Erenice está em apuros. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

A Huawei contratou Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil no governo Lula, para influenciar o resultado do julgamento de uma ação no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) relativa a uma multa de R$ 705,5 milhões 

Segundo documentos publicados pela Veja nesta sexta-feira, 03, Erenice receberia 1,5% do valor em caso de êxito no processo, o que corresponderia a R$ 10,5 milhões.

A revelação aumenta a visibilidade da multinacional chinesa entre as 70 empresas sob investigação da Polícia Federal dentro da operação Zelotes, que investiga a contratação de consultorias com influência para reduzir e, em alguns casos, zerar, débitos com a Receita Federal.

Até agora, a companhia era apenas um nome a mais (o nono na contagem geral) e estava fora do grupo de 12 processos tramitados no Carf nos quais a Polícia Federal vê indícios mais fortes de que companhias tenham participado do esquema.

Agora, as coisas mudam de figura: o contrato com Erenice é o link político do esquema: ela atuaria em parceria com José Ricardo da Silva, um integrante do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.

E-mails obtidos na investigação também mostrariam que, enquanto Erenice estava à frente da Casa Civil, José Ricardo pediu ajuda a um irmão da ministra para que ele, ou algum de seus sócios, fosse indicado à presidência do Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Erenice teria respondido ao irmão: "Estou enviando curriculum dos meninos. Bjs".

No mesmo texto, a Veja informa que Erenice ainda não está entre os investigados da Operação Zelotes. Sua inclusão, segundo a revista, se daria nos próximos dias.

Erenice é considerada uma pessoa próxima da presidente Dilma Rousseff, que a nomeou chefe consultoria jurídica do Ministério de Minas e Energia em 2003. Com a candidatura de Dilma e sua saída da Casa Civil, em 2010, Erenice assumiu a posição.

Segundo a Veja, depois da saída do governo, Erenice montou um escritório de advogacia em Brasília que logo se tornou um “ponto de peregrinação para empresários de diferentes setores com interesses no governo”.

Entre eles, aparentemente, a Huawei. Procurada, a empresa repetiu o que vem dizendo desde o começo do caso, alegando que "não recebeu nenhuma solicitação das autoridades competentes sobre o assunto em questão" e que "atua em conformidade com a legislação vigente na condução de suas operações no Brasil, sempre de acordo com os mais elevados padrões de ética".

No país há mais de 15 anos, a Huawei atende às principais operadoras de telecomunicações do país e possui unidades São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Recife, além de possuir um centro de treinamento em Campinas e um centro de distribuição em Sorocaba.

Nos últimos meses, a Huawei tem aumentado sua presença no país, fechando acordos de cooperação para pesquisa com universidades locais. 

A última foi a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), focada em educação e capacitação de alunos em computação em nuvem. 

Em 2014, instalou a criação de um centro de inovação no Tecnopuc, parque tecnológico da PUC-RS, em Porto Alegre. 

No local, a estatal gaúcha de procassamento de dados Procergs e a Huawei vão trabalhar em conjunto em projetos de cidades digitais, computação em nuvem e comunicações unificadas.

Outros centros existem em Campinas, onde a pesquisa é voltada para redes 4G em parceria com o CpqD e em Salvador, em parceria com a Brisa, instituto de pesquisa e desenvolvimento ligado ao governo federal em Salvador, na Bahia, onde o foco é virtualização das funções de rede (NFV), comunicações unificadas (UC) e sistemas multimídia via IP (IMS).

Em agosto de 2013, a companhia anunciou a fabricação brasileira de smartphones em parceria com a Compal Electronics em sua planta na cidade de Jundiaí, interior paulista, com um investimento de R$ 5 milhões até 2014, com previsão de produção de 100 mil unidades do modelo G510 exclusivamente para abastecimento do mercado brasileiro.