SAP está de olho em profissionais, não bichinhos de pelúcia. Foto: divulgação/FISL.

O SAP Labs Latin America, centro de desenvolvimento e suporte da multinacional alemã em São Leopoldo, será um dos expositores da 15ª edição do  Fórum Internacional Software Livre (FISL), que começa em Porto Alegre nesta quarta-feira, 07.

Um fato chamativo, tendo em conta que a SAP é o terceiro maior player do mercado mundial de software, com faturamento de US$ 20 bilhões em 2013 obtido em grande parte com vendas de software proprietário.

Em nota, o SAP Labs enfatiza o seu alinhamento com o tema desse ano do Fisl: “Segurança e Privacidade: o Software Livre na luta contra a Espionagem”.

“Faremos palestras em nosso estande para possibilitar o debate sobre os riscos aos quais estão expostas as redes e as empresas, e apresentaremos como as soluções SAP oferecem segurança de informação e como a SAP contribui para plataformas open source”, explica o líder de desenvolvimento de novos negócios do SAP Labs Latin America, Fabio Serrano.

No ano passado, a SAP  decidiu apostar em HTML5 e outros open standarts como OSGi, OData e Apache Cordova como forma de incentivar o desenvolvimento de aplicações móveis para seus clientes por desenvolvedores terceiros.

A empresa também abriu o que chamou de “porções chave” do development toolkit SAPUI5 UI para HTML no GitHub sob licença Apache 2.0.

Um movimento similar foi feito focado no banco de dados ultra-rápido Hana, para o qual é possível desenvolver software usando o SAP River, um ambiente de desenvolvimento hosteado gratuito. 

O banco de dados da SAP também trabalha com o Hadoop, software open source de processamento de grandes massas de dados.

O recente currículo da SAP com soluções open source é apontado pelo coordenador geral do FISL, Ricardo Fritsch, como mais do que suficiente para colocar a empresa no evento pela “porta da frente”.

“São bem vindos todos que trabalhem com tecnologia aberta, mesmo que uma parte dos seus negócios ainda passe por software proprietário”, resume o gaúcho.

Apesar de serem as apostas da empresa para o futuro e negócios significativos hoje em dia [a SAP já divulgou ter feito vendas acima de US$ 1 bilhão de tecnologia Hana] as decisões recentes servem para a SAP proteger a sua liderança no mercado de ERP, business intelligence e outras tantas soluções baseadas em software proprietário.

De acordo com dados da FGV, hoje a SAP tem 52% de participação no mercado de sistemas de gestão quando falamos de companhias com mais de 700 usuários no país. 

Entre empresas menores, com entre 170 e 700 teclados, os alemães já são um concorrente expressivo, com 24% frente aos 41% da brasileira Totvs.

Dentro de uma visão de adoção de software livre como uma forma de fomento ao desenvolvimento nacional de tecnologia, compartilhada por boa parte dos participantes do FISL e uma parte do governo federal, que patrocina o evento em peso, a SAP seria por tanto um peixe fora d'água na PUC nos próximos dias.

Fritsch prefere não se aprofundar em um terreno pantanoso sobre o que significaria a essa altura do campeonato “software nacional” e destaca a participação em repetidas ocasiões de multinacionais como Red Hat, Suse, Mozilla e outras.

A grande maioria das organizações que bancam o evento neste ano, de maneira similar aos dos últimos anos, são o que se poderia considerar participantes mais “clássicos” do Fisl. 

A Tela Social, um pacote para sinalização interativa, e o eCidades, um software de gestão, ambos produtos open source disponíveis no Portal do Software Público, são expositores junto com a SAP. 

A lista de patrocinadores – que também tem estandes no evento – inclui os patrocínios Diamante do Serpro, governo federal, CGI.br e Nic.br.

A participação da SAP não é a primeira de um ícone do software proprietário no Fisl. Em 2006, a Microsoft fez uma participação mal explicada e algo conturbada, que poderia ser chamada de uma entrada “pela porta dos fundos”, para usar a analogia feita por Frisch.

Um representante da companhia participou em uma mesa redonda transmitida ao vivo do Centro de Convenções da Fiergs pela Infomedia TV. Nos bastidores, o rumor era que a Microsoft bancou o estande da empresa de TV online para participar do evento.

Um grande público, nem sempre amigável, assitiu à gravação. O debate foi apimentado pela intervenção do gurú da Free Software Foundation, Richard Stallman, que, aproveitando ser aquele um 21 de abril, liderou um coro meio desajeitado aos gritos do slogan da Inconfidência Mineira "Libertas quae sera tamen".

Nada indica, porém, que a SAP tenha potencial para criar nenhuma polêmica. Para começar, o idiossincrático Stallmann não está entre os convidados do evento esse ano. 

A multinacional alemã, cuja força está no segmento corporativo privado, também não desfruta do mesmo status de arquinimigo atribuído à Microsoft. O SAP Labs, com seus espaços arejados e sua ênfase em desenvolvimento ágil, é o local de trabalho objeto de desejo de muitos jovens profissionais. 

Justamente por isso, as intenções do SAP Labs ao participar do evento devem passar bem longe de polêmicas já meio bizantinas sobre desenvolvimento de software ou o sexo do software nacional e se ater a assuntos mais mundanos como tentar recrutar novos funcionários.

A SAP inaugurou no final do ano seu segundo prédio em São Leopoldo, um investimento de R$ 60 milhões que agregou capacidade para 500 estações de trabalho, atualmente no processo de serem preenchidas.

No final do ano passado, o SAP Labs Latin America tinha 566 funcionários. Com as novas instalações, o número deve subir para 750 funcionários até o final de 2014 e 800 em 2015.

Com uma equipe já próxima das 1 mil pessoas, o SAP Labs será um dos maiores empregadores na área de TI do Rio Grande do Sul, junto com operações semelhantes mantidas pela Dell e HP em Porto Alegre. 

A demografia dos funcionários do SAP Labs coincide simétricamente com a audiência do Fisl, que neste ano deve receber 8 mil visitantes. 

Profissionais com cinco anos de experiência compõem 61% do quadro, com uma média de idade de  29 anos. Dos contratados, 86% se formaram nos últimos dois anos.

Com a pressão por novas contratações, a SAP pode estar disposta a contratar jovens profissionais sem lá muita experiências suas tecnologias. A taxa de retenção dos estagiários é alta (85%), assim como o número de funcionários que foi estagiário (17%). 

A empresa já tem iniciativas em curso visando explorar novas fontes de profissionais, como as mulheres, por exemplo, que hoje representam apenas 23% do quadro total de funcionários.

No final de outubro, o SAP Labs organizou o IT Women Competition, um evento exclusivo para mulheres voltado para o banco de dados de alta velocidade Hana. A empresa recebeu 60 currículos para a atividade, da qual participaram 25 mulheres.

[A SAP não é a única gigante de tecnologia com um currículo um pouco dúbio de um ponto de vista ideológico mais restrito a vir buscar funcionários em Porto Alegre aproveitando o FISL. O Facebook, rede social que não pode ser considerada o maior amiga da privacidade, está promovendo um muito falado happy hour secreto com 30 profissionais na cidade nesses dias].