Eduardo Sirotsky Melzer. Foto: divulgação.

A RBS confirmou a demissão de 130 profissionais como parte de uma modificação na estratégia de negócios do grupo visando aproveitar melhor as oportunidades do meio digital, em nota publicada no seu site nesta segunda-feira, 04.

O texto, assinado pelo presidente do Grupo RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, tenta diminuir o impacto da notícia, ressaltando que a empresa como um todo tem 6 mil funcionários [nesse universo, o corte afetaria 2% do quadro], mas também confirma que a medida deve ser focada “principalmente nos jornais”.

Nesse segmento específico do grupo, que muitos acreditam ser o seu core, o impacto será bem maior. A redação da Zero Hora, o maior jornal do grupo RBS, emprega 200 profissionais no jornalismo entre a sede em Porto Alegre e sucursal em Brasília. 

O Pioneiro, sediado em Caxias do Sul, tem 80. No Rio Grande do Sul, a empresa mantém ainda os jornais Diário Gaúcho, na região metropolitana da capital e o Diário de Santa Maria, em Santa Maria, no interior. 

A RBS tem ainda jornais em Santa Catarina: A Notícia, Jornal de Santa Catarina, Diário Catarinense e a Hora de Santa Catarina. No seu site, a empresa não divulga o número de jornalistas nesses veículos. Supondo que o número de profissionais chegue a 1 mil, o corte seria de 13%.

“Se queremos continuar crescendo temos de nos reinventar imediatamente, investindo em atividades e negócios que geram resultados positivos e deixando de fazer o que não agrega para nossa empresa e para o mercado”, explica Melzer, sem dar maiores detalhes sobre os cortes.

O presidente do Grupo RBS frisa na nota que a empresa “não passa por crise financeira” e está “investindo e redesenhando a nossa operação, buscando velocidade e desprendimento que são vitais para a preservação do nosso projeto empresarial”.

Dos oito parágrafos dedicados a explicar qual é destino futuro da empresa, Melzer dedica quatro a expor projetos na área digital [jornais, rádio e TV ganharam um cada].

Melzer destaca, sem abrir números, que a RBS dobrou as equipes dedicadas ao digital, tanto nas redações quanto no Tecnopuc, e triplicou os investimentos nesta área. 

O centro no parque tecnológico da PUC-RS, em Porto Alegre, focado em soluções digitais os produtos da RBS, em especial para os jornais, deve chegar ao final do ano com 100 colaboradores, revela o executivo.

[Aparentemente, as coisas andaram mais devagar do que o esperado no Tecnopuc. A meta dos 100 funcionários foi divulgada em 2011, quando da abertura do centro, como um objetivo para poucos meses. Em março,  Antonio Coelho, ex-COO dos sites da RBS Guia da Semana, hagah e Oba Oba, assumiu o comando da operação falando em dobrar o número de colaboradores].

Melzer comenta também o desempenho da eBricks, fundo de investimento em empresas de internet do grupo sediado em São Paulo, destacando que o mesma deve chegar ao final do ano com 16 empresas no portfólio.

Das empresas investidas, Melzer ressaltou a ampliação da Wine.com.br, definida pelo empresário como a “maior empresa de vinhos online do mundo”, para a qual estaria sendo preparada uma entrada no mercado internacional.

[Ao todo, as participações adquiridas pela RBS em empresas do meio digital nos últimos anos custaram R$ 300 milhões. Elas incluem empresas de diversos segmentos diferentes, da agência Predicta aos sites de entretenimento Guia da Semana, ObaOba e Hagah, além das companhias de marketing e publicidade Grupo.Mobi e Hi-Midia e e-commerce como o citado Wine e a Lets, uma loja de roupas virtual]. 

Mais adiante na nota, Melzer cita dois investimentos que não haviam sido divulgados ainda pela RBS: o HypermindR, um centro de pesquisa no Rio de Janeiro, grupo de P&D com foco em análise de comportamento do consumidor e big data e big data e o Appus, um software de planos de carreira criado internamente pela empresa. 

“Por outro, o avanço tecnológico e a forma de consumir mídia nunca geraram tantas oportunidades e tanta abertura para a inovação como nos dias de hoje. Aquelas empresas que têm a coragem de se posicionar no mundo novo sairão fortalecidas”, conclui Melzer.

As notícias vindas da RBS dificilmente surpreenderão aos que acompanham a empresa mais de perto. Há tempos, o grupo de comunicação vem sinalizando uma vontade de diversificar seus negócios, em parte devido ao esgotamento das possibilidades no seu mercado tradicional.

A Zero Hora, o jornal símbolo do grupo, é líder absoluta em circulação no Rio Grande do Sul, com 184 mil exemplares em média em 2012, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação [IVC] .

A título de comparação, o jornal líder do ranking, a Folha de São Paulo, tem 297 mil, circulando no país inteiro. O concorrente mais próximo em Porto Alegre é o Correio do Povo, com 149 mil [o Diário Gaúcho, focado nas classes C e D, circula mais, com 166 mil].

As operações de rádio e TV também são líderes, sendo que essas últimas tem ainda o problema  de poder operar somente  Rio Grande do Sul e Santa Catarina pelo seu acordo com a Globo, da qual a RBS é retransmissora.

A RBS chegou a fazer um ensaio de expandir operações abrindo uma rádio em São Paulo em 2008, mas ela não foi adiante. A TVCom, um canal local da RBS via UHF, não decolou e parece ser ele mesmo um possível alvo de cortes. [Em videoconferência com os funcionários, Melzer teria dito que “do que jeito que está não pode ficar”].

Além dos investimentos, a política de contratação nos últimos tempos sinaliza a mudança. A empresa bancou a vinda de executivos de mercado como Fabio Bruggioni, ex-vice-presidente do Grupo Telefônica, hoje à frente do eBricks e Deli Matsuo, ex-gerente de RH do buscador na América Latina, para assumir a vice presidência de Gestão e Pessoas do grupo como um todo.

O conselho de administração passou a contar no começo do ano com Nelson Mattos, vice-presidente de Produtos e Engenharia da Google para Europa e Mercados Emergentes. O próprio Melzer, antes de assumir o comando da empresa como um todo, passou pelo que era então o braço de negócios digitais.

Essa não é a primeira aposta da RBS no mundo das novas mídias. Em 1996, no que parece ser o século passado e é mesmo, o grupo de comunicação gaúcho se associou à espanhola Telefônica para comprar a CRT, estatal gaúcha de telecomunicações.

A palavra de ordem da época dizia que o futuro seria triple play e convergência de mídias, o que era verdade. O problema foi que basicamente a Telefônica passou a perna na RBS, resultando numa saída complicada do grupo da CRT e alguns anos de complicações financeiras.

Agora, no entanto, a RBS parece estar fazendo sua movimentação com outra estratégia. No lugar de colocar suas fichas num grande acordo com uma gigante multinacional no calor de uma oportunidade única como a privatização das telecomunicações, a empresa está fazendo está apostando numa série de pequenos negócios diferentes, que podem operar como um ecossistema e se reforçar mutuamente [essa foi a fórmula de sucesso dos negócios de comunicação].

Ao contrário de players de comunicação no exterior, pressionados pela queda de circulação dos jornais e da audiência da TV, a RBS ainda tem margem de manobra pelo seu domínio de mercado e pela baixa penetração da banda larga no país, um indicador cuja alta costuma preceder os problemas dos meios de comunicação tradicionais. 

Claro que o meio de startups de tecnologia reserva suas próprias surpresas, muitas das quais são apenas antevistas no momento. 

Entre elas podemos citar profissionais caros e escassos [o exato oposto dos jornalistas que estão sendo demitidos agora], planos de negócio ainda por se comprovar e um certo clima de oba oba que costuma prenunciar tempestades.