Ricardo Costa, diretor de Desenvolvimento de Negócios na EMC.

Esse artigo não ataca nem defende este ou outro governo, legenda, ideologia política ou algo nesse sentido. Se esperava por isso com base no título, melhor procurar outro texto. Dito isso, vamos a alguns fatos históricos sobre a economia do Brasil:

 

Moeda

- Do Período Colonial, até 1833, nossa moeda era o Real (R) e cada Real valia 1/8 de ouro de 22K. De 1833 até 1942, nossa moeda era o Mil Réis (Rs) e perdeu 3/4 de seu valor em Real;

- Já em 1942, nossa moeda passou a ser o Cruzeiro (Cr$), a qual tirou 3 zeros do antigo Mil Réis. Em 1964, o nome da moeda permaneceu mas - acredite - decidimos eliminar os centavos. Em 1967, decidimos voltar com os centavos na nossa moeda, e mudamos o nome para Cruzeiro Novo (NCr$);

- Em 1970, mudamos de novo para Cruzeiro (Cr$). Em 1984, abolimos novamente os centavos. Em 1986, mudamos para Cruzados (Cz$), voltando com os centavos e cortando 3 zeros da moeda;

- Daí mudamos para Cruzados Novos (NCz$) e, para seguir a tendência, tirou 3 zeros da antiga moeda. Logo depois, voltamos para Cruzeiros (Cr$) em 1990. Em 1993, mudamos para Cruzeiro Real (CR$) e tiramos mais 3 zeros;

- Em 1994, criamos o Real (R$) e este valia CR$2.750,00;

- Mudamos nossa moeda 10 vezes, perdemos 12 zeros, e sobrevivemos!

 

Inflação

- Na década de 1930, a inflação anual era de 6,1%. Essa taxa mais que dobrou na década de 1940, saltando para 12,3%;

- Na década de 1950, nossa inflação anual era mais que 3x a de 1930, chegando aos 19,5%. Nas décadas de 1960 e 1970, novamente mais que dobramos essa taxa, chegando a 40,1%. Isso representa que, em meros 30 anos, nossa inflação aumentou mais que 6x;

- Na década de 1980, pasmem: nossa inflação anual passou a ser de 330%, o que equivale a um salto de 8x em relação à década anterior, ou 55x em 50 anos. Isso não foi o teto: entre 1990 e 1994, nossa inflação média anual era de 764%. Daí, em 1995, nossa taxa média anual caiu para 8,6%;

- Entre 1979 e 1994, acumulamos uma inflação de 13.342.346.717.617,70% (13 trilhões %) e sobrevivemos!

 

Taxas de Juros

- Estamos hoje com uma taxa básica de juros de 13,75% ao ano, e isso é quase o dobro dos 7,25% que existia há 3 anos atrás. Isso não é novidade, pois entre 2001 e 2003, vimos essa taxa de juros aumentar mais de 72%;

- Se já achou isso o cúmulo, imagine uma economia em 1997, que tinha uma taxa de juros de 19,05% ao ano saltar para 45,67% em apenas dois meses, voltar para 19,25% sete meses depois. No mesmo mês, em apenas uma semana, saímos de 19,25% para 25,49%. No outro mês, voltamos para os 40,18%;

E nós sobrevivemos;

 

PIB

- Na década de 1970, tivemos taxas de crescimento como uma Índia ou China que vimos nos últimos anos. Em 1970, crescemos 10,14% em relação a 1969. Em 1971, crescemos 11,3% em relação a 1970. Em 1972 o crescimento foi de 11,9% e em 1973 foi de 14%;

- Já em 1974, diminuímos o ritmo para 8,1% de crescimento, o que é nada mal olhando os dias de hoje. Em 1975, caímos para 5,2% porém ainda crescíamos. Em 1976, novo 'boom': crescemos 10,3%;

- Aí veio 1981, onde tivemos -4,3% do PIB em relação a 1980. Em 1982, crescemos meros 0,9%, e em 1983 ficamos em -2,93%. Em 1990, novo impacto: -4,35%, e um ano antes nós havíamos crescido 3,2%;

E nós sobrevivemos;

 

Bizarrices

Aviso: se você tem uns 30 anos ou menos de idade, recomendo que vejam os vídeos nos links. Você não vai acreditar o que os "coroas" tiveram que passar (inclusive para criar vocês).

- Tivemos que conviver com a URV (Unidade Real de Valor), em 1994, que era uma moeda paralela de transição entre o Cruzeiro Real (CR$) e o Real (R$). Você precisava ler uma tabela de conversão, publicada no jornal, para saber quanto custava um bem. Você recebia em CR$, mas pagava em URV. Em um dia, a URV valia CR$647,50 e no outro valia R$657,50. Veja esse vídeo aqui explicando como era;

- Tivemos um período (1987) onde o preço de tudo era tabelado, no melhor estilo de repúblicas bolivarianas como se fala hoje. O preço do pão, do queijo, do parafuso e de muitas outras eram congelados. Havia a SUNAB, uma mera superintendência, que passou a ter poder praticamente de polícia. O que ocorreu foi desabastecimento, não havia mais o que comprar, e a inflação disparou. Nesse vídeo você terá uma idéia do que foi;

- Em 1990, como nunca visto na História do mundo civilizado, confiscaram todo o dinheiro de todas as pessoas do Brasil. Do noite para o dia, sem aviso, você se viu obrigado a viver com Cr$50.000,00 e só. Era lei. Quem quiser assistir o que eu assisti na TV, o vídeo pode ser visto aqui; 

- Juntando tudo isso, e somente como exemplo, vemos que entre 1979 e 1994 (meros 15 anos), nosso PIB cresceu em uma taxa anual combinada de "meros" 2,24%, enquanto mudamos nossa moeda 6 vezes e perdíamos uns 9 zeros da mesma, 13 trilhões % de inflação, tivemos congelamento de preços, contrabando de carne, controle governamental sobre o que você podia consumir, tomaram nosso dinheiro... E nós sobrevivemos! 

 

Está tudo bem? Definitivamente não. Estamos muito melhores hoje? Com certeza, MUITO melhores. Nesse turbilhão todo, que durou décadas, nasceram empresas - dentre muitas - como as abaixo:

- Grendene: começou em Farroupilha (RS), fabricando embalagens plásticas para garrafões de vinhos, criando em 1979 a famosa sandália Melissa;

- Tam: começou em 1961, em Marília (SP), a partir da união de 10 jovens pilotos de monomotores, transportando cargas e pessoas entre Paraná, Mato Grosso e São Paulo; 

- Grupo Áurea: começou em 1956 em Minas Gerais, com um caminhão que transportava carga - e pessoas - do Recife para Rio e São Paulo. Esse grupo criou a Gol, que depois adquiriu a Varig;

- Mandic: foi fundada por filho de sérvios, de origem humilde, que largou 18 anos de emprego na Siemens para abrir um BBS;

- Natura: começou em 1969, como uma pequena empresa de cosméticos na Vila Mariana em São Paulo, seguindo modelo da Avon;

- Boticário: começou em 1977, abrindo uma farmácia de manipulação em São José dos Pinhais (PR);

- Grupo Pão de Açúcar: começou como uma pequena doceria em São Paulo, em 1948;

- Atacadão: começou em 1960, como um pequeno mercado de peixes em Maringá (PR), e o dono dormia no depósito;

- Amil: começou em 1972, como uma pequena clínica em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro;

- Magazine Luiza: começou em 1957, com uma pequena loja em Franca, interior de SP;

 

Sim, tivemos também muitas baixas. Nem todas resistiram. No entanto, notem a quantidade de empresas - hoje gigantes - que começaram muito pequenas e de forma humilde e corajosa, em meio a todo esse panorama econômico no Brasil.

Muitos desses, contra tudo e contra todos, mesmo em crises recorrentes e piores que as de hoje, em um mercado muitíssimo mais fechado e atrasado que hoje, sem Internet, Mobile, Big Data e tudo mais, partiram para cima. Se ficassem parados, no estilo "Vamos ver no que dá isso tudo aí...", como estariam hoje? Como seria o mercado hoje?

Por isso escrevi esse artigo. Não estamos em uma situação maravilhosa, mas já estivemos em situações muitíssimo piores. O medo congela. Muitos pararam de investir, de criar, de arriscar, de empreender, de partir para cima, com medo da situação que vivemos hoje na economia.

Não se entregue ao medo. Muitos antes de você sofreram muito, mas muito mais. Você tem mais oportunidades hoje que jamais tivemos. Talvez, justamente agora quando muitos se congelam, seja a hora de você cair dentro.

* Ricardo Costa é desenvolvedor de Negócios via Parceiros na EMC. Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn.