Antonio Ramos, durante apresentação na Federasul. Foto: Itamar Aguiar

A Procergs, estatal de processamento de dados do Rio Grande do Sul, está trabalhando em projetos de tecnologia que, se tiverem luz verde do governo, podem significar corte de custos na administração pública gaúcha - além de uma sacudida em alguns vespeiros.

O presidente da companhia, Antonio Ramos, palestrou no Tá na Mesa da Federasul nesta quarta-feira, 06, mostrando alguns projetos de governo eletrônico da empresa, tanto em andamento como ainda em fase de aprovação e discussão na administração pública.

Dentro dessa última categoria, chamaram atenção dois: o Diário Oficial Eletrônico, uma ameaça direta à continuidade da existência da Corag, estatal responsável pela impressão de documentos oficiais do governo e um projeto de Big Data junto à Secretaria da Fazenda.

Um dos usos do projeto da Fazenda afetaria o Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul, responsável pelos planos de saúde e aposentadoria do funcionalismo estadual. 

Em entrevista com jornalistas antes da palestra, Ramos descreveu como o uso de tecnologia de Big Data poderia servir para varrer fraudes no IPE, reduzindo o número de beneficiários dos planos e o custos do estado, através do cruzamento de informações em bancos de dados do governo e fora dele.

Um exemplo da abordagem seria cruzar dados de filhas solteiras de titulares de planos (pelas regras atuais, com direito a cobertura e pensões) com os dados de contas bancárias conjuntas no Banrisul ou registros de uniões estáveis em cartórios, permitindo identificar que omitem seu verdadeiro estado civil para seguirem recebendo benefícios do IPE.

De acordo com um levantamento feito pela revista Época em 2013, o Rio Grande do Sul paga pensões a 11.842 filhas solteiras, ao custo de R$ 319,5 milhões anuais, média de R$ 2.075 mensais para cada beneficiária. 

O outro plano é distribuir só digitalmente as informações do Diário Oficial do estado, o que significaria um corte de custos para o governo de R$ 12,2 milhões anuais. A tecnologia de publicações eletrônicas e buscas está difundida, o que faz um projeto do tipo de ser de fácil implantação.

Para a Corag, no entanto, a decisão significaria entrar no vermelho. A companhia teve lucro líquido de R$ 7,7 milhões durante o ano de 2015, frente a uma receita líquida de receita de R$ 49,5 milhões.

Junto com a Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa) e Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), a Corag aparece em todas as listas de estatais e fundações na lista de extinção do governo gaúcho desde o início do governo José Ivo Sartori (PMDB).

“Vivemos um momento conturbado nas finanças do estado. Nossa contribuição é inovar para transformar agregando economia à prestação dos serviços”, disse Ramos durante a sua apresentação.

O presidente da Procergs frisou que a estatal tem o corpo técnico com a qualificação e a motivação para entregar esse tipo de projeto. Dos cerca de 1,2 mil funcionários, mais de 80% são técnicos, 58% tem curso superior e 24% de pós-graduação. 

Os salários tem sido pagos em dia, o que não é a regra no funcionalismo público gaúcho nos últimos meses. Só salário de março foi parcelado em nove vezes para os funcionários do Executivo, em meio a uma das piores crises financeiras pelas quais o estado já passou.

Ramos conhece a casa, onde já exerceu os cargos de diretor técnico e comercial (1995 a 1998), de vice-presidente e diretor administrativo-financeiro e de relacionamento com clientes (2009 a 2011). Com 40 anos de experiência em TI, o presidente da Procergs também conhece bem a iniciativa privada, com passagem por empresas como Datasul e Grupo Meta.

O tipo de medidas que a Ramos apresentou colocam nas mãos do governo Sartori os instrumentos para cortar custos na carne que essa administração do pemedebista ainda não mostrou.

Depois de meses de especulações sobre fechamentos de fundações e estatais vazados para a imprensa, até agora a única a ser extinta foi a Fundação de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul.

O agravamento da situação pode empurrar o executivo a tomar medidas mais drásticas, no entanto. É aguardado para os próximos dias um novo corte de custos na máquina, com um valor estimado pela Zero Hora em R$ 4 bilhões. 

Nessa hora, quem tiver ideias para cortar gastos deve ter atenção do governo do estado.