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CARREIRA

Como é ser programador em uma agência digital

Luis Fernando Bittencourt // terça, 31/10/2017 17:22

Aprendi a programar em 2004. Durante 9 desses 13 anos, trabalhei em duas agências digitais como desenvolvedor backend, analista de sistemas, head de desenvolvimento e, ultimamente, head de operações. A AG2 (hoje Sapient AG2) foi comprada pelo segundo maior grupo de comunicação do mundo e a DZ Estúdio atende grandes marcas do Rio Grande do Sul como Grupo RBS, Nutrella, Paquetá, Sicredi e Yara.

Luis Fernando Bittencourt.

Essas são minhas credenciais para mostrar um outro ponto de vista sobre um comentário recorrente que ouço tanto de antigos colegas programadores quanto, mais recentemente, de candidatos que entrevisto para vagas abertas: o de que agências digitais são ambientes insalubres e desorganizados, ou seja, uma escolha de carreira questionável.

Ao invés de dar respostas definitivas, quero garantir que você não desconsidere uma opção de carreira por desinformação. Para isso, quero pontuar com bom humor o que é verdade, o que é mito e o que são questões de escolha, isto é, decisões que dependem muito mais das preferências pessoais de cada profissional do que qualquer fator externo.

O que uma agência digital faz

Imagine o lançamento de um produto revolucionário: uma coleira que traduz os pensamentos dos gatos. Se você já conviveu com um bichano e presenciou algum comportamento estranho, sabe que uma invenção dessa magnitude mereceria um lançamento apropriado, não é mesmo?

Para isso, até alguns anos atrás, a marca inventora da coleira só precisaria contratar uma agência de publicidade clássica ou agência off. Essas agências existem desde o século XVIII e, grosso modo, cuidam de toda a publicidade de seus clientes que é veiculada fora da Internet. No nosso lançamento fictício, ela poderia criar propagandas para a TV, jornal, spots no rádio etc.

Eu ouvi “gatos”?

Acontece que estamos em 2017. Você consegue imaginar o lançamento de uma coleira que traduz os pensamentos dos gatos fora da Internet? A Internet é o paraíso dos gatos! Por isso, precisaríamos também de alguém que conheça as dezenas de opções de comunicação online e saiba quais são as mais eficientes para atingir os objetivos da campanha, geralmente tornar o produto conhecido e vendê-lo. É aí que entra a agência digital ou agência on.

Como as pessoas consomem cada vez mais pela Internet, as agências digitais estão tomando rapidamente o protagonismo das agências off. Boa parte das marcas já conta com uma agência on dedicada cuja função é cuidar da presença digital do cliente, ou seja, tudo que ele tem online. Isso inclui sites, hotsites, blogs, contas em redes sociais, sistemas próprios, serviços contratados, plataformas e produtos, contas de mídia (Google AdWords, Facebook etc) e assim por diante.

Uma das maiores vantagens dessa migração para o digital é a medição de resultados com uma precisão impossível para mídias offline. Afinal de contas, nossa marca de coleiras nunca saberá quantas unidades vendeu graças aquele outdoor na Avenida Paulista.

Verdade: programadores de agência devem ser ágeis

Agora imagine que a marca decidiu que o lançamento da nossa coleira futurista acontecerá no intervalo do Fantástico. É um dos horários mais nobres da televisão, comprado a peso de ouro e com bastante antecedência. Como esse comercial certamente incluirá alguma URL para que os telespectadores saibam mais sobre nosso incrível lançamento, o mercado da publicidade acaba de ditar o deadline do projeto.

Aqui é preciso ser honesto: alguns projetos têm prazos apertados. Isso vale principalmente para campanhas que possuem alguma data preestabelecida como o nosso exemplo do Fantástico. Assim, saber gerir o próprio tempo e conduzir o trabalho com um olho no prazo são duas características importantes para se dar bem em uma agência digital.

A máxima de Mark Zuckerberg cai como uma luva: feito é melhor do que perfeito. No nosso exemplo imaginário do lançamento da coleira tradutora, precisamos ter alguma coisa publicada quando a propaganda for ao ar. Na prática, isso pode significar uma versão mais básica, porém completamente funcional, da ideia original. Nos dias seguintes, você pode incluir conteúdos adicionais, refinar as animações do frontend, refatorar trechos de código etc.

Quanto mais próximo o contato com a marca, no entanto, maior é a liberdade da agência digital para sugerir seus próprios projetos, com maior liberdade criativa e prazos mais factíveis. Desse modo, se você estiver considerando uma oportunidade de trabalho, tente descobrir como é a relação da agência com seus clientes — costuma ser um indicador bastante confiável.

Questão de escolha: agências não fazem produtos

Programadores de startup geralmente desenvolvem um único produto, afinal a empresa só existe por causa daquele produto. Se você trabalha em uma fábrica de software, alocado ou não em um cliente, deve trabalhar meses a fio em um mesmo projeto, provavelmente um dos produtos daquele cliente.

Nesse ponto, há uma diferença fundamental: agências digitais não vivem de produtos e mais, não vivem em função de software. Salvo raras exceções, o desenvolvimento de software em uma agência existe apenas para dar suporte a campanhas de… comunicação.

Isso não significa de forma alguma que o desenvolvimento seja visto como algo inferior ou meramente operacional, até porque o software em si é a principal estratégia de muitas campanhas.

No entanto, isso faz com que o ciclo de vida dos projetos sejam bem mais curtos comparados a startups e fábricas de software. É o cenário perfeito para “programadores de tiro curto”, que gostam de trabalhar intensamente em projetos menores e ver resultados rápidos. Se você é do tipo maratonista, que gosta de projetos maiores, talvez agências não sejam uma boa ideia.

Verdade: é bom saber um pouco de tudo

Já que agências digitais não vivem de software, é natural que seus times de desenvolvimento sejam enxutos. Raramente há um núcleo dedicado de TI ou infraestrutura, por exemplo, o que tem no mínimo dois efeitos imediatos:

Muita gente acha que consertar a impressora é função dos programadores

Você se envolve em mais fases de um projeto do que faria em uma fábrica de software, por exemplo

Sabe quem faz a publicação dos projetos? Você. Ou seja, além de um conhecimento mínimo de administração de servidores, você precisa se virar com várias formas de deploy, desde práticas mais modernas como integração contínua até o famigerado FTP.

Trabalhar em muitos projetos de muitos clientes diferentes leva inevitavelmente a vários ambientes de desenvolvimento, com sistemas operacionais, linguagens de programação, frameworks, bancos de dados, restrições de segurança (ou obsolescência) e acessos completamente diferentes. Dessa forma, é mais útil saber um pouquinho de cada coisa do que ser especialista em uma única combinação dessas variáveis. Tomando emprestada uma expressão divertida que vi em um currículo, é preciso ter um altíssimo nível de sivirômetro.

Mito: todas as agências são exploradoras

A carga de trabalho é um dos pontos mais polêmicos relacionado a agências, on e off. Sim, todos nós sabemos de empresas exploradoras que obrigam os times a virar noites trabalhando e pagam (somente) com pizza e refrigerante. Sempre que um conhecido está interessado em alguma oportunidade nesses lugares, inclusive, faço questão de compartilhar o que eu sei sobre aquele ambiente de trabalho e tento dissuadi-lo, deliberadamente.

O fato é que isso é um vício de uma parte do mercado. Vício, aliás, que vem sendo questionado por um número cada vez maior de profissionais, uma nova geração que não glorifica cargas de trabalho excessivas e nada contra a glamorização do workaholic. Muitas dessas pessoas criaram empresas como a DZ em torno desses novos valores. Procure por agências que respeitam as pessoas e você ficará bem.

Mito: criativos não sabem nada de tecnologia

Em algumas empresas, há uma rixa infantil entre designers e programadores. É comum ouvir que os criativos não sabem nada de tecnologia e que os programadores estragam a experiência pensada pela criação. Bobagem, puro preconceito.

Em uma agência digital, a troca de experiências entre esses dois universos é positiva para todo mundo: programadores desenvolvem um bom senso estético e aprendem a ver o design como função e criativos ganham respaldo técnico para propor soluções inovadoras.

E como você verá, essa combinação de habilidades gera cases muito legais.

Mito: projetos de agência não têm graça

Uma das coisas mais legais de se trabalhar em uma agência digital são os projetos diferentes e inusitados baseados nessa mistura de criatividade e tecnologia. Abaixo estão três cases dos últimos 12 meses da DZ Estúdio, bons exemplos dos desafios cotidianos dos programadores de agência.

Te Joga (Sprite e RBS TV)

O próprio objeto da campanha já era inusitado: criar o maior toboágua de rua que Porto Alegre já viu. O maior desafio desse projeto não era o site com o formulário de inscrições em si, mas sim como fazê-lo resistir ao grande número de acessos, motivado pelos ingressos grátis e limitados.

No fim das contas, optou-se por um site simples em PHP puro e MySQL publicado na Heroku, pois essa plataforma permitiria escalar recursos imediatamente caso fosse necessário. Na abertura das inscrições, o time fez um plantão na hora do almoço e os ingressos se esgotaram em apenas seis minutos. Foram mais de 4 mil acessos simultâneos e nenhum downtime.

Vai dizer que não dá vontade de se jogar?

Juntos Pelo Natal (Sicredi)

Este projeto foi feito com Node.js, Express e Socket.IO.

Ao acessar o site da campanha, os visitantes eram convidados a sincronizar o celular com o computador (ou com outro celular) para ter uma experiência inesquecível.​ ​A partir daí, um vídeo iniciava simultaneamente​ ​nos dois dispositivos, revelando a verdade sobre o fábula natalina: o Papai Noel não faz nada sozinho. Na tela principal, o bom velhinho aparecia sorridente, abrindo as cartinhas, preparando os presentes e enviando para as crianças. Na segunda tela, descobríamos que tudo aquilo só ​era possível com a cooperação dos duendes.

Explorando o comportamento multitela, que é uma realidade no Brasil (90% dos usuários se conectam com 2 ou mais dispositivos), a ação Juntos Pelo Natal virou assunto. O interesse pela marca cresceu imediatamente​ e as buscas por Sicredi aumentaram 20% durante o período da campanha,​ em relação à média do ano.

— DZ Estúdio

ChefBot (Nutrella)

ChefBot é um robozinho simpático que sugere receitas personalizadas de sanduíches, snacks e sobremesas baseado nas preferências que você expressa ao responder algumas perguntas iniciais. Não usamos nenhuma plataforma intermediária como a Gupshup, então tivemos que aprender como programar um bot do zero, o que é sempre mais difícil quando envolve qualquer documentação do Facebook (entendedores entenderão).

Como participei diretamente do desenvolvimento, me sinto à vontade para dizer que a coisa mais legal desse projeto é o conteúdo, ou seja, o que o bot fala e principalmente como ele fala. É um bom exemplo da interdisciplinaridade bacana das agências digitais e me fez valorizar ainda mais o trabalho dos colegas redatores.

Dica de procrastinação: o bot está recheado de easter eggs! Converse com ele e experimente perguntar se no céu tem pão, por exemplo.

Por onde começar

Se você se identificou com o estilo de trabalho de uma agência digital e quer dar uma olhada nas oportunidades, acesse o site da Associação Brasileira dos Agentes Digitais (ABRADi) e conheça os associados. A maioria deles tem uma seção ou página no Facebook dedicada a divulgar vagas abertas.

Ao encontrar uma vaga interessante, consulte salários e veja as opiniões sobre a agência no Love Mondays. Nada é melhor, porém, do que conversar com alguém que trabalha ou já trabalhou por lá. Busque um contato de primeiro ou segundo nível no LinkedIn, envie uma mensagem, se apresente e pergunte sobre a cultura praticada pela agência e principalmente como ela lida com os pontos que discutimos antes, como a proximidade da relação com os clientes.

Uma agência digital tem tudo para ser um ótimo ambiente de trabalho. Basta fazer uma boa pesquisa e assegurar que seus valores combinam com a cultura da empresa — uma regra de ouro para qualquer opção de carreira.

* Luis Fernando Bittencourt é CTO na Gongo e curador da Além do Código. Esse artigo foi publicado originalmente aqui.