O bom desempenho da economia brasileira aliado ao mercado interno em expansão cria um movimento intenso de busca por bons ativos e consequentemente uma maior consolidação no mercado nacional. É um momento único que demonstra confiança aos investidores. Um dos reflexos diretos é o aquecimento de fusões e aquisições (M&A). Dados da PriceWaterHouseCoopers indicam que as fusões cresceram 31% de janeiro a agosto deste ano, se comparado ao ano passado.

Os fundos de private equity, voltados para a compra de participação em empresas, são atores importantíssimos neste cenário, uma vez que promovem o crescimento destas empresas e também favorecem o processo de consolidação.
Muitos dos investidores aproveitam esta ocasião para obter ganhos expressivos. Essa agitação se dá, principalmente, no segmento de empresas de médio porte. No mercado de grandes empresas, esse movimento, não apresenta tantas oportunidades por ser um mercado mais maduro, e em fase de consolidação há algum tempo. Segundo dados da Price, somente neste ano, a participação desse tipo de investidor correspondeu a 42% do total das operações realizadas.

Essa onda de aquisições e fusões cria uma série de mudanças no mercado e o que se percebe são pelo menos temos duas implicações importantes. A primeira está ligada ao valor das transações. A alta procura faz com que o valor dos ativos no Brasil suba sensivelmente, acompanhando a tendência de alta do mercado de ações e imobiliário. Para se ter uma ideia, até pouco tempo atrás, as empresas mais atraentes eram avaliadas e negociadas por um valor equivalente a cinco vezes o EBTDA (sigla em inglês que significa a geração de caixa anual de uma empresa). Hoje, os valores já ultrapassam sete vezes o EBTIDA.

A segunda implicação são os gargalos nos processos de fusão e aquisição. Muitos negócios estão estagnados ou não avançam pela própria falta de qualidade das empresas, principalmente de médio porte. Mais especificamente, a grande maioria das empresas nacionais de médio porte apresenta um grau elevado de informalidade, problemas contábeis, fiscais, e até mesmo ausência de um sistema de gestão corporativa.
Esse último fator, além de reduzir bruscamente o valor do ativo, acumula incertezas e dúvidas ao investidor que acaba desistindo do negócio por falta de dados concretos da situação da companhia. O resultado disso é um painel de recuo na compra. Os investidores, institucionais ou estratégicos, ficam impossibilitados de adquirir um ativo por apresentarem características e processos duvidosos, mesmo sendo um ativo bastante atrativo e com bom potencial de crescimento.

Principalmente, os fundos de private equity sofrem mais com este cenário. Na verdade, muitos gestores estão tendo que repensar suas estratégias. Está cada vez mais difícil adquirir um bom ativo a um valor adequado para, posteriormente, revendê-lo e conseguir uma transação rentável - ainda mais se o acompanhamento do empreendimento for feito somente a distância, sem envolvimento direto e pró ativo no dia a dia das empresas.

Daí a necessidade de mudar, de atuar não somente no  papel de investidor. Eles devem  passar a trazer, além do capital, uma gestão para garantir que a gerência desse montante seja correta. Além disso, os novos gestores precisam montar planos e estratégias mais elaboradas, assumir mais riscos para garantir um aumento expressivo de performance e, consequentemente, ganho expressivo de capital investido. Um primeiro movimento já aconteceu recentemente, que foi a associação do fundo BTG com a Galelazzi, claramente uma estratégia para aproximar gestão e capital, e assim alavancar os resultados.

Enfim, neste cenário, fundos com apetite para risco começam a se formar, como é o caso da Arion e da Trindade Investimentos, ambos focados nos chamados ativos "estressados". Surgem também os chamados "enablers", empresas especializadas em preparar e adaptar companhias para que elas consigam ser adquiridas sem maiores riscos ou complicações por eventuais investidores.

Por fim, o Brasil se insere de vez no painel mundial, o que naturalmente aquece bastante o mercado de fusões e aquisições. É um ciclo positivo, único na história do País, o que cria oportunidades para milhões de brasileiros. A maré é boa, mas alguns setores terão que se adaptar para sobreviver.

*Miguel Abdo é diretor da Naxentia, graduado em engenharia mecânica, possui especialização em General Management (Kellogg University), MBA pela Ibmec e extensão em Marketing na ESPM.