A criação de uma empresa de semicondutores no Brasil, com o anúncio de importante apoio do BNDES e FINEP ao grupo de Eike Batista, reavivou a discussão sobre investimentos do Estado neste setor, em geral, e sobre a Ceitec S.A., estatal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em particular.

Não entraremos no debate privado versus estatal, porque tanto SIX Semicondutores como Ceitec só se viabilizam com maciços recursos públicos, ainda que a primeira tenha a institucionalidade jurídica privada e a segunda, estatal. Examinaremos a questão do ponto de vista tecnológico, a fim de esclarecer algumas interpretações, no nosso entender equivocadas, veiculadas pela imprensa.

Ninguém nega as atribulações da Ceitec e as dificuldades enfrentadas para implantar esse empreendimento industrial pioneiro de engenharia no Brasil, sobretudo enquanto empresa estatal, sujeita a um regime de gestão voltado ao controle de processos, não à eficiência e produtividade empresariais. Contudo, já está em curso na CEITEC, desde julho deste ano, a transferência da tecnologia CMOS de 600 nanômetros.

À medida que esta transferência for se dando, aumentará o porcentual das etapas de fabricação de chips realizado no Brasil, até atingir 100% em meados de 2014. A tecnologia de 600 nanômetros tem sua fatia da produção de chips no mercado global de cerca de 10 a 15%, a qual se mantém relativamente estável há muitos anos.

A SIX anunciou que irá operar com tecnologias de 130 e 90 nanômetros, as quais detém uma fatia de produção da ordem de 20%. Em outras palavras, Ceitec e SIX não competem, complementam-se do ponto de vista tecnológico. Além do mais, a Ceitec é, também, uma empresa de projetos de chips, uma design house. Faz parte de seu negócio, de forma muito importante, o desenvolvimento de novos projetos, especificamente na área de identificação eletrônica por radiofrequencia (RFID).

Hoje, a Ceitec terceiriza para empresas da Ásia a manufatura daqueles projetos que requerem tecnologias outras que a de 600 nanômetros. Com a SIX em operação, a empresa poderia trazer para o Brasil parte dessa produção, se os custos da SIX forem competitivos. Ganham o Brasil e as duas empresas.

Por outro lado, a SIX está engatinhando e promessa de recursos financeiros não garante prazos. O setor privado brasileiro, como o estatal, sofre com os “custos Brasil” e os atrasos que estes trazem aos projetos, mesmo aos melhor concebidos e financiados. Instalar e operar uma fábrica de semicondutores é bem mais complexo e caro do que se imagina.

Basta lembrar que os padrões de qualidade da água de processo superam de longe aqueles da indústria farmacêutica e a infraestrutura industrial de uma sala limpa para produção de microcircuitos eletrônicos é das mais sofisticadas.

Quanto à mão de obra, não bastam engenheiros e técnicos de alto nível acadêmico e profissional, ou especialistas acostumados a trabalhar em países desenvolvidos, com a cadeia de suprimento e o apoio técnico ao alcance da mão, com prazos de uma “pizza delivery”. São necessários operários de nível “suíço”, para montar a planta.

Basta um disjuntor mal identificado para provocar danos a equipamentos valiosos e atrasos no cronograma. Será um imenso desafio cumprir os prazos anunciados pela SIX, até ela ter uma linha de produção estabilizada, com 100% das etapas de fabricação de um microcircuito de 130 ou 90 nanômetros executadas no Brasil.

Este ano marca o primeiro ano de faturamento da Ceitec S.A., todo ele realizado com vendas para o setor privado. O CTC11002 (Chip do Boi) está sendo utilizado em produtos nacionais, certificados internacionalmente pelo ICAR (International Committee for Animal Recording).

Assim, o chip desenvolvido em Porto Alegre teve seu padrão global de desempenho e qualidade comprovado. O ICAR realiza o teste físico dos dispositivos de identificação, para verificar a conformidade com as normas internacionais, e fornece os identificadores numéricos únicos para cada país e fabricante.

Deste modo, todo fornecedor certificado pelo ICAR disponibiliza para seus clientes um identificador que é único para cada animal, em todo o rebanho mundial rastreado. Outras seis empresas brasileiras e duas multinacionais estão desenvolvendo produtos com os chips da Ceitec ou testando-os para uso em suas linhas de produção. O mercado está mudando a sua percepção da empresa.

Se a Ceitec está vendendo é que seus produtos, além de qualidade e desempenho, têm preço competitivo. Com vistas ao futuro, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Casa da Moeda do Brasil para desenvolver o chip do passaporte brasileiro.

Apesar disto, é necessário lembrar que Ceitec e SIX não vão resolver o problema da importação de componentes eletrônicos do Brasil. Nenhuma das duas empresas tem escala, ou tecnologia, para resolver esse problema.

Olhemos a escala. Cada bilhão de faturamento anual de uma empresa de semicondutores é gerado por alguns milhares de empregos diretos. O Brasil importa cerca de US$ 5 bilhões de componentes por ano, o que representa dezenas de milhares de empregos para a criação dos quais os investimentos na SIX e Ceitec não são suficientes.

Na realidade, essas duas empresas têm de ser vistas como os primeiros passos de um bebê. Quem vai julgar a partir desses passos se esse bebê não irá no futuro ganhar medalhas em competições internacionais? É muito cedo para dizer.

Sabemos que o prazo para a instalação de uma nova cadeia produtiva em um país mede-se em décadas, não em meses ou anos. Ainda há muito a fazer. O importante é que os investimentos já feitos pelo Governo Federal na Ceitec estão começando a dar frutos. Façamos votos que o mesmo aconteça com a SIX.

Cylon Gonçalves da Silva é Presidente da Ceitec S.A. O artigo foi originalmente publicado no site Convergência Digital.