Andiara Petterle. Foto: Félix Zucco.

A Zero Hora, jornal de maior circulação no Rio Grande do Sul, estreia em dezembro uma tática radical e ainda inédita no Brasil para estimular a migração dos leitores para formatos digitais.

A publicação do grupo de comunicação RBS vai “dar” um tablet com conexão wifi da Sansung Galaxy E de 9,6 polegadas para cada assinante de um novo pacote exclusivamente digital do jornal.

A vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS, Andiara Petterle, anunciou a novidade no Tá na Mesa da Federasul nesta quarta-feira, 04.

Não está claro se a RBS vai dar algum subsídio para os leitores na aquisição. A assinatura convencional do jornal sai por R$ 85 mensais. A nova modalidade, com o tablet, sai por R$ 110. A assinatura digital para quem já tem o aparelho sai por R$ 25.

Andiara destacou que o preço será cobrado por um período ainda não determinado e depois reduzido e que a RBS daria suporte aos usuários.

O Samsung Galaxy E na versão entregue pela RBS pode ser encontrado no varejo online por preços entre R$ 611 e R$ 692. 

Supondo que o grupo de comunicação compre seus tablets pelo valor mais baixo, o usuário pagaria o preço do equipamento em 24 meses e meio, tendo em conta a diferença entre a assinatura tradicional e o novo modelo.

“No tablet, o assinante vai ter a mesma experiência do jornal impresso, com mais vídeos e conteúdo multimídia”, explica a vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS. Além disso, os assinantes no modelo terão uma edição vespertina do jornal, atualizada todos os dias às 19h.

Andiara assumiu o cargo com a missão de sacudir as coisas em março de esse ano (a formulação da novidade lançada hoje ainda em modo piloto começou apenas um mês depois).

A executiva era CEO da Predicta, empresa de publicidade online adquirida pela RBS. A profissional está na Internet brasileira desde os primórdios: foi uma das fundadoras do Bolsa de Mulher, um dos pioneiros da mídia online brasileira, e trabalhou no buscador Cadê.

O tablet da Zero Hora será desbloqueado e a princípio trará apenas o app do jornal, mas nada impede que no futuro a RBS use essa base instalada para instalar aplicativos de outros negócios digitais do grupo, como o clube de assinaturas de bebidas Wine.com.br e o e-commerce de moda Lets.

Os anúncios da edição do tablet serão os mesmos do jornal, com a diferença em que poderão ter recursos interativos e oferecerão relatórios para os anunciantes, adiantou Andiara.

Andiara não abriu números da atual base de assinantes digitais da RBS, mas tudo indica que a nova modalidade é parte de uma campanha agressiva para aumentar esse número.

Em agosto de 2013, a Zero Hora divulgou ter batido um recorde de circulação em um dia, com 190 mil exemplares impressos. O número de assinantes exclusivamente digitais não é revelado, mas, segundo a reportagem do Baguete pode averiguar, gira em torno de 60 mil.

A Zero Hora foi um dos primeiros jornais brasileiros a ter uma versão para o Kindle, em 2009, e para o iPad, em 2011. 

Será preciso ver se as condições oferecidas pela RBS serão atrativas o bastante para promover uma migração.

Depois de um entusiasmo inicial com os primeiros lançamentos dois anos atrás, o mercado de tablets no Brasil vai de mal em pior.

De acordo com dados do IDC, as vendas caíram 35% no segundo trimestre frente ao mesmo período do ano anterior, totalizando 1.271 milhão em todo país.

O ritmo de queda acelerou. No primeiro semestre, as vendas caíram 20%, quase o dobro dos 13% esperados pelo IDC. 

Parte da queda tem a ver com a alta do dólar: mais da metade das marcas que faziam negócios no mercado brasileiro deixaram o país quando seus produtos importados se tornaram inviáveis para o consumidor (68% dos produtos vendidos no país custam até R$ 500).

A parte mais preocupante do problema para as pretensões da Zero Hora é que os consumidores parecem estar abandonando os tablets por outros motivos.

Durante alguns anos, o tablet foi considerado a segunda tela, porém, a partir do momento que os smartphones de tela grande se popularizaram - e consequentemente ficaram mais baratos - houve uma canibalização no mercado. 

Existem exemplos de migrações bem sucedidas para o formato tablet. A principal delas é o La Presse, jornal de Montreal que recentemente cancelou suas edições impressas durante a semana.

Hoje, a versão para tablets lançada em 2013 já responde por 70% da receita da companhia.