Josep Piqué é um homem do momento em Porto Alegre.

UFRGS, PUC-RS e Unisinos, as três maiores instituições de ensino superior do Rio Grande do Sul, lançam a Aliança para Inovação de Porto Alegre, uma iniciativa focada em desenvolver o ecossistema inovador na cidade.

A principal consequência prática da parceria é a contratação como consultor do projeto de Josep Piqué, presidente da Associação Internacional de Parques Científicos e Tecnológicos (Iasp) e um dos idealizadores do Barcelona @22, um projeto de revitalização de uma área industrial dentro da cidade espanhola.

O Barcelona @22 é um dos benchmarks em regeneração de antigas áreas industriais decadentes do tipo que Porto Alegre vem tentando fazer na região do Quarto Distrito da capital.

Desde 2000, quando iniciou, o projeto já conseguiu atrair 4,5 mil empresas, das quais a metade são startups. A lista de grandes empresas inclui Microsoft, Sanofi-Aventis, Groupalia, Capgemini, Schneider Electric e Indra.

Recentemente, a Cisco abriu no local um centro de inovação focado em Internet das Coisas, com investimentos de US$ 30 milhões.

O Quarto Distrito é uma área de 800 hectares distribuídos em um retângulo entre a rodoviária e a avenida Sertório, limitada nas suas extremidades pela avenida Farrapos e a linha do Trensurb.

A área está em decadência desde os anos 70, quando a base econômica de Porto Alegre começou a se voltar para serviços e a indústria abandonou a cidade em busca de espaços mais baratos na região metropolitana e além.

Hoje a região abriga muitos grandes galpões industriais abandonados, além de áreas problemáticas de baixo meretrício e tráfico de drogas

Em 2015, autoridades de Porto Alegre incluindo o então prefeito José Fortunati conheceram 22@Barcelona, em uma missão organizada pela PUC-RS. A visita acelerou os planos do Quarto Distrito, com aprovação de um regime fiscal especial para quem transferisse sua operação para lá.

Desde 2016, no entanto, o tema começou a sair da pauta, desaparecendo totalmente com o agravamento de uma crise fiscal na capital gaúcha que introduziu parcelamento de salários do funcionalismo municipal e cortes em serviços básicos como a capina das ruas.

Ao que tudo indica, as universidades gaúchas decidiram preencher elas mesmas o vácuo com a formação de aliança e a contratação de Piqué, que esteve recentemente envolvido criação do modelo dos centros de inovação catarinenses, uma rede de treze parques tecnológicos a serem espalhados pelo estado vizinho com financiamento do governo estadual.

O primeiro a ser inaugurado foi o de Lages, em junho de 2016 e, estão em construção além de Jaraguá do Sul, Chapecó, São Bento do Sul, Joaçaba, Tubarão, Brusque, Blumenau e Itajaí. Estão previstos projetos também para Joinville, Criciúma e Rio do Sul.

“Estamos há décadas tentando essa parceria, a primeira com essas características em Porto Alegre. Temos muita esperança de construir algo que permita ter autoimagem mais positiva”, disse à Zero Hora, Jorge Audy, um dos idealizadores do movimento e superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUC-RS.

De acordo com Audy, um grupo de empresários vai contribuir para financiar o avanço de cada etapa do projeto, até que a iniciativa se torne autossustentável.

O acordo entre as universidades não acontece no vácuo. UFRGS e PUC-RS começaram a colaborar em um projeto de parque tecnológico para o Quarto Distrito ainda 2015, avançando a relação com um evento conjunto sobre empreendedorismo no ano seguinte.

A Unisinos é sediada em São Leopoldo, mas acaba de inaugurar um campus em Porto Alegre, e também já mantinha um acordo com a PUC-RS no sentido de promover a internacionalização de startups instaladas nos seus parques tecnológicos de maneira conjunta.

Todas as três universidades (e a população de Porto Alegre) poderiam se beneficiar de um projeto bem sucedido no Quarto Distrito.  

A fase I do Tecnopuc, parque tecnológico da PUC-RS, fica localizado ao lado do campus da universidade gaúcha e não tem condições de receber ampliações significativas. Uma nova fase começou em Viamão, mas tem avançado mais lentamente. 

A UFRGS, por outro lado, apesar de ser a segunda instituição brasileira em pesquisa acadêmica e berço de boa parte das maiores companhias gaúchas de tecnologia, enfrenta dificuldades para fazer decolar o projeto do Parque da UFRGS, a ser construído no Campus do Vale, outra área afastada do centro da cidade.

A Unisinos tem um parque consolidado em São Leopoldo, cidade na região metropolitana onde está a sua sede, mas está comprometida com expandir sua presença em Porto Alegre, onde investiu R$ 210 milhões para criar um novo campus.

As três instituições (na verdade, mais a PUC-RS e a Unisinos, que são privadas) competem entre si para atrair estudantes e investimentos em empresas de tecnologia para os seus parques, mas parecem ter notado que só a união de forças pode destravar a situação em Porto Alegre (um fato notável em um estado cujo comportamento da população é muitas vezes comparado ao de caranguejos em um balde).

Agora é ver se o esforço conjunto e o conhecimento do assunto de Piqué serão suficientes, em um momento muito complicado da capital gaúcha. 

A última administração pública municipal tinha nas suas filas o secretário de Fazenda Jorge Tonetto, que estava bastante comprometido com a articulação pelo Quarto Distrito, e uma situação financeira mais folgada.

A situação financeira da capital, no entanto, estava se deteriorando desde 2011. O atual prefeito Nelson Marchezan (PSDB) tem descrito uma situação pré-falimentar e apontando para soluções como cortes de gastos, mudanças no IPTU e  PPPs, que não avançam na Câmara de Vereadores.

Mais do que isso, as universidades podem enfrentar um problema de interlocução. A prefeitura tem alguns bons nomes nos seus quadros, como o de Roberto Moschetta, ex-diretor do Tecnopuc, parque tecnológico da PUC-RS, hoje na diretoria de Inovação da secretaria de Desenvolvimento de Porto Alegre.

A diretoria equivale à antiga Inovapoa, órgão com status de secretaria criado em 2009 com a meta de atrair investimentos e promover inovação na capital gaúcha.

O problema é que o estilo centralizador de Marchezan tem travado o avanço de iniciativas, além de causar uma onda de demissões. 

Até novembro do ano passado, foram 16 desembarque do governo em cargos estratégicos de primeiro e segundo escalões, geralmente justificados como por “motivos pessoais”, o que a essa altura já se tornou um eufemismo para “problemas de relacionamento com o prefeito”.