Na noite de 25 de janeiro, mais de 20 vidas foram abruptamente encerradas em um desabamento que deixou não somente os cariocas, mas todo o país estarrecido, a cada dia que chegavam novas informações e imagens, dando uma maior dimensão da tragédia.

Se a tragédia em si, com a morte destas pessoas já não fosse o suficiente para afetar a vida de diversas famílias, há outra questão que obviamente não é levada ao conhecimento do público de imediato, porém com o passar do tempo e o baixar da poeira, continuará afetando as famílias que perderam seus entes queridos, como também outras pessoas que escaparam deste incidente.

Estou falando sobre as diversas empresas que literalmente em questão de segundos, deixaram de existir e tantas outras que tiveram suas atividades interrompidas totalmente ou parcialmente por tempo indeterminado, que é o caso, por exemplo, da TO (Tecnologia Organizacional), que paralisou suas atividades no prédio do Rio de Janeiro, mas continua operando na unidade em São Paulo, além de contar com diversos profissionais alocados em seus clientes.

O mesmo acontece com o banco Itaú, que encaminhou os clientes da agência localizada no térreo para outras unidades do banco. No entanto muitas outras empresas simplesmente desapareceram, com todos os seus ativos (computadores, arquivos impressos e eletrônicos, mesas, armários, etc...) e em alguns casos perderam também ativos de seus clientes.

Isso sem falar na vida de seus profissionais.

Para as empresas, as implicações deste desastre vão muito além do prejuízo material, que já é contabilizado pelos empresários entrevistados nos meios de comunicação.

Algumas destas empresas estimam em um primeiro momento, prejuízos entre R$ 70.000,00 a R$ 300.000,00, mas obviamente estes valores podem ser maiores, pois há empresas que não possuíam seguro de seus bens.

Há também questões como atraso na entrega de projetos aos clientes, problemas com os pagamentos dos funcionários, fornecedores e órgãos do governo e associações, podendo acarretar em juros e multas, caso o credor não crie condições favoráveis em solidariedade às vítimas.

Outra questão que pode não depender da solidariedade de terceiros são referentes aos impactos que os clientes destas empresas sofrerão, devido paralização das atividades, assim como a perda de arquivos impressos e eletrônicas pertencentes aos clientes, pois muitas empresas eram prestadores de serviço e armazenavam informações de seus clientes no local, como é o caso do Grupo Primacy Translations, empresa de tradução que não possuía cópias externas dos documentos impressos e nem dos arquivos eletrônicos armazenados nos computadores.

Em entrevista, o empresário lamenta: "Teremos que entrar em contato com cada um dos clientes e contar com a gentileza deles para nos mandar os documentos novamente e recomeçar as traduções do zero". 

Outra empresa que depende da solidariedade de seus parceiros, clientes e fornecedores é a agência de marketing Nuva, que funcionava no 12º andar do Edifício Liberdade com pouco mais de 5 meses de existência, pagando ainda os investimentos como móveis, computadores e documentação.

Com a ajuda de um amigo, surgiu uma campanha de doação em um site especializado para que os dois sócios e os cinco funcionários possam reerguer novamente a empresa.

Até o momento em que eu redigia este artigo, o site contabilizava para a Nuva cerca de R$ 11.500,00, com uma meta de atingir R$ 20.000,00.

Advogados que possuíam seus escritórios nos prédios atingidos tiveram o apoio da OAB/RJ para que os prazos dos processos destes escritórios fossem suspensos temporariamente pelo Tribunal de Justiça do Rio.

Outros escritórios na região, que sofreram intervenção da Defesa Civil também estarão com seus processos suspensos, até a liberação dos imóveis.

Há ainda relatos de pessoas que trabalhavam em escritórios ao lado, em prédios que foram parcialmente atingidos, como o caso do advogado Claudio de Taunay, que estava no 16º andar do edifício vizinho no momento do desabamento:

"Mas no 7º andar a escada já estava destruída pelos escombros do prédio ao lado. Então, eu subi até o terraço com outras 30 pessoas que estavam no prédio. Acenamos e fomos resgatados pelos bombeiros".

Além destes, há inúmeros outros relatos de empresas e profissionais que inesperadamente tiveram suas rotinas alteradas, de forma que algumas conseguiram manter suas operações em funcionamento, enquanto outras praticamente sumiram.

Essa triste ocorrência nos leva novamente a lembrar dos atentados de 11 de Setembro de 2001, que além de acabarem com milhares de vidas, dezenas de empresas perderam funcionários estratégicos, arquivos eletrônicos, sistemas computadorizados e documentos impressos que jamais puderam ser recuperados.

Houve casos em que empresas preocupadas com as suas informações, chegavam a manter uma cópia dos dados externos, só que armazenadas na outra torre.

Resumo da história: Perderam tudo!

E quem não conhece a história dos edifícios Andraus e Joelma, na cidade de São Paulo, que no início da década de 70 causaram a morte de centenas de pessoas que trabalhavam nos escritórios de empresas, sendo algumas multinacionais.

Inúmeros documentos e projetos foram perdidos em uma época em que se quer o conceito básico de segurança contra incêndios era adotado.

Hoje falar em proteção contra incêndio em ambientes comerciais e industriais é a coisa mais natural do mundo. Ninguém questiona, até por que a lei obriga a adoção de equipamentos de combate ao incêndio, além de treinamentos de brigada e inspeções rotineiras.

Pena que para chegar a este ponto, foram necessários anos de prejuízos materiais e infelizmente perda de vidas humanas para que empresas e organizações investissem recursos para prevenção e não somente para correção.

O brasileiro é “doutrinado” a dar um jeitinho em tudo, de ir “cozinhando o galo” até quando não tiver mais jeito pra fazer a coisa certa e muitas vezes a coisa certa só é feita quando afeta o bolso.

Ao que tudo indica a reforma realizada em dois andares do prédio, sem a presença de um engenheiro, sem o conhecimento necessário por parte dos operários e sem a devida documentação na prefeitura e no CREA podem ter contribuído para a tragédia.

Como não havia responsável e nem documentação, não houve fiscalização dos órgãos competentes.

Se não temos a cultura da prevenção nem para situações que envolvam risco de vida para as pessoas (exceto quando isso afeta o bolso), imagina quando falamos de algo difícil de mensurar como prejuízos com a perda de informações, onde não somente o prejuízo financeiro deve ser estimado, mas também prejuízos de imagem da marca e reputação do negócio.

As razões da grande resistência por parte de alguns empresários e gestores em aumentar os investimentos de segurança vão da falta de conhecimento dos riscos dos quais o negócio está exposto, até casos de prepotência por parte dos responsáveis, que alegam que tais incidentes não fazem parte da realidade da sua empresa.

Outro fato que contribui para a baixa adoção de políticas de segurança é a ausência de regulamentações para a maioria dos setores do mercado, com exceção das grandes instituições financeiras.

O que todos devem entender é que cada empresa, cada negócio deve ter um mapa dos riscos que a cercam.

Não há uma receita de bolo pronta que sirva para todos, pois cada um deve aplicar as medidas corretivas e preventivas de acordo com o impacto e a probabilidade que tal ameaça pode causar ao negócio.

Quais são as ameaças ambientais e humanas que podem interferir na continuidade do negócio? Mas antes disso você deve entender qual é o seu negócio.

Infelizmente nesta tragédia, o maior impacto foram as perdas humanas para os amigos e familiares das vítimas, que valor algum em dinheiro poderá recompensar.

Mas também devemos nos lembrar destas outras perdas que ainda afetarão a vida dos sobreviventes, familiares e demais pessoas que de forma direta ou indireta dependiam destas empresas para manter o seu sustento e os projetos de suas vidas.

Em tempos tão instáveis, com alterações climáticas, crises financeiras, distúrbios populares e negligência por parte de decisões e ações irresponsáveis, ter um Plano de Continuidade do Negócio deveria ser uma obrigação a toda empresa e organização como uma forma de reduzir ao máximo os impactos negativos de um desastre, inclusive para facilitar o apoio aos familiares e demais profissionais dependentes.

Aquele dito popular: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”, parece que não serve aqui no Brasil, pois não estamos aprendendo, nem mesmo com tanta dor em nossa volta.
 

*Roberto Henrique é Analista de Segurança da Informação na ABCTec.