LADO B

iFood: infiltração na greve dos entregadores?

05/04/2022 08:34

Reportagem mostra em detalhes práticas de comunicação questionáveis do app.

Agências criaram entregadores do iFood de mentirinha. Foto: Divulgação.

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O iFood, um dos maiores aplicativos de entrega dos país, teria contratado agências de publicidade para tentar influenciar a mobilização dos motoristas do app de uma maneira positiva para a empresa.

A revelação é da Agência Pública, que falou com profissionais envolvidos na atividade e teve acesso a 30 documentos relativos a esse tipo de ação, incluindo relatórios de entrega, cronograma de postagens, vídeos de reuniões, atas de reuniões e trocas de mensagens.

A atividade das agências começou em julho, logo após os entregadores organizarem uma paralisação nacional, um movimento pedindo aumento no valor pago por entrega, medidas de proteção contra a covid-19 e melhores condições de trabalho.

Oito dias depois da greve, surgiu no Facebook a página Não Breca Meu Trampo, no qual publicitários se passavam por entregadores contrários à greve.

Nas primeiras semanas, a página se concentrou em hostilizar a mobilização dos entregadores, acusando o movimento de “fazer politicagem”. 

Nos meses seguintes, além de atacar as manifestações, fez oposição a projetos de lei que visavam regulamentar o trabalho dos entregadores e previam benefícios para a categoria.

Outra iniciativa foi a página Garfo na Caveira, com memes orientados para os entregadores. 

Essa nova página tinha uma agenda menos óbvia, incluindo piadas sobre os aplicativos de entrega (menos o iFood).

A empresa contratada se infiltrou em 15 grupos do WhatsApp de entregadores, analisando 19 mil mensagens, segundo revela a Agência Pública.

A ação escalou de nível de abril de 2021, quando teriam sido contratados figurantes para participar de manifestações de entregadores, visando aumentar a visibilidade nos protestos de uma demanda por vacinação prioritária para os profissionais.

O sentido da ação era diminuir a atenção para temas como remuneração e condições de trabalho, as pautas principais dos protestos até então. O tema virou pauta em jornais como a Folha de São Paulo, o que indica o sucesso do método.

Procurado pela Agência Pública, o iFood disse que não comentaria sobre os documentos, por não ter tido acesso aos mesmos (não enviar o material é provavelmente uma medida da Agência Pública para proteger as suas fontes).

“A atuação do iFood nas redes sociais se dá estritamente dentro da legalidade, não compactuando com o uso de perfis falsos, geração de informações falsas, automação de publicações por uso de robôs ou compra de seguidores”, afirma o iFood na nota. 

O tipo de ações que a Agência Pública descreve em riqueza de detalhes são o que se conhece no meio de comunicação como “marketing 4.0” ou “Lado B”. 

Esse tipo de ação visa gerar conteúdo pretendendo promover pontos de vista de interesse do cliente, mas sem mostrar quem é o verdadeiro autor.

A prática é comum em campanhas políticas, geralmente visando fazer críticas a concorrentes que um candidato não quer fazer diretamente.

Algumas das agências de comunicação mencionadas pela Agência Públicas inclusive tem background nessa área, tendo feito campanhas para políticos conhecidos como Gilberto Kassab, José Serra, Eduardo Campos, Marina Silva, João Dória e Geraldo Alckmin.

Grandes empresas também fazem ações do tipo. Um exemplo recente é o Facebook, que, de acordo com revelações da imprensa americana, contratou uma agência em Washington para espalhar informações negativas sobre o TikTok.

De qualquer maneira, as revelações da Agência Pública são um desastre de relações públicas para o iFood. Primeiro, porque ninguém gosta de ser pego com a boca na botija em ações desse tipo.

Segundo, porque as revelações jogam ainda mais luz nas relações de trabalho oferecidas por gigantes de entrega como o iFood para uma massa de entregadores, para os quais a ocupação é um último refúgio antes da pobreza.

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