Enquanto a maioria dos executivos e pesquisadores avaliam que o Brasil anda mal em inovação, alguns profissionais percebem que, vista com outros olhos esta avaliação poderia ser bem diferente.
 
Um estudo realizado pela francesa Insead colocou o Brasil na 68ª posição no ranking mundial de inovação em 2010. Dentre os critérios utilizados no levantamento figuram o número de patentes por milhão de habitantes e o de pessoas com acesso à internet banda larga. Recentemente veiculada, outra notícia reforça a má avaliação do Brasil: há baixa adesão à chamada Lei do Bem, que oferece incentivos fiscais às empresas com projetos de inovação.

O que não foi dito é que o número de beneficiadas por essa legislação vem crescendo exponencialmente desde 2005. Querem nos fazer crer que somos fracos em inovação e que voltar para a nossa suposta vocação de produtores de commodities e de celeiro do mundo é o melhor a ser feito. Não é. Para nós da área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), que vivenciamos na pele o desmonte da engenharia brasileira nas décadas de 80 e 90, ficou claro o quanto o país pode perder em competitividade e desenvolvimento com esse tipo de escolha.

Tivemos duas décadas de atraso: as indústrias estrangeiras repatriaram suas inovações e aos nossos engenheiros sobrou fazer de tudo, menos engenharia e inovação.

Felizmente, vivemos uma nova era. Faz cada vez menos sentido chamar de “reversa” a inovação de um país em desenvolvimento como o Brasil.
 
Muitas multinacionais estão levando seus centros de P&D ou projetos de inovação para países como o Brasil por acreditarem no potencial inovador dessas nações. Assim realizam o chamado “offshoring” das engenharias com grande sucesso. Um exemplo é a Ford, que montou um centro de P&D em Camaçari, na Bahia. A unidade é comandada por ninguém menos do que Hau Thai-Tang, a estrela que reinventou o Mustang.

Outros ícones da inovação, como Delphi, L´Oréal, Fiat e Filtros Fram anunciam investimentos para robustecer seus centros de inovação no Brasil, confirmando a tese de que a engenharia brasileira é flexível, produtiva, rápida, criativa e, principalmente, barata. Considere-se ainda os incentivos da “Lei do Bem” que, funcionando como redutores dos custos de inovação, podem chegar a proporcionar até 34% de recuperação dos dispêndios.

O Brasil será, sim, um celeiro no futuro, mas de inovações. Novos indicadores mostrarão isso, enquanto os critérios utilizados hoje (como celulares em uso, percentagem do PIB investida em pesquisa e número de patentes, item no qual o Brasil tem sido fortemente prejudicado pelo lento e burocrático INPI) serão gradualmente aposentados. Talvez comecem a acreditar que é mais justo medir o “número de Leões em Cannes” — ou a capacidade e a velocidade de superar crises e lidar com imprevisibilidades — do que se apegar a critérios que não acompanharam a enorme evolução que aconteceu no campo da gestão da inovação nos últimos anos.

Desde antes de Santos Dumont o Brasil mostra ser capaz de surpreender o mundo e inovar, combinando arte, paixão e tecnologia. Falta apenas que nós mesmos nos convençamos disto. Chegou a hora de valorizarmos as Odebrechts, CPFLs, Naturas, Embraers e Ambevs e incentivar as empresas estrangeiras que tem apostado na engenharia brasileira. Assim, transformaremos o Brasil em referência em inovação antes mesmo que qualquer indicador obsoleto mostre isso.

* Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas e autor do livro “Usina de Inovações” –  Guia Prático para Transformação da sua Empresa.