Desde a eclosão da crise econômica mundial, a cotação do dólar frente a outras moedas tem oscilado consideravelmente. Mesmo que de forma contraditória – dado a crise ter iniciado nos Estados Unidos, mais precisamente no mercado imobiliário denominado subprime –, a moeda norte-americana, em um primeiro momento, valorizou-se frente a outros padrões monetários nacionais.

Como exemplo, pode-se citar o caso brasileiro, onde em março de 2009 a taxa cambial chegou a R$ 2,40 por US$ 1. Diante deste cenário adverso, uma combinação de políticas públicas anticíclicas colocadas em práticas ao redor do globo fez com que nações como os Estados Unidos e Japão baixassem suas taxas de juros para próximas de zero, gerando, como consequência, um razoável volume de recursos disponíveis no cenário internacional.

Todavia, ao contrário dos países centrais, alguns emergentes mantêm suas taxas de juros relativamente altas. Isto combinado a um elevado nível de reservas cambiais e bons indicadores macroeconômicos – como o controle inflacionário – tem atraído recursos externos, fazendo com que as moedas locais se valorizem cada vez mais em relação ao dólar, onde a economia interna opera em um contexto de câmbio flutuante.  

Ao contrário da China, que pratica a desvalorização artificial de sua moeda – o iuane – o Brasil, dentro dos preceitos neoliberais, mantém uma política cambial de livre mercado, juros altos (a nação verde e amarela pratica atualmente a maior taxa de juros real do mundo, na ordem de 4,8% ao ano), inflação e risco-país sob controle, atraindo, dessa forma, divisas estrangeiras, cujo ingresso no país valoriza cada vez mais sua moeda, o real.

Porém, paradoxalmente, dado o atual contexto, isto pode vir a se tornar um problema. Em um primeiro momento pode haver um aumento das importações e consequente diminuição da produção local, sobretudo do setor de eletroeletrônicos e de bens de consumo duráveis.

Em médio e longo prazo, isto pode custar a perda de valiosos postos de trabalho, o ressurgimento da inflação (dado a diminuição do mercado consumidor) e a incidência da doença holandesa. Na avaliação do presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Robson Braga de Andrade, "O país vai perdendo capacidade de inovar, de desenvolver tecnologias que são fundamentais para que outras atividades econômicas possam crescer de forma mais sustentável".

No atual momento, em que o valor do dólar gira em torno de R$ 1,70, o Brasil deveria aproveitar para acelerar e ampliar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), não somente pelo recrudescimento dos recursos previstos no Orçamento Geral da União (OGU) de 2011, mas também através da importação de bens de capital, insumos básicos e tecnologia. Isto possibilitaria a abertura de vagas nas escolas, universidades e hospitais, bem como a melhoria do escoamento da produção, seja pelas malhas rodoviária, aérea ou fluvial.

O incremento da oferta iria atender ao crescimento da demanda, eliminando o descompasso entre estas duas grandezas e, por consequência, o viés inflacionário, sem a necessidade de recorrer a instrumentos de política monetária, como a elevação da taxa de juros ou do percentual dos depósitos compulsórios, que trazem efeitos colaterais maléficos, como a diminuição do produto e o aumento da dívida pública.

Etretanto, não é isso o que deverá acontecer. Em relação ao já citado OGU 2011, o Congresso Nacional, após a aprovação do aumento salarial de deputados e senadores em mais de 60%, ampliou o orçamento em R$ 22,4 bilhões (contrário à sugestão do executivo, que propunha um corte de R$ 8 bilhões). Todavia, de forma contraditória, este mesmo congresso indicou cortes substanciais nas verbas de diversas áreas, entre elas da pesquisa científica e da educação, na ordem de R$ 600 milhões e R$ 500 milhões, respectivamente.

Caso esta proposição não venha a ser vetada pela Presidente da República, o governo irá ampliar as despesas de custeio e reduzir os investimentos, quando deveria estar fazendo exatamente o contrário, dado a já citada taxa cambial atual e a premente necessidade de aumento da infraestrutura e do capital humano, bem como das reformas política e tributária. Aguarda-se o desenrolar dos fatos.

* Stefano Silveira é economista