Thiago Lechuga, diretor de tecnologia da Ambev. Foto: divulgação.

A Ambev, uma das maiores empresas do país, está apostando no desenvolvimento ágil para criar do zero o novo sistema de gestão da companhia em um projeto que, até agora, está com 5% da sua jornada concluída. 

Há mais de 25 anos, a fabricante de bebidas utiliza o sistema Promax, originalmente desenvolvido pela HBSIS, uma empresa catarinense que foi comprada pela Ambev em 2019. 

Logo no início do uso, a Ambev fez um acordo com a HBSIS para deter a propriedade intelectual do software e, desde então, estava evoluindo o desenvolvimento dele. 

A necessidade de uma nova solução veio quando o sistema ficou grande demais, tornando-se um gargalo para a transformação digital da companhia.

“Se eu não me engano, hoje ele tem mais de 12 milhões de linhas de código, então é um negócio muito complexo. Cada vez ficava mais difícil evoluir com ele conforme o nosso processo mudava”, conta Thiago Lechuga, diretor de tecnologia da Ambev.

O projeto do novo ERP,  batizado de Hércules, começou a ser colocado em prática em 2019 e está sendo feito em etapas, com as funcionalidades entrando no ar na medida em que ficam prontas. 

O que já foi feito até agora está basicamente na parte de promoção, quando se cria promoções para os pontos de venda, e na parte de fluxo de aprovação de pedidos, com todo o processo que acontece para validar um pedido novo quando ele chega.

“O começo é mais lento, até você ganhar maturidade e fazer as definições iniciais, construir toda a estrutura que você precisa”, explica Lechuga.

Até o final deste ano, a expectativa é concluir o fluxo de pedidos de ponta a ponta, assim como focar na logística, com todo processo a partir da decisão de qual centro de distribuição fará a entrega de determinada carga.

Para 2021, a porcentagem de conclusão do projeto deve chegar perto dos 20% e, em mais dois ou três anos, ele deve ser concluído.

O diretor de tecnologia explica que, ao invés de ser um monolito, um sistema único, o novo projeto está sendo desenvolvido com microsserviços, onde cada serviço opera de forma independente e permite que a evolução seja feita separadamente, sem precisar parar tudo nem colocar todo o sistema em risco. 

A principal parte do Hércules será voltada para vendas, incluindo processos como atendimento, logística, entrega e estoque. Há também algumas funções da parte financeira, mas somente no que diz respeito àquilo que é um diferencial competitivo.

Para o aspecto mais transacional, como contas a pagar e contas a receber, a Ambev já utiliza o SAP numa configuração padrão — visando fazer o fechamento contábil da empresa.

“Toda hora que eu preciso customizar, que eu preciso de uma agilidade maior, uma flexibilidade maior, eu tiro esse processo de dentro do SAP, o Hércules faz o que tem que ser feito e depois devolve para o resultado final ser gravado”, explica Lechuga.

No caso de saber, por exemplo, se há estoque de determinado produto em um centro de distribuição, o Hércules toma a decisão, faz a venda do produto e avisa o SAP que consumiu o estoque, para que o sistema dê baixa.

Como o Promax, o software antigo, ainda está sendo utilizado e o Hércules tem partes funcionando, agora os três sistemas estão conversando para garantir o funcionamento de todos os fluxos. No futuro, o Promax deixará de existir, assim como muitas de suas funções.

“Muita coisa que está lá não faz mais sentido para a gente. Ou não usa mais, ou é um processo que está defasado. Então, ao invés de copiar o que está lá e refazer, estamos fazendo o modelo do futuro, refazendo esse processo para ele refletir o que a Ambev é hoje”, explica o diretor de tecnologia.

Thiago Lechuga conta que a equipe chamada de AmbevTech saiu da “folha em branco”, criou todo o código de como achava que o sistema deveria funcionar e colocou isso para rodar em produção. 

O time conta com cerca de 1,5 mil pessoas e responde à vice-presidência de tecnologia da empresa. Ele foi criado justamente a partir da fusão com a HBSIS, que até então era o principal fornecedor de tecnologia da Ambev.

Até a aquisição da empresa de tecnologia, o time era enxuto e a companhia trabalhava muito com fornecedores. Com o tempo, a estratégia foi mudando e foi preciso reter mais conhecimento.

Hoje, praticamente todos os projetos são realizados com desenvolvimento ágil e a equipe é dividida em três torres de negócio: vendas, supply e logística. Dentro dessas torres, há os squads de cada produto desenvolvido atualmente. 

No caso do Hércules, é necessário um grupo de squads, com mais de 60 pessoas envolvidas, incluindo diversas áreas de negócio da companhia.

“Agora todo mundo fala de transformação digital, mas para poder fazer a transformação tem que ter a estrutura de tecnologia por trás que permita fazer isso. O projeto Hércules é o que vai nos possibilitar evoluir na velocidade que a gente precisa”, ressalta o diretor de tecnologia da Ambev.

A Ambev nasceu, em 1999, da união entre as centenárias Cervejaria Brahma e Companhia Antarctica. Em 2004, a empresa fez uma fusão com a belga Interbrew, formando a AB InBev e chegando a 19 países. Em 2019, a companhia faturou US$ 52,33 bilhões.

Somente no Brasil, são 32 cervejarias, duas maltarias, 100 centros de distribuição direta e seis de excelência, além de mais 35 mil colaboradores. A Ambev possui mais de duzentas marcas de bebidas, entre elas Skol, Brahma, Antarctica, Corona, Bohemia, Budweiser e Stella Artois.