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Turbinando os sistemas legados

jose@accenture.com // quarta, 29/07/2009 00:00

ém já passou pela experiência de tentar dar partida em um carro a álcool, daqueles “versão 0.1”, com carburador, afogador e bombinha auxiliar de gasolina, logo pela manhã em um dia de frio?

Ele pode ser o mais conservado dos automóveis - raridade -, mesmo assim exigirá mais esforço, gastará um pouco mais de tempo, paciência e de combustível que um zero quilômetro, flex, com injeção eletrônica, sistema de partida a frio e computador de bordo. Não dá para negar que o carro antigo tem o seu charme. Estamos acostumados e, apesar dele gastar muito e ter “alguns probleminhas”, até gostamos dele. Mas será que dá para confiar em fazer uma viagem São Paulo-Fortaleza com ele?

Manter sistemas legados traz uma dinâmica similar. São sistemas estáveis, já estão customizados, mas não oferecem a melhor performance nem possuem compatibilidade com outras aplicações dentro da empresa. Exigem uma grande capacidade de processamento, geram altíssimos custos de manutenção, além de não garantirem a confiabilidade e disponibilidade das informações.

E ainda há a preocupação com a interoperabilidade, ou seja, a integração dos sistemas legados com novas soluções. Um levantamento de dados do mercado indica que o Brasil tem hoje mais de um bilhão de linhas de código de sistemas legados desatualizados, distribuídas em um universo de milhares de empresas privadas e órgãos públicos, nas mais diferentes plataformas.

Então fica a dúvida: por que manter sistemas legados se existem inúmeras aplicações novas disponíveis no mercado, ou ainda é possível desenvolver soluções customizadas para cada necessidade? A resposta engloba dois pontos principais: custo e tempo. Além da imensa gama de linguagens, “dialetos” e plataformas com pouca ou nenhuma documentação, há que se levar em conta que os dados processados pelo sistema podem estar armazenados em diferentes arquivos, com estruturas complexas e incompatíveis.

É possível ainda que informações tenham sido duplicadas, estejam desatualizadas, inexatas ou incompletas.

Nesse contexto, a modernização dos sistemas legados é uma operação altamente arriscada e, muitas vezes, não garante o acesso ininterrupto aos dados, o que traz vários transtornos à organização. E ainda há a complexa tarefa de avaliar o que deve ser atualizado e o que deve ser substituído.

Evoluir sistemas através de processos tradicionais, seja pela aquisição de um “pacote” ou pelo desenvolvimento de um novo sistema, demanda altos investimentos e normalmente é um processo longo. Opções pouco atraentes no atual cenário econômico, embora muitas vezes inevitáveis.

No entanto, novas tecnologias baseadas na (re)engenharia de software tornam possível efetuar grande parte do processo de modernização de sistemas de forma automatizada. Isso permite preservar os investimentos já realizados na estabilização e adequação dos sistemas, manter processos de negócios complexos e altamente customizados e reduzir o custo total de propriedade (TCO).

Os investimentos chegam a ser 40% a 60% menores do que quando realizada a substituição total dos sistemas.  Além disso, é possível manter a disponibilidade dos dados e garantir a integridade das regras de negócio, das funcionalidades e interfaces gráficas.  As empresas ganham eficiência pelas melhorias nos processos e pela redução dos custos operacionais num prazo mais curto do que o permitido por metodologias tradicionais.

Uma das maneiras de eleger o que há de melhor nos sistemas legados e integrá-los às novas ferramentas é a utilização do conceito SOA (Arquitetura Orientada a Serviços) que traduz a tecnologia de forma que o pessoal de negócios possa entender e, com isso, utilizá-la de forma mais produtiva. A consultoria Aberdeen afirma em sua pesquisa “The Legacy Application Modernization Benchmark Report” que a utilização de SOA melhora em 66% o tempo de resposta da TI às mudanças de negócio, reduz em 44% os custos com manutenção de aplicativos e ainda corta 53% dos gastos com integração.

O problema está na obtenção das informações que permitam implementar essa arquitetura a partir de uma base de legados que normalmente não corresponde às suas especificações originais e cuja documentação é inexiste ou está muito desatualizada. Processos automatizados de documentação de sistemas, no entanto, podem “abrir a caixa preta” dos sistemas legados e tornar disponíveis as informações que permitam sua integração facilitando a implementação de SOA.

O Gartner divulgou recentemente um ranking que apresenta modernização, atualização e substituição de sistemas legados como a quarta tecnologia prioritária para CIOs de todo o mundo. O conceito SOA está no oitavo lugar. De acordo com outra pesquisa da Aberdeen, mais de 80% deles pretendem concluir seus planos de modernização do legado em até três anos.  Uma outra pesquisa independente indica que 75% dos CIOs entrevistados consideram a Evolução ou Modernização de sistemas por meio de processos automatizados como a principal estratégia na  atualização dos sistemas legados.

Afinal, garantir a operabilidade, eficiência e segurança dos sistemas e redução dos custos dos negócios são os principais objetivos destes executivos. E eles estão muito inclinados a substituir o antigo afogador por um moderno sistema de partida a frio, já que além de garantir a partida, é possível reduzir o consumo de combustível e a emissão de poluentes. O grande segredo está na escolha de um mecânico especializado e de confiança.

José Luiz Miranda é Presidente da Transformare