Meme do Negão do WhatsApp gerou crise na Salesforce.

O motivo para a saída de Maurício Prado da presidência da Salesforce no Brasil, em dezembro, teria sido motivada por uma foto da festa a fantasia realizada pela empresa como confraternização de final de ano.

A comemoração incluiu um concurso de fantasias, para o qual um dos funcionários da área de vendas decidiu comparecer disfarçado do popular meme do "Negão do WhatsApp". 

Uma foto do colaborador cercado por colegas e pelo diretor comercial da Salesforce chegou à matriz da companhia, nos Estados Unidos, que considerou a situação inadequada.

No dia 19 do último mês, o Baguete publicou uma notícia sobre a saída do presidente, um executivo contratado em 2014, vindo da Expedia e com passagem pela Microsoft. 

Apesar da reportagem ter uma confirmação extra-oficial do motivo, optou por não divulgar o mesmo por não ter conseguido acesso à foto. 

Nesta sexta-feira, 5, no entanto, a Folha de São Paulo publicou a imagem, replicada nesta matéria.

De acordo com a Folha, os colaboradores fantasiados participavam de um concurso com prêmio de R$ 3 mil para o primeiro colocado, com votação feita pelas cerca de 250 pessoas presentes na festa.

A fantasia de "Negão do WhatsApp" rendeu o quarto lugar no concurso. 

O jornal de São Paulo relata que há versões divergentes sobre as consequências da crise com a foto. 

Uma delas, que circula na internet, diz que a direção da companhia teria pedido a demissão do funcionário, mas o diretor comercial tentou mantê-lo no cargo, argumentando que no Brasil a fantasia não teria as mesmas conotações negativas do que na matriz americana.

A sede, então, teria decidido demitir também o diretor comercial, o que teria feito o presidente da multinacional no Brasil interferir, alegando que a punição era exagerada.

O resultado foi a demissão do funcionário, do diretor e do presidente por decisão da matriz.

Fontes próximas ouvidas pelo Baguete, no entanto, disseram que não houve essa intervenção, e que as demissões aconteceram pouco mais de uma semana depois de uma denúncia anônima feita pelos canais internos da SalesForce.

Ainda de acordo com essas fontes, a fantasia do "Negão do WhatsApp" foi alugada pelo funcionário em uma loja recomendada informalmente pelo RH da SalesForce no Brasil, de onde teria partido a ideia do concurso. 

Outros dois funcionários, fantasiados como personagens principais do filme "As Branquelas" — em que policiais negros se travestem de patricinhas brancas —, foram suspensos pela empresa até segunda análise.

Vale lembrar que nos Estados Unidos uma pessoa branca se fantasiar de negra é cada dia mais um tabu e uma conduta equivalente a racismo.

Caso o leitor tenha vivido em Marte em 2017, sem acesso aos acontecimentos da Terra, a reportagem do Baguete precisa informar ainda sob peso de constrangimento que o meme do "Negão do WhatsApp" consiste em uma foto frontal de um homem negro não identificado, mostrando um órgão genital de grandes dimensões.

A imagem viralizou por meio de pegadinhas em grupos no WhatsApp, na qual a foto aparece em milhares de contextos diferentes, tendo sido inclusive uma das fantasias mais usadas durante o Carnaval de 2017.

A SalesForce do Brasil não comenta os motivos das demissões no final do ano passado. A reportagem do Baguete procurou Maurício Prado diretamente, mas não obteve retorno até o fechamento dessa reportagem.

Nos últimos anos, multinacionais de TI tem importado para o Brasil o seu posicionamento corporativo pró-diversidade, com a criação de grupos de funcionários gays e ações de inclusão de mulheres e minorias na força de trabalho.

No entanto, o espisódio da Salesforce ilustra as dificuldades culturais de levar essa pauta adiante no Brasil onde, de acordo com a visão de cada um, as relações cotidianas estão livres da pauta do políticamente correto, ou são dominadas por condutas discriminatórias não confrontadas.

* Atualizado às 15h25 com novas informações sobre o processo de demissão.