou mesmo em preto e branco. Por vezes, nossas recordações expressam-se através de perfumes, aromas, odores que despertam nossa memória para momentos especiais em nossa vida.

Filosofia de vida
O filósofo e educador Rubem Alves fala que esse é um sentimento de nossa alma, que vive do passado e não quer ir para o futuro, pois é no nosso passado que habitam os lugares, objetos que, muitas vezes, amamos e perdemos, ou seja, a alma navega na direção contrária do futuro.

Esses sentimentos nós aprendemos a visitar através da memória e da saudade e são muito comuns em datas e ocasiões especiais, quando nossa sensibilidade está mais à flor da pele. Na virada do ano, quando criança, esperava a chegada do Ano Novo quase sempre dormindo, não vendo a partida do velhinho. Era difícil imaginar por que tanta alegria dos adultos e a espera da meia-noite.

A realidade
Na Sexta-feira Santa, recato, música clássica no rádio e filmes bíblicos na televisão, O Manto Sagrado, Ben Hur e outras histórias da vida de Cristo e dos cristãos. Jogar bola, ouvir música ou correrias de crianças, nem pensar.

Na Páscoa, o cheiro da barba de pau enfeitando os ninhos, ovos de açúcar ao invés de chocolate, amendoim torrado com açúcar para rechear ovos de galinha, cuidadosamente guardados durante meses para figurar com destaque nos ninhos de todos. Ainda era preciso passar pela tortura de procurar o ninho, mais tarde, de escondê-lo. Ainda dá para sentir também o cheiro da cuca de mel, mas já não ouvimos mais os passos do coelho da Páscoa.

O aniversário era outra data aguardada com muita ansiedade, era um momento mágico, bolo, gelatina e presentes - nada como ter nascido em data de feriado nacional, sempre de folga!

O Natal precipitava uma série de sentimentos, diferentemente de hoje, quando, depois do Dia da Criança, em outubro, já começam a espocar na televisão os comerciais chamando às compras natalinas e são os comerciais das Casas Bahia que chamam para o Natal.

O tempo
Os dias e anos demoravam a passar e os dias de escola eram longos e divertidos. Podia-se levar merenda de casa, ir de bicicleta para a escola e esperar a sineta marcando os inícios e finais de período. O pó de giz marcava os dias e os cadernos eram organizados ou com “orelhas de burro”, os lápis sempre apontados e os estojos de madeira. Ainda dá para sentir o cheiro da sala de aula, do lanche e da pasta em que levávamos nosso material.

A alma
Pensando bem, é bom para a alma revisitar às vezes esses lugares escondidos de nosso passado, até para ela nos ajudar a fazer um exercício de nosso presente futuro. Podemos, também, perceber que ainda sentimos cheiros, sabores e sentimentos que pareciam estar esquecidos.

Cleber C. Prodanov

Cleber C. Prodanov é doutor em História Social e educador, trabalhando com inovação e novas tecnologias. Também é professor da Feevale, gestor do Parque Tecnológico do Vale do Sinos e assina uma coluna semanal todas as segundas no Jornal NH-RS.

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