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ENTREVISTA
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16/02/2009
Rodrigo Padula - Linux brasileiro é inviável?
No início do ano, o Kurumin NG foi descontinuado. O fim de uma das distribuições Linux brasileiras mais conhecidas na comunidade internacional causou tristeza nos usuários (muitos entraram no mundo do código aberto através da distro) mas também gerou uma dúvida: qual a validade de manter uma distribuição nacional nos dias de hoje?

Membro ativo da comunidade software livre desde 2005, o entrevistado da semana é Rodrigo Padula. O paulistano - que ministrou sua primeira palestra sobre Fedora no FISL em 2006 - tornou-se membro do comitê diretivo de embaixadores em 2007 e agora acaba de ser contratado pela Red Hat como gerente de relacionamento com a comunidade para a América Latina.

Padula esteve à frente do Projeto Fedora Brasil desde a sua criação, em 2005, quando foi nomeado o primeiro embaixador do Fedora no país. De forma voluntária, o executivo ajudou a propagar o modelo dentro e fora do Brasil, conquistando mais de 50 novos embaixadores.

O executivo é graduado em sistema da informação pela FMG – Faculdade Metodista Grambery, de Juíz de Fora (MG) e atualmente se dedica ao mestrado no Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), do COPPI (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós Graduação e Pesquisa de Engenharia), pertencente à UFRJ.

Márcia Lima
Qual a validade de uma distribuição nacional de Linux?
  Rodrigo Padula: Não acho que criar uma distribuição nacional seja uma idéia válida só para termos algo nacional. Criar e manter uma distribuição GNU/Linux necessita de muito esforço, tempo e dinheiro  A criação de uma distro envolve muita gente: programadores, pessoas para traduzir, documentar, dar suporte, empacotar softwares e isso é muito custoso.

Se você observar esta imagem (http://migre.me/1ge) temos basicamente três grandes distribuições que surginam nos primórdios e estão aí até hoje: Red Hat, Slackware e Debian. Dessas três distribuições marjoritárias, surgiram inúmeras, muitas das quais morreram ao longo do caminho.
E por que surgem tantas distribuições novas? Não seria melhor unificar?
  Rodrigo Padula: Com o grande booom do software livre muitas pessoas e empresas quiseram pegar um pouco do mercado, tentar atender um certo nicho ou até mesmo simplesmente lançar "o seuprojeto, a sua distribuição". Uma vez ouvi do MadDog uma frase interessante. Ele comentou que o Brasil tem um grande potencial mas, "tem muitos caciques para poucos indios".

Há sempre muita gente querendo assumir posição de liderança, querendo mandar em algo, dentro de seu projeto. E muitas vezes esses projetos são divididos por diferenças de ideologia, ou simplesmente por conflito de egos. Isto acaba dando origem a muitos "forks" desnecessários. Issso é um grande problema pois temos tantas distribuições e mesmo assim não vemos tanta evolução/desenvolvimento/inovação.

Eu sou a favor de centralizar mais os esforços, muitas vezes isso não é possivel pois temos duas tribos com dois caciques... e aí quem será o cacique se houver fusão entre as duas tribos?

Muitos não sabem trabalhar em um projeto onde cada um tem sua responsabilidade e a liderança é distribuída. Sempre tem alguem querendo ser o chefe. Este é o maior problema aqui no Brasil ao meu ver. Se perguntar para qualquer pessoa envolvida numa comunidade brasileira, ouvirá inúmeras histórias de brigas por liderança.
Estas várias distribuições são uma dificuldade a mais para o usuário comum?
  Rodrigo Padula: Hoje temos grandes projetos, porém o retrabalho prejudica muito o andamento das coisas e criar uma distribuição é uma coisa bem trabalhosa. O melhor caminho para nós é ampliarmos a participacão dos brasileiros no core das distribuições. Criar uma distribuição somente para ter algo nacional, nao é o melhor caminho.

O que fará a diferença será um maior número de brasileiros desenvolvendo software livre, participando dos "core teams"das distribuições e das traduções e documentações.

Se eu quero alguma melhoria, eu posso fazer por mim mesmo, afinal, o codigo é livre. É mais fácil eu complementar um projeto do que eu desenvolver um baseado em um pré-existente que em alguns dias ja estará desatualizado. Por exemplo, hoje temos o fedora como base para várias distribuições. O Fedora lança um versão nova em média a cada 6 meses. Como uma equipe pequena conseguirá readequar suas implementações e pacotes sempre que um novo Fedora é lançado?
Imagino que isto também inviabiliza o uso empresarial da distribuição brasileira....
  Rodrigo Padula: Dependendo das mudanças no Fedora e/ou nas implementações feitas, pode-se gerar uma imcompatibilidade total. Por exemplo, quando sai um novo GCC ou nova versão do Python há um impacto muito grande em tudo que utiliza esses dois programas como base.

Hoje, para atendermos as mais diversas necessidades, o Projeto Fedora mantem mais de 7 mil pacotes RPM somente para a versao 10. Imagine o que é dar manutenção numa infra deste tamanho. Sem falar que ainda temos que dar manutenção no Fedora 8, 9 e ainda empacotar e desenvolver coisas novas para o Fedora 11 que será lançado futuramente.
Então não há nada positivo na criação de uma distro brasileira?
  Rodrigo Padula: Não sou contra idéias novas, sou contra a divisão de esforços para criar projetos sem propósito. Alguns dizem que surgem distribuições GNU/Linux por haver diferenças de ideologias, mas não creio que haja tanta diferença ideológica que justifique o número alto de distribuições.

Eu fui ao Fisl 5, usava GNU/linux desde 96 mas nunca havia contribuído com nada efetivamente. Uso Fedora desde a versão 1. Já usei Slackware, Conectiva, Mandrake, mas quando caí no Fedora, nao saí mais. Assim eu queria me envolver e contribuir com algo. Para quê criar a distribuiçao "Padulinux" se eu posso contribuir com algo já em andamento e maduro? Criar distribuiçoes novas não vai resolver o problema, nem a disputa com o Windows no desktop.
Algumas distribuições são criadas com fins específicos (redes, servidores, etc). A unificação dos sistemas, ou a redução às três distros majoritárias, não seria negativa para estas derivadas?
  Rodrigo Padula: Não creio que a unifição das 3 principais distros resolvam esta questão (a unificação é uma tarefa muito complicada em comunidades abertas), a não divisão e a maior centralização dos esforços, como dito anteriormente, ao meu ver sim, podem contribuir muito com esses projetos de software livre a médio e longo prazo.

É possivel criar projetos baseados nas distribuições majoritárias, sem perder a compatibilidade, usando os mesmos repositórios e até mesmo os nomes e marcas. O Projeto Fedora por exemplo, criou ferramentas bem interessantes que resolvem em parte essa necessidade da criação de novas distribuições para atenderem um publico alvo específico como educadores, programadores, designers e etc.

Criamos várias ferramentas que possibilitam aos usuários criarem Spins ou Remixes do Fedora. Os Spins e Remixes são versões da distribuição Fedora customizadas para fins especificos. Se você possui necessidades específicas de programas e/ou configurações, em vez de criar uma distribuição nova você pode facilmente criar um Remix ou um Spin derivado do Fedora.

Com as nossas ferramentas você consegue fazer uma seleção de pacotes que atenda as suas necessidades e gerar uma nova mídia de instalação, live CD ou live USB em poucos passos. Para fazer isso, não é necessário conhecimentos muito aprofundados, basta você instalar o Fedora na sua máquina, instalar as ferramentas(livecd-creator, revisor e etc.) e pronto, em pouco tempo você ja terá sua versão customizada da distro.

Através de interfaces gráficas amigáveis como a do Revisor você criará sua própria distribuição baseada no Fedora sem perder a compatibilidade. Em alguns cliques e downloads de pacotes você gerará uma ISO completa com tudo aquilo que você precisa.

Mais informações sobre este assunto podem ser obtidas em:
https://fedoraproject.org/wiki/Remix
https://fedoraproject.org/wiki/FedoraLiveCD
https://fedoraproject.org/wiki/SIGs/Spins
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Comentários (6)
Ronaldo Prass, em 19/02/2009, 11:38
Excelente entrevista, sobre a pluralidade de distros, embora o próprio Linus a defenda. Discordo desse ponto de vista, o apropriado ao meu ver, é uma distro única que contemple os difentes perfis de usuários e que realmente represente uma comunidade forte e que trabalhe com um objetivo em comum. Mas infelizmente, o fator "humano", nem sempre possibilita esse tipo de modelo.

Blackgnu (Blackgnu), em 26/02/2009, 12:00
Uma só distro não iria resolver os problemas, mas deixar as principais como Debian, RedHat, Slackware sem derivados isso resolveria os problemas acarretado por várias distros.

Fernando Schubert, em 27/02/2009, 17:01
Trabalho diariamente com diversas distribuicoes Linux, e vejo a grande variedade como um problema. Sao diversas diferencas, pequenas, porem que dificultam a administracao em ambientes heterogeneos, isto desde scripts de inicializacao a organizacao de pacotes e gerenciamento de usuarios. Costumo utilizar tambem a familia BSD, que eh mais organizada, estavel e robusta em alguns contextos.

Valeu pelo artigo, uma analise salutar sobre este tema que assusta muito os iniciantes, e deixa os experts de cabelo em pe ao dar manutencao em distribuicoes que nao existem mais e que ninguem mantem mais versoes e pacotes para atualizacao.

Obrigado.

Christian Tosta, em 12/05/2009, 22:05
O Padula está certo ao dizer que criar uma distribuição é trabalhoso, exige tempo e dinheiro. O ponto discordante, ao meu ver, e que dificulta um esforço conjunto para o desenvolvimento das grandes distribuições está nas definições de regras para esses grandes projetos. Se não satisfazer os interesses dos grandes grupos coorporativos que financiam essas distribuições, as modificações feitas por um pequeno desenvolvedor não entram na versão oficial do projeto. Se o cidadão cria uma variação da distribuição e mais uma vez um interesse mercantilista é afetado, a variante não pode ser distribuída sob o mesmo nome da original. Onde está a liberdade que as grandes distros tanto pregam afinal?

Cristiano Furtado, em 27/05/2009, 15:51
Eu concordo com o tosta. As distros pricipais hoje no mercado brasileiro não são comandadas por brasileiros. Tanto que para um certo softwares entrar no repo oficial de uma distro como posso dizer claramente fedora é uma dor de cabeça gigante. No caso de uma distro brasileira as empresas tem a oportunidade de inclusive ter um suporte de uma forma geral com os proprios desenvolvedores brasileiros, esse é o caso do Ekaaty Linux. Então a Liberdade de fazer uma distro para a nossa realidade não é assim tão ruim não.

Renato Silva, em 04/01/2010, 17:51
Concordo com o Rodrigo.

É muita gente perdendo tempo reinventando a roda. Esse linux citado pelo Cristiano Furtado mesmo (Ekaaty) nem ganhou espaço e já esta morrendo, como vários outros projetos!

É o tipo de projeto q o pessoal cria para ir pro FISL, Latinoware e nunca mais de houve nada a respeito.

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