João Ramos é fundador da startup Pague Com Uma Foto. Foto: Divulgação.

O Airbnb e o Uber construíram respectivamente um dos maiores ativos do mundo no que diz respeito a números de apartamentos para hospedagem e carros privados para transporte particular. O mais impressionante é que fizeram isso sem ao menos possuir um imóvel ou veículo próprio para prestar esses serviços.

Em outras palavras, basearam seus negócios em uma lógica tecnológica de canalizar oferta e demanda através de seus serviços virtuais, desbloqueando ativos subutilizados e invertendo o bom senso no mundo dos negócios.

O resultado disso tudo? Provocaram uma onda de inquietações, inovações, mudanças, protestos e questionamentos em relação aos modelos tradicionais que por décadas a fio sobreviveram sem grandes abalos.

Até então essas duas marcas se tornaram ícones de uma nova indústria baseada no valor e na valorização do acesso e não da posse. Indústria essa, que nasceu para questionar o mundo, mexer em feridas e trazer consigo uma verdade: mais importante do que a furadeira, somente o furo que ela é capaz de fazer.

Ok, até aí tudo bem. A questão mais importante é que Airbnb e Uber, assim como centenas de outras novas empresas inovadoras, criaram novas possibilidades dentro do sistema econômico que vivemos hoje. Seus modelos de negócios poderão e já estão desencadeando a formação de um novo ciclo econômico baseado no compartilhamento e não mais apenas na aquisição, formando o que podemos chamar de início do processo de suplantação do capitalismo como conhecemos atualmente.

Em outras palavras, mais importante do que possuir é acessar, ou seja, a partir dessa virada de chave, fica claro que pessoas poderão comprar menos o produto e mais a experiência que o produto é capaz de gerar.

Com esse novo gatilho comportamental — e diferentemente do modelo tradicional de economia onde os bens são subutilizados — é evidente que um único e mesmo objeto poderá ser superutilizado por um número cada vez maior de pessoas, gerando importantes impactos na economia como a diminuição de vendas de produtos físicos e em todas as suas cadeias de produção.

Eu explico melhor.

O mundo capitalista só sobrevive em seu atual modelo porque possuí como prerrogativa um importante fundamento: escassez, que por sua vez gera a equação oferta e demanda. Quanto mais escasso e maior a demanda, maior o preço, quanto maior a abundância e menor demanda, menor o preço. E isso é um fundamento universal, seja pelo ponto de vista do consumo hedônico ou pela visão do consumo pragmático, pregado pela maioria dos economistas.

Portanto, se multiplicarmos todos os ativos de imóveis e de veículos que poderiam se tornar quartos de hotéis e carros para transporte particular veríamos que não há escassez, muito pelo contrário, haveria sim abundância!

Sob esse ponto de vista, empresas de economia compartilhada escancararam para o mundo a possibilidade de criar uma lógica de consumo baseada no compartilhamento e não mais na compra, criando uma rachadura na coluna que sustenta as bases do sistema capitalista atual. E como qualquer rachadura, poderá se alastrar, impactando outros pilares fundamentais até que atinja o ponto limite de autodestruição, levando consigo empresas tradicionais e até mesmo disruptivas, como o próprio Uber e Airbnb.

Além dessa questão, Uber e Airbnb cobram por uma mediação que poderia ser feito tranquilamente de graça ou, na pior das hipóteses, a um custo marginal praticamente zero, pois apenas disponibilizam um ambiente digital para que essas relações de trocas aconteçam, sem pagar um centavo pelo combustível e IPVA ou pelo condomínio e IPTU dos usuários ofertantes.

Precisa de mais um exemplo para entender essa dinâmica? Lá vai: o Wikipédia é um modelo de negócio que prova o que estou falando. Construir uma comunidade virtual de pessoas que ajudam espontaneamente a organizar todo o conteúdo do mundo e ofertar de graça esse “produto”, além de destruir com a indústria das enciclopédias e contribuir na diminuição de movimentação financeira em vários setores correlatos, acaba criando um modelo de negócio que não tem como gerar renda. O projeto, por conseqüência de si mesmo, criou o que podemos chamar de uma atividade de não-mercado.

Por isso — mesmo com toda a carga revolucionária e quebras de paradigmas — o Airbnb e o Uber provavelmente serão superados por tecnologias iguais ou melhores, mas que acima de tudo terão como principal característica algo imbatível: o objetivo não mercadológico.

A verdade é que as pessoas poderão usufruir de todas as vantagens da nova economia compartilhada sem a necessidade de intermediários remunerados. E isso está sendo viabilizado por questões como empoderamento social, descentralização dos meios de produção, surgimento de hackers spaces, disseminação de tutoriais, surgimento de softwares e aplicativos livres, entre outros fatores que contribuirão para colocar por terra qualquer tentativa de monopólio ou domínio mercadológico de um ou poucos players tecnológicos.

Se formos analisar profundamente, Airbnb e Uber inspiram paradoxos quase irracionais. Se caracterizam essencialmente como empresas capitalistas atuando em um mercado cada vez mais social, desmonopolizado e compartilhado. São dois players que ajudaram a criar um novo paradigma pós-capitalista que não condiz em nada com seus modelos monopolistas de negócio.

Mais uma argumentação para entender a razão pela qual Airbnb e Uber serão superados? Lá vai: será ilógico aceitar que empresas como essas detenham o monopólio justamente em um mercado cada vez mais baseado em abundância e não em escassez. Será ainda mais ilógico achar que não surgirão concorrentes para substituí-los.

Para se ter uma pequena ideia, nesse momento em que escrevo esse texto, uma plataforma digital chamada Guest to Guest permite que milhares de pessoas espalhadas pelo mundo troquem de casas durante as férias, sem a necessidade do uso de qualquer dinheiro, apenas através de guestpoints, moeda social criada pelo próprio site para viabilizar as transações.

Em resumo, essa startup está incentivando o turismo com a vantagem de desonerar as viagens de seus usuários no que diz respeito à hospedagem, um dos itens mais caros no planejamento turístico de qualquer pessoa. Para enfrentar o Uber, já está sendo testado em Israel um aplicativo que aproximará proprietários de veículos e usuários de forma descentralizada e isenta de taxas e pagamentos em relação à plataforma tecnológica, e claro, sem deixar de entregar a qualidade e a segurança equivalente ao aplicativo líder.

Por fim, você concorda comigo que seria completamente ilógico que o Google mudasse seu modelo de negócio e passasse a cobrar uma taxa de 20% dos usuários sob o custo de cada pesquisa realizada na web? Se sim, certamente concordará que em alguns anos olharemos para trás e também acharemos um absurdo que um dia pagamos 20% sob cada transação realizada no Uber e no Airbnb.

Ainda quer pagar para ver?

* João Ramos é fundador da startup Pague Com Uma Foto e coordenador de planejamento criativo da Storck Soluções Promocionais. Esse artigo foi publicado originalmente no Medium - joao@paguecomumafoto.com.br