Renato Guimarães Ferreira - Geração Y: Moderninhos e dinâmicos
O tema ainda é pouco discutido no Brasil. Você pode não conhecer a expressão, mas certamente já convive com um ou dois espécimes da novíssima Geração Y. Super atualizados com todas as novidades tecnológicas, são os recém-formados, com seus 25 anos, que podem responder ao telefone enquanto fecham um negócio via e-mail e fazem uma piadinha no comunicador instantâneo.
Permanentermente conectados, os profissionais da Geração Y chegam agora ao mercado de trabalho e já não separam o uso pessoal e profissional quando se trata da tecnologia. O que pode parecer desrespeito ou falta de comprometimento, para os maiores de 40 anos que não suportam (ou não compreendem, ou ignoram) todas aquelas janelinhas piscantes de MSN ou as várias redes sociais utilizadas por estes novos talentos. Falta ao profissional das gerações anteriores perceber que esta é uma das novas necessidades biológicas da geração. Estar offline significa, basicamente, um estado de quase-morte.
Outro aspecto a ser levado em conta é a forma própria que esta geração encontrou para vestir a camisa. Trabalham com vontade e criatividade quando vêem futuro. Pulam fora se a promessa se mostra muito distante ou burocrática. A Geração Y não vê problema em mudar de emprego quantas vezes seja necessário até encontrar o emprego ideal, aquele que realmente o inspire. Talvez uma das maiores diferenças em relação aos que vieram antes e sacrificavam um, dois ou mais anos desejando "crescer na empresa" de forma lenta e gradual.
Para discutir as implicações apresentadas pela chegada dos millennials, a Entrevista da Semana traz Renato Guimarães Ferreira, professor da Fundação Getulio Vargas e especialista em recursos humanos que traça um panorama desta geração no Brasil.
Márcia Lima
Para quem está lendo a expressão pela primeira vez, o que ela significa?
Renato Guimarães Ferreira:Esta é uma caracterização surgida nos Estados Unidos que trata de um movimento global. A Geração Y consiste de profissionais que estão entrando agora no mercado de trabalho, a maioria com seus 20, 22 anos. Porém, ainda não temos uma precisão sociológica para caracterizar estes jovens.
Os fatores que motivaram o início da geração Y nos Estados Unidos são os mesmos para o Brasil?
Renato Guimarães Ferreira:A diferença está na idade de entrada do brasileiro no mercado de trabalho, menor do que a norte-americana. Aqui é comum que o primeiro emprego surja entre os 20 anos, lá acontece entre os 24, 26. Então o profissional da Geração Y entra em um mercado extremamente competitivo, muito jovem, relativamente inexperiente e com um conjunto amplo de opções.
Empresas como Google e Myspace seriam ambientes propícios para a geração Y? Pode-se dizer que o Google seja uma espécie de bandeira desta geração?
Renato Guimarães Ferreira:Sim, o Google é o objeto de desejo da geração. Porque oferece possibilidades de trabalho que fazem sentido para o profissional, onde ele pode expressar sua personalidade, seu modo de vestir, de se comportar, é um ambiente onde ele sabe que será tratado de maneira integral. Este jovem valoriza trabalhos que façam sentido para sua vida. É uma geração que não aceita um trabalho mecanizante apenas porque pagará bem, ela quer desafios que possam ampliar suas competências.
É um fenômeno que pode ser percebido em todas as profissões ou existem setores que propiciam? Como a TI, por exemplo?
Renato Guimarães Ferreira:Não está restrito à área de informática, não. Mesmo empresas tradicionais como Unilever, Procter & Gamble, Mackenzie, para citar algumas, começam a entender esta nova proposta e já oferecem oportunidades e desafios muito mais cedo na carreira. São desafios de dimensão global, que os permite interagir, criar oportunidades. Eles querem usufruir de recursos da empresa que os beneficie com qualidade de vida no trabalho. E também fora dele.Se não houver oportunidades criadas para este tipo de profissional, ele não vai ficar na empresa.
Na TI, a falta de mão de obra pode agravar as características "negativas" da Geração Y? Esta facilidade de trocar de empresas, por exemplo...
Renato Guimarães Ferreira:Com este grupo este é o maior desafio, isto é inegável. Então é preciso usar as características individuais em favor da organização, deixando espaço para projetos pessoais do profissional. A conexão com a organização é um acordo, exige compromisso mútuo. Mudou a dinâmica. Agora o profissional vai ficar na empresa enquanto valer a pena. Não é mais um projeto de longo prazo. Se ele quer trabalhar na empresa enquanto é proveitoso, cabe à organização encontrar formas criativas de reter estes profissionais. É uma conciliação de interesses.
Claro que as condições de mercado influenciam. Se a mão de obra é pequena, o poder está na mão dos profissionais talentosos, que têm a faca e o queijo nas mãos.
E quais são os principais impactos, no ambiente de trabalho, com a chegada dessa geração?
Renato Guimarães Ferreira:É comum haver conflito entre as gerações. O jovem que chegando não está disposto a receber as mesmas ordens que eram passadas há 10 anos atrás. E o profissional que está a mais tempo não entende algumas demandas dos mais jovens. Então, é um desafio para todo mundo.
Haverá uma reestruturação organizacional? Quem deve se adequar a quem?
Renato Guimarães Ferreira:Não diria reestruturar, mas repensar os valores e culturas da organização. Como criar um ambiente motivador para manter este profissional? Descobrir que não gostam de ser caracterizados de forma homogênea é o primeiro passo. Nos anos 70 houveram os hippies, em 80, a explosão do punk, em 90 os grunges de Seattle, hoje, em nossa época, já não há essa divisão. São diferentes perfis, todos convivendo no mercado. A empresa tem que buscar pessoas com quem se identifique, ou modificar sua cultura, privilegiar a diversidade. A Microsoft vai continuar atraindo o perfil Microsoft, a Apple, vai atrair o perfil Apple, há espaço para os diferentes perfis.
As novas formas de comunicação (e-mail, MSN, redes sociais) podem redefinir a comunicação entre gestores e funcionários?
Renato Guimarães Ferreira:Eles tendem a aceitar o uso, contanto que não afete a produtividade. Também é preciso esclarecer que esta geração não é onipotente, não dita as regras. Os interesses devem ser conciliados e, para isso, é preciso acomodar novas regras e critérios. É uma geração que torna a vida das empresas mais complexa, mas mais rica.
O que virá em seguida, quando o comando das empresas estiver a cargo desta geração?
Renato Guimarães Ferreira:Em um exercício de futurologia, acredito que vai entrar em um ritmo normal, onde a chave será a convivência com a diversidade. Independente de idade, ou de cargo.
Comentários (2)
Pedro Luis Evangelista (Mapejo Assessoria Ltda), em 10/05/2008, 07:16
Existe um ponto não comentado, porem a ser pensado e analisado: a geração "Y" é extremamente criativa e ativa, por consequencia da rapidez natural com que se agrega conhecimento atualmente.O ensino mais do que nunca se mostra um coordenador, um organizador do conhecimento, não o detentor da sabedoria.Existe um grave situação no meio academico nascendo, que é a incapacidade de atualização de professores para receber esses novos alunos.Os profissionais mais talentosos e com capacidade de se manterem com conhecimento atualizado por mais tempo, serão os "dirigentes de base" das empresas e para onde irão os desatualizados?Que cronologia será o marco divisor para os que devem sair para a chegada dos novos???
samuel dutra, em 10/05/2008, 21:24
Os profissionais da geração Y são dinâmicos e resolutos. Parecem ser o filho que todas as mães sonham em ter.
É lamentável essa perspectiva futurista, onde a população está envelhecendo e terá que competir com os jovens puglados como se a idade fosse um fator negativo ao desenvolvimento intelectual. Falta um estudo mais aprofundado a respeito da geração Y. Será que é benéfico ter um profissional que muda de trabalho como muda de roupa? ou que cuida mais do estilo próprio em detrimento aos mais fundamentados? e há um benefício de fato em estar plugado na internet 24hs? o que tanto se busca nela, nos bate-papos? E onde fica o bom relacionamento interpessoal que tanto buscamos ao longo da história?
É mais uma geração com sua modinha que os Ermínios de Moraes da vida irão ver.
Precisamos fazer um "research" em Piaget, verificar o processo de educação em TI para os mais antigos, procurando melhor adequá-los ao mercado e às novas gerações, antes de espalhar o terror do surgimento da super-raça bussiness, "Os x-management".
Conflito de gerações sempre terá, o que nos resta é cuidarmos dos profissionais dando o mesmo valor que damos aos negócios, afinal um não sobreviverá sem o outro, por mais espertos que ambos tentem ser.