Três Homens em Conflito, 1966.

Em 1966, Sergio Leone dirigiu um clássico do cinema. Il buono, il brutto, il cativo ou o Bom, o Mau e o Feio (Três homens em conflito, em português) aborda um contexto onde três homens estão em busca de um tesouro, porém dois deles têm informações parciais da localização (Blondie e Tuco) e o outro só quer aproveitar que pelo menos esses dois têm alguma informação para tentar levar para casa o tesouro (Sentenza ou Angel Eyes).

Blondie (O Bom) é mais requintado e racional. Ele só matava uma pessoa se esse fosse o último recurso, pois era um caçador de recompensas. 

Tuco (O Feio) é todo canastrão e sem preparo para lidar com qualquer questão que não termine em briga ou discussão. 

Sentenza (O Mau) é um mercenário sem escrúpulos, que por vezes trabalha como agente duplo, exterminando tanto o alvo que foi contratado para eliminar, como o mandante do crime, caso isso possa lhe render mais dinheiro.

Todos eles são exímios atiradores e excelentes em suas funções.

No cena final, reproduzida acima, Blondie atira e mata Sentenza, embora esse tenha sacado a arma primeiro. Tuco nota que sua arma estava descarregada, obra de Blondie, que na noite anterior tirou todas as balas. Ainda tem mais no final, mas assistam por conta:

 

 

Dentro da comunicação corporativa, ou seja, os departamentos com profissionais de marketing, relações públicas, propaganda, publicidade, jornalismo entre outros, nós temos os profissionais com os perfis do Bom, do Mau e do Feio (com adaptações, claro). Na empresa como um todo podemos avaliar melhor isso, mas vamos nos atentar à comunicação:

 

O Bom: esse é aquele profissional de postura, com compreensão do que passa ao redor e que se posiciona bem e age de forma antecipada aos eventuais problemas. Fala pouco, observa muito e executa com precisão o que tem que ser feito. Ele está atrás do prêmio, seja o dinheiro, os benefícios envolvidos no trabalho, o crescimento na carreira, ou o que quer que seja. Não está lá para figurar e passar despercebido. Esse profissional só vai te queimar ou entregar a sua cabeça para o chefe se for necessário para o bem do contexto que estiver em questão, principalmente se isso significar dano à sua imagem e trabalho.

Ele sabe que o conhecimento das outras pessoas é essencial para que ele tenha a própria recompensa, então estimula o trabalho em equipe, pois custará mais para ele não atingir o resultado.

Se fosse uma interface entre a assessoria de comunicação e a empresa, esse é o cara que faria as coisas acontecerem da melhor forma possível, defendendo sua posição e abordando as possibilidades que surgem no entorno de modo a não desperdiçar o tempo dos profissionais envolvidos.

 

O Mau: é o profissional que está lá pelo dinheiro e por vezes para ter a sua posição. Ele semeia discórdia, cria caso, gera conflito, vende a imagem própria e nunca fala em "nós". Ele até entrega o resultado, mas é o famoso "custe o que custar", e isso pode significar entregar sua cabeça das formas mais absurdas do mundo para se tornar o Chief Marketing Officer da companhia - e bem às vezes é a mistura rara de competência com falta de pudor e companheirismo. Normalmente é só mais uma pessoa que se vende bem e que se incomoda com o seu sucesso. Ele sabe que tem que trabalhar com mais pessoas, mas não aceita isso, e espera o momento certo para tira-las da jogada.

Se fosse a interface com a assessoria de imprensa, seria o centralizador, o cara que quer decidir tudo, que não dá passagem para os profissionais de comunicação da agência trabalharem internamente, que faz de tudo para não perder o controle (seja lá o que signifique controle para um pessoa assim). É, basicamente, o cara escroto que a gente comenta enquanto toma um café.

 

O Feio: esse é o profissional que as pessoas não dão nada, e simplesmente ignoram. Ele entrega o resultado, mas não vê benefícios tangíveis no dia a dia de sua função. É o motivo do termo underdog existir em inglês. É um pouco desengonçado, às vezes parece perdido, mas tem foco para atingir o que é esperado. Às vezes é meio canastrão, para tentar promover o dele, mas não leva jeito pra isso.

Se fosse a interface com a assessoria de imprensa, esse profissional seria aquele cara que não consegue dizer não para a empresa e tenta de qualquer jeito fazer com que a agência entregue o resultado esperado pelo chefe. Não é uma relação de inteligência, mas sim de execução.

Esse não sabe trabalhar com outras pessoas. É acoado, quando fala, se enrola, perde a linha, o prumo. Mas se esforça para trabalhar e ser útil.

 

Obviamente, existe muito para se destrinchar nesses perfis. Muita água passará por debaixo dessa ponte até encontrarmos as descrições ideais. Mas em suma, o Bom é o modelo ideal, pois ninguém aqui deixa de visar o benefício e a conquista própria. O Mau é escroto. Ponto. E o Feio é o cara que, com mais segurança, atenção e "requinte" poderá sair dessa condição incômoda.

A minha pergunta é: quem é você e quem são as pessoas que trabalham perto de você? O Bom, o Mau, o Feio ou uma mistura de um com o outro?

*Renato Galisteu é especialista em comunicação e mídia social, jornalista de tecnologia e pai do Noah. Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn.