Mudanças em governos preocupam setor de TI. Foto: Sergey Nivens/Shutterstock.com

Na segunda semana do mês de dezembro, o governador do RS, José Ivo Sartori, anunciou o fim da Secretaria de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico (SCIT), colocando o tema abaixo da Secretária de Desenvolvimento.

A intenção de reduzir o número de secretarias é algo que o governador já havia sinalizado durante o pleito eleitoral, e fora utilizado como argumento de campanha. Em uma análise superficial esta seria uma importante medida no sentido de otimizar a gestão pública, gerar ganho de eficiência e redução de custos operacionais. 

Porém, ao por fim na SCIT, o governador tomou uma importante decisão no sentido contrário ao desenvolvimento e da diversificação das fontes de geração de PIB em nosso Estado.

Acreditando ser esta uma tendência na gestão pública nacional, nosso governador enfraqueceu quem muito tem feito pelo desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Talvez o impacto mais forte não esteja no presente, nas empresas já estabelecidas, e sim naquelas que estão por vir. 

As startups gaúchas encontrarão um ambiente muito mais adverso para seu desenvolvimento, não é somente o fim de uma Secretaria, é o reflexo da falta de visão e apoio há um segmento da economia que tem sido fundamental no avanço de diversos países. 

Será um atraso de no mínimo quatro anos se nada for feito para mudar este cenário retrógrado que se instala no RS em 2015.

Como contra exemplo, podemos citar o governo canadense, cuja economia tradicional guarda similitude com a nossa pela forte dependência de commodities. Pois lá o governo entendeu que a geração de empregos qualificados e de riqueza passa inequivocamente pela inovação, sendo TI um de seus principais vetores.   

Assim, as três esferas de governo junto com o setor privado e universidades estão de fato articulados e de fato atuando, resultando em dezenas de polos de inovação espalhados pelo país e de onde florescem as empresas da nova economia.  

Para os que acreditam que iniciativas como estas são possíveis somente em países já desenvolvidos, precisam conhecer o exemplo de Santa Catarina. Nem só de belas praias é feita Florianópolis. 

Ao norte da ilha, na praia de Cachoeira do Bom Jesus, está surgindo um polo de fomento a economia criativa. Uma iniciativa que teve início em 2002 e foi mantida pelos governos seguintes. O Sapiens Parque ocupa uma área de 4,5 milhões de m², em um horizonte de implantação de 20 anos.

A Sapiens Parque S.A. é administrada por um Conselho de Administração, Diretoria e Conselho Consultivo com representantes do poder público, iniciativa privada e academia. O Governo do Estado de SC investiu até agora R$ 30 milhões no projeto, tendo em contrapartida R$ 150 milhões aportados pela iniciativa privada. 

Para cada R$ 1 investido pelo governo, R$ 5 vieram em contrapartida de empresários. Temos ótimos parques tecnológicos no Rio Grande do Sul, porém todos são fruto da iniciativa privada.

A visão do governo catarinense em contraponto ao do Rio Grande do Sul talvez explique o ótimo momento vivido pelo setor de TI no estado vizinho. 

Em recente estudo publicado pela Endeavor que analisa as melhores cidades para empreender no Brasil, Florianópolis aparece em 1o lugar, enquanto Porto Alegre ocupa apenas a 7ª posição, ocupando a pior colocação entre as capitais do sul do país (Curitiba esta em 4º lugar).

Já não bastasse o cenário que nos espera em âmbito estadual, a presidente reeleita, Dilma Rousseff anunciou Aldo Rebelo como Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação após quatro anos como Ministro do Esportes. 

Porém não é a desconexa transição dos “Esportes” para a “Tecnologia” que chama atenção nesta nomeação, e sim a posição contrária a tecnologia e inovação expressa em diversas oportunidades por Aldo Rebelo.

Enquanto Deputado Federal pelo PCdoB em 1994, Rebelo foi o autor do Projeto de Lei que proibia a adoção pela administração pública qualquer inovação tecnológica que pudesse resultar em redução de mão-de-obra. 

Seguidor da cartilha de Engles, coautor do Manifesto do Partido Comunista, Aldo Rebelo só acredita naquilo que se pode ver e tocar. Como então ficará a Inovação e a Tecnologia de nosso país, muitas vezes tão intangível, sendo gerida pelo nobre representante do PCdoB? Só o tempo dirá.

Mais uma vez o associativismo terá de suprir as lacunas deixadas pelo Estado e contribuir positivamente para o desenvolvimento da Economia Criativa e Tecnologia no Rio Grande do Sul. 

O Setor de TI precisa unir-se e fortalecer-se, e para isso pode contar com a Assespro como elo e ponto de encontro desta cadeia produtiva. Representatividade setorial é uma das principais missões da nossa associação na gestão da Presidente Letícia Batistela. 

Vamos trabalhar de forma inteligente e coordenada para sermos a voz e a força da TI do RS. Temos de buscar no trabalho conjunto e integrado a superação daquilo que os governos Estadual e Federal deixarão de prover em um horizonte próximo.

* Cristiano Walter Mendes é diretor de Big Data e Cloud da Assespro-RS e diretor do GoDaddy Brasil. Este artigo foi publicado originalmente no Convergência Digital.