Claudio Gandelman, CEO da Auti Books. Foto: Divulgação.

Imagine a cena: pijamas, cachorro do lado, levar o filho no colégio, almoço caseiro, sem trânsito e ainda com tempo daquela malhação a qualquer hora do dia. E o melhor de tudo, com o trabalho fluindo a milhão, muito mais produtivo do que em qualquer escritório. E para fechar a discussão, a empresa ainda economiza escritório, telefone, luz, internet e todo o conjunto da obra. Quase o paraíso para todos.

Quando vejo as pesquisas nos EUA e Europa falando que o home office é o que há de mais fantástico no mundo, com produtividade melhor e muito mais qualidade de vida, me dá vontade de comprar espaços em prédios de escritório, só para vender em seguida e dizer que estou na tendência do mundo.

E o brasileiro, que tem um dom especial para ser seguidor começa a implementar isso com toda a força, e com a certeza absoluta de que isso é quase uma mega sena.

Mas deixa-me dar uma visão diferente só para refletirmos, até porque acho que não tem certo ou errado nessa questão, tudo ainda é muito novo.

Já trabalhei em empresas americanas e europeias, bem como em empresas brasileiras. Tem duas coisas que chamam a atenção de cara:

1- Especialmente os americanos, tendem a medir tudo melhor que a gente, ou seja, fica muito mais fácil de controlar as entregas, os prazos, os acessos e tudo mais que dá para se medir.

2-  A produtividade é muito maior nesses países. Nos EUA as pessoas comem nas suas mesas de trabalho, não param para bater papo no cafezinho, não descem a cada hora para o cigarrinho. Aqui no Brasil a gente tem uma queda para ser mais sociável, o que é maravilhoso e saudável, mas o fato é que o dia rende menos.

 

O povo brasileiro, diferente dos americanos, tende a “demonizar” o patrão, o capital e especialmente o ganho. Então se der para dar uma de espertinho, coisa que culturalmente é “aceitável”, muitos de nós brasileiros faremos, essa é a regra e não a exceção. Acredito que essa cultura está mudando, mas muito devagar.

Outra coisa que entendo valer para todos é a troca de informações. Quando se trabalha de casa, tem-se uma dificuldade muito maior de termos uma ideia que seja compartilhada e principalmente construída em conjunto. As ideias têm uma tendência muito maior de morrer com uma pessoa do que ser dividida com uma equipe e florescer.

Um outro ponto que acho extremamente importante de se colocar é a parte cultural. Como se constrói uma cultura por email, Whatsapp, Slack e afins? Será que isso é possível?

Uma amiga minha é diretora de uma multinacional que introduziu o Home Office. Na empresa dela pode ser alguns dias por mês, escolhido pelos funcionários. É uma empresa britânica e o conceito já foi inserido na matriz com algum sucesso.

O problema é que no Brasil o dia escolhido por praticamente todos os funcionários é, por uma incrível coincidência dessas que a vida insiste em criar, as sextas-feiras. Na rádio corredor muitos já chamam jocosamente de home “day” office. É complicado quando o conceito vira piada.

Minha opinião formada ainda não existe. Tendo a achar que é ótimo para algumas pessoas e outras não conseguirão fazer isso de forma alguma. Pouquíssimos tem maturidade para admitir.

A propósito, eu sou péssimo de home office, produzo muito mais no escritório do que em casa, num café ou qualquer coisa que o valha. E adoro colocar as ideias para debater com a turma e pedir pitaco, preciso das pessoas para isso.

*Por Claudio Gandelman, CEO da Auti Books.