Richard Stallman. Foto: Guilherme Dias/indicefoto.

Saia da internet agora: você está sendo vigiado. A dica é de Richard Stallman, o excêntrico norte-americano que lançou nos anos 80 o sistema operacional aberto GNU e fundou a Free Software Foundation.

Stallman, 60 anos, recebeu a imprensa na tarde desta sexta-feira, 05, antes de sua palestra de três horas no Fisl, para falar sobre o avanço da cultura e colaboração digital nos últimos anos, que, na opinião de um dos ícones da informática, não refletiu a liberdade pregada pelos princípios do software livre.

Escândalos como o deflagrado por Edward Snowden, ex-técnico da CIA que vazou informações de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA), revelando que o governo Obama obtém informações dos cidadãos utilizando servidores de empresas como Google, Apple e Facebook, colocam peso sobre a teoria de Stallman.

"Hoje, a maioria dos serviços exigem que o usuário coloque suas informações pessoais. Esta é uma forma clara de vigilância, para saber o tempo inteiro o que estamos fazendo", afirmou.

A forte afirmação de Stallman pode ser um tanto assustadora, ainda mais se levarmos em conta que a web cresceu sua base de usuários cresceu cerca de 566% nos últimos doze anos, segundo dados da Nielsen. Atualmente, cerca de 2,4 bilhões de pessoas - aproximadamente 34,3% da população mundial - estão conectadas à Internet.

"Fala-se muito em inclusão digital, mas nos termos que vivenciamos hoje, ela pode ser uma coisa muito ruim e perigosa. Tanto até que já observamos movimentos no sentido contrário, que podemos chamar de 'extração digital'", ressaltou.

Para Stallman, tecnologias como a computação em nuvem e mobilidade são inimigas - ou uma "armadilha", ou “piores estúpidas”, como já citou em outras entrevistas - nas quais os benefícios obtidos pelos usuários são muito inferiores ao perigo que estes avanços oferecem.

"Não tenha um telefone móvel. Eu não tenho um telefone móvel. Quando eu quero falar com alguém por telefone, peço para outras pessoas ligarem por mim", afirmou, ao mesmo tempo que digitava linhas de código em um notebook de uma marca desconhecida.

Mexendo compulsivamente em seus cabelos brancos, Stallman respondeu que não existe uma forma óbvia de fazer a tecnologia móvel de acesso à web dar certo.

"Existe uma forma aceitável de fazer isso? Não sei, mas já tive algumas ideias. Talvez se carregássemos pequenas antenas parabólicas, capazes de acessar informação sem precisar dar a nossa localização exata", divagou.

Mas e a conscientização tecnológica que as muitas ferramentas livres trouxeram ao usuário final? Para Stallman, estes avanços, embora tenham seu valor, não passam de perfumaria.

"O Facebook é algo monstruoso", disparou, enquanto retirava um tubo de loção para mãos de sua bolsa. Para o programador, mobilizações sociais criadas pela rede, como a que ocorreu no Brasil recentemente, são a ideia certa no local errado.

Anti-establishment ferrenho, mas também um sujeito brincalhão, Stallman encerrou sua entrevista num tom alegre, posando para fotos com fãs e os mascotes Gnu (do GNU) e Tux (do Linux).

Após tirar uma foto com um fã, Stallman seguiu seu procedimento standart e pediu US$ 5 pela foto, no qual foi prontamente atendido pelo admirador, que sacou uma nota de R$ 5 da carteira. [A rerporagem do Baguete testemunhou a mesma cena em 2005. RMS não reajusta preços].

Horas depois, na sua palestra, o guru promoveu um leião para vender um boneco gnu por R$ 250.

Para algumas pessoas, Stallman é um tipo de establishment.