No último dia 02 de setembro, o economista inglês Ronald Harry Coase faleceu na cidade de Londres, a mesma onde nascera há 102 anos atrás.

Em 1937, ao publicar o artigo “A Natureza da Firma”, tornou-se conhecido no mundo inteiro, o que lhe permitiu iniciar uma caminhada que culminou com o prêmio Nobel de Economia, em 1991. Membro da escola econômica batizada de “Novo Institucionalismo”, ao lado de Douglass North e Oliver Williamson, seu mais importante trabalho permitiu ao mundo, um ano após a publicação da obra-prima “A Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda”, do também inglês John Maynard Keynes, uma nova visão sobre o mainstream dominante.

A citada obra “A Natureza da Firma” busca estabelecer um elo sobre o que parece ser uma brecha na teoria econômica entre a suposição que recursos são alocados como mecanismos de preços de mercado ou que essa alocação depende do assim chamado empresário-coordenador.

Para explicar em que base esta escolha é efetuada na prática, é necessário entender o motivo de uma firma crescer em uma economia de trocas.

De acordo com Coase, a teoria neoclássica falhou ao expor suas suposições de forma clara, pois ao construir seus pressupostos, pecou ao se omitir a examinar as fundações sob as quais ela foi erguida.

Na referida teoria, existe uma tendência aparente que a análise da mesma inicie pela firma individual e não pela grande indústria.

Para Coase, uma firma é muito mais que uma relação entre vetores de insumos e produtos, pois representa uma relação entre agentes econômicos que se celebra através de contratos formais (como contratos de trabalho) ou informais (como acordos fiduciários).

Essa crítica, no entanto, não faz com que o autor abandone a tradição neoclássica, visto que a busca da firma pela maximização de lucros permanece. O que muda é a consideração dos custos, pois além dos custos de produção, deve-se levar em consideração também os custos de transação, associados ao funcionamento do próprio mercado.

O economista britânico considera a firma em uma análise de governança, dado ser cumpridora de contratos coordenados, o que permite a efetivação da produção e o surgimento de novas relações produtivas, como as existentes nos ambientes organizacionais.

A ótica de Coase procura compreender os componentes dos custos de produção e de transação; em quais condições os mecanismos de preços de mercado definem a melhor forma de alocação de recursos; e em que momento os mecanismos contratuais apresentam melhor resposta como alocadores de recursos, que os mecanismos de preços.

Com isso, torna-se factível analisar os pressupostos da escola neoclássica de minimização de custos, não apenas sob a ótica dos custos de produção, mas também pelos custos de transação, que envolvem os custos de estruturação, monitoramento, garantia e implantação de contratos. Baseado nesses conceitos é possível construir uma ponte entre teoria econômica e a teoria das organizações.

As relações contratuais, que ocorrem dentro ou fora da firma, necessitam de coordenação. Se as mesmas acontecerem dentro das firmas, serão capitaneadas pelo empresário-coordenador, com a questão dos direitos de propriedade sobre os resíduos, definidos através de contrato entre os patrões e os empregados. Se ocorrerem entre firmas, os resultados serão divididos.

A maior herança de Coase é a definição da natureza da firma, ampliando a concepção neoclássica – que considera a firma apenas como uma função de produção –, agregando o conceito de custos de transação e da formatação eficiente dos contratos, o que induz a cooperação entre os agentes econômicos, na busca da maximização do valor da empresa.

Dessa forma, ao lançar seu artigo, em 1937, contribuiu de forma relevante na compreensão da organização moderna da firma, trazendo ao debate dois temas recorrentemente abordados por economistas de diversas tendências ideológicas: a estrutura da organização interna da firma e a coordenação vertical da produção (ou seja, os limites da firma).

Assim, como outros personagens contemporâneos, após sua longeva existência, Coase deixou a vida para entrar para a história.

*Stefano Silveira é economista.