Que admirável novo mundo é este em que estamos vivendo. Estamos imersos em um oceano de dados e conhecimentos, de novos aparelhos e novidades tecnológicas que nunca estiveram tão disponíveis.

A todo momento, surgem tecnologias revolucionárias, robôs, celulares, TVs com nomes complexos, engenhocas esquisitas, sites e sistemas que fazem tudo mudar radical e repentinamente.

Há tanta gente produzindo conteúdo nas mídias sociais e parece que a notícia mais compartilhada é sempre a pior e mais violenta. Por outro lado, é como se fossem permanentemente muito felizes, com fotos e seus filmes descolados, postados diariamente, e tudo virou uma grande bobeira.

A sociedade conectada confunde os limites da vida. Certa vez, uma amiga me contou a história da filha de um conhecido dela. Já era 11 horas da noite e a menina ainda estava on-line no Facebook.

Enquanto o pai pedia à filha que desligasse o computador e fosse dormir, ela respondia: "Mas, pai, é que meia-noite já é meu aniversário e meus amigos vão fazer uma festa para mim pelas mídias sociais. Eles já começaram a puxar o parabéns e, daqui a pouco, vão me mandar um monte de ícones de bolinho!". Claro que naquele dia ele não resistiu e deixou a filha dormir mais tarde.

Nesse mundo em rede, podemos estar solitários, mas jamais estaremos sozinhos. São dezenas de amigos em seu Inbox, Messenger, Facebook, Twitter, Foursquare, Blog, Instagram, Pinterest.

Na dualidade digital, pessoas criam identidades imaginárias, usam avatares e passam horas, dias e anos em uma existência paralela, com amigos virtuais em uma encenação séria da vida.

O mundo on-line parece um grande palco de teatro de espelhos, no qual o tímido se torna extrovertido, o calmo em visceral, o rude em romântico. A inconveniência da verdade é criar um alter ego digital acima da lei, viver uma vida paralela completamente diferente da real, que permite namorar em Paris, tomar um café com amigos virtuais em Roma, pular de paraquedas do Everest ou visitar uma praia de hedonismo no Caribe.

Todo mundo deseja uma vida perfeita, mesmo que seja virtual. Isso é reflexo da sociedade imediatista, que substitui o ser pelo ter. Além disso, hoje há a facilidade de conectar-se e a de cortar a conexão. Se você me incomoda, eu simplesmente tiro você do meu circuito.

Se temos a impressão de que os inventos ultramodernos servem só para um grande brincadeira de criança, o fato é que ainda somos crianças alegres que acabam de adentrar a época de maior compartilhamento da história da humanidade. Daqui a pouco cresceremos. Na  era do compartilhamento é o momento de repensar as relações humanas e de realinhar a nós mesmos, os "indivíduos digitais".

* Gil Giardelli é autor do livro "Você é o que você compartilha" (Editora Gente) e CEO da Gaia Creative, empresa que aplica inteligência de mídias sociais, economia colaborativa, gestão do conhecimento e inovação.