Ricardo Darín, ator argentino, afirmou que fomos levados a achar que a solidão é um inimigo.

“Por alguma questão ocidental, fomos levados a achar que a solidão é um inimigo. Estamos, a todo custo, tentando não estar só.  Assim, perdemos uma grande oportunidade: o diálogo interno, a reflexão, a investigação de nós mesmos.” Sentenciou Ricardo Darín, ator argentino, em um programa do Canal Brasil.

A solidão é ruim mesmo? É nossa inimiga? Aliado silencioso? Oportunidade de exame de consciência, para quem tem alguma? Ferramenta de reflexão "fora da caixa"? De revisão de planos e metas? Ou apenas de foco, para quem precisa se concentrar? 

A sentença de Ricardo Darin é de 2014. Mas vamos um pouco mais longe. Aristóteles se recolheu também. E foi para criar textos referenciados até hoje. Palavras que repetimos quase diariamente foram cunhadas por ele. 

O "leitor", como apelidou seu mestre, Platão, em referência ao estilo 'poucas palavras e muita reflexão' do então aprendiz de filósofo. Criou bases para praticamente todas as disciplinas que conhecemos. Criou as disciplinas. Aristóteles, meio macedônio, meio grego, cansou da Atenas agitada, da Academia com suas intrigas. Se retirou para uma ilha. Se recolheu em melancolia.

 "Melancolia sim, mas daquelas que ativam a energia, e que nem a infância e a juventude conhecem".

Em nossos meios (profissional e pessoal) onde impera a tirania do urgente, falta tempo para o planejamento interno. Quem pensa é introvertido. Quem se comunica em excesso e fala aos borbotões é sociável. 

Os profissionais não repensam suas carreiras, seu ano, seu mês, sua semana. Nem mesmo o seu dia. Saímos de uma reunião para a outra, sem ao menos termos tempo de digerir o conhecimento.

Como ligar o que foi ouvido há pouco, do novo CIO, com a estratégia da empresa? O anúncio que foi realizado para todos os funcionários, como conectar os pontos com acontecimentos recentes? Talvez para antecipar o futuro, para se preparar melhor. Para agir em vez de reagir. Não temos tempo para isso. E mais, ninguém vai nos dar esse tempo a não ser nós mesmos.

Ao contrário, ouvimos que precisamos fazer "networking". O tempo todo. Contatos com propósito. Rir e fazer rir. Vale mais um happy hour do que ir para casa refletir o dia, em silêncio. Uma coisa não deve invalidar a outra mas é preciso equilíbrio. Meditar sobre nossas próprias ações. Sobre idéias! Embate argumentativo interior. 

Mas não, vamos perdendo as oportunidades de estabelecermos checkpoints com nós mesmos. Conversar com a alma. Com Deus, por que não? Lembre-se, nos fazem crer que a solidão é um mal a ser evitado a todo custo.

Aristóteles dizia que uma vida de contemplação seria a melhor vida para um homem. Ele se referia ao modo observador, por ele muito empenhado. Einstein também dizia: "Olhe profundamente a natureza e então entenderá tudo melhor". Observe e reflita. 

Não precisamos ser Einstein. Nem Aristóteles. Você não precisa criar 8 livros sobre política, poesia, catalogar 153 espécies de animais nem escrever um livro de ética para o próprio filho. 

Mas quando foi o último livro que você leu? Ou o último momento em que ficou sozinho vendo a chuva cair? Quando refletiu sobre a natureza? Sobre o rumo de sua carreira, de suas relações interpessoais. Ou simplesmente parou para ouvir o som de pássaros? 

Pare um pouco, desacelere. Reserve minutos do dia ou da semana para reflexão, para aquela leitura que gostaria de fazer. Talvez para aquele projeto pessoal que seus instintos dizem que vai mudar a sua vida. 

Organize-se. Pesquise técnicas de organização pessoal. Pense um pouco mais, fale um pouco menos. A tirania do urgente, por vezes, está dentro de nós mesmos. Auto imposta. Procure frear um pouco, para poder acelerar melhor depois. Seja observador, "leitor". Não entre na agenda desenfreada dos outros. Construa a sua agenda. 

Compreenda o seu entorno invisível para entender se está no lugar certo, com as pessoas certas. 

Aristóteles voltou para a Macedônia para ser mentor de Alexandre, o Grande. O resto da história você conhece. Se não conhece, já sabe o que fazer no seu próximo momento de solidão. Chame Aristóteles para fazer companhia.

* Giovani Salvador é gerente de TI da Dell e professor da UniRitter.