Estamos acostumados a ouvir histórias de startups que foram fundadas em garagens. Ouvimos tanto essas histórias a ponto de eventualmente inferir que, sem uma boa garagem, não teremos uma startup promissora.
Bill Hewlett e Dave Packard desenvolveram o primeiro produto da HP em uma garagem de Palo Alto. Jobs e Wozniak iniciaram a Apple em um quarto, mas adivinhem para onde eles foram quando o quarto ficou muito apertado? Pois é, uma garagem. E quanto a Larry e Sergey? Iniciaram o Google em uma garagem em Menlo Park.
Mas por que uma garagem seria um bom local para iniciar um novo negócio? As vantagens são lógicas:
1) Uma garagem oferece o espaço apropriado para acomodar o equipamento necessário para o desenvolvimento de novos produtos.
2) Uma garagem propicia um local onde os empreendedores podem, sem as distrações mundanas, focar no desenvolvimento do seu produto.
3) Uma garagem, se não é grátis, é barata, aspecto fundamental, considerando que o negócio ainda não fatura.
Todas as razões acima estão associadas a uma visão mística do que significa iniciar um novo negócio.
Atualmente, startups conseguem desenvolver produtos em infraestrutura de altíssima qualidade, totalmente terceirizada, graças a evolução do modelo de Cloud Computing. Servidores? Armazenamento? Licenças de software? Tudo dispensável.
Google Apps, Skype, Amazon, Salesforce, Dropbox, Heroku e uma infinidade de serviços online estão à disposição para viabilizar a colaboração, a automação de processos e a redução da “papelada” necessária para iniciar um novo empreendimento. Além de reduzir o investimento inicial, essa abordagem facilita a mobilidade, possibilita a dispersão geográfica, incrementa a resiliência do negócio e reduz o custo de entrada de novos colaboradores no time.
A ideia de que uma startup é um empreendimento no qual o time de desenvolvimento de produto precisa isolar-se para criar um produto inovador é uma visão romântica, para não dizer bíblica (“e do caos fez-se a ordem”), sobre a verdadeira natureza do processo de criação de um novo negócio. Processo sim. Startups precisam de processos. O empreendedor precisa adotar uma abordagem sistemática para explorar formas baratas e rápidas de testar as suas hipóteses. De preferência, antes de investir tempo e recursos.
A disponibilidade de recursos para a experimentação é limitada e, em uma startup, há muitas alternativas a explorar. Estamos cansados de ouvir sobre a elevada taxa de mortalidade de startups e acreditar que a abordagem utilizada pela Apple para o desenvolvimento do iPhone é a régua contra a qual temos que medir o nosso próprio processo. Nossa empresa não é a Apple e nós não somos o Steve Jobs! Uma startup é uma iniciativa que precisa ter o seu time na rua. Testando ideias. Validando conceitos.
Testar ideias e validar conceitos não significa, necessariamente, implementar o que o cliente pede, mas, de forma determinada e rigorosa, medir a pré-disposição desse cliente em abrir a carteira ou informar o seu número de cartão de crédito quando a proposta de valor parece adequada. Será que uma garagem é local mais adequado para essa exploração? Talvez um espaço de coworking ou até uma mesa cativa em um café qualquer possam ser ambientes mais efetivos.
Acreditar que uma garagem é um espaço adequado, pois é um local barato para um negócio que ainda não fatura, é uma premissa diretamente associada à visão de que empresas estabelecidas não podem iniciar startups. Um time com o desafio de desenvolver um novo produto em uma empresa estabelecida também é uma startup. Startups podem ser geradas a partir de organizações que já faturam. Mesmo localmente, temos vários exemplos de grupos corporativos realizando spin-offs para explorar novas oportunidades de negócios.
Startups não necessariamente precisam investir em infraestrutura. Startups precisam validar hipóteses envolvendo clientes reais. Startups podem surgir a partir de organizações estabelecidas. Compreender a natureza real de uma startup auxilia a incrementar as suas chances de sucesso, e é particularmente importante em países emergentes como o Brasil, onde funding e talentos são escassos. Mas isto já seria tema para outra discussão.