Jimmy Wales falou na conferência da IFS.

Jimmy Wales, criador da Wikipedia, embarcou em um desafio novo: aplicar alguns dos princípios que fizeram da enciclopédia online no mundo das operadoras de telecom, através da operadora virtual de telefonia móvel britânica People Operador.

A People Operador funciona como outras MVNOs, comprando conexão no atacado das operadoras e revendendo no varejo, com a diferença de que 10% do valor da conta é doado para uma ONG da preferência do cliente. A empresa também doa 25% do seu lucro para a caridade.

A primeira vista, o novo empreendimento parece não ter nada a ver com a Wikipedia, mas não é bem assim.

Segundo Wales, que fez o keynote do IFS World, evento mundial da IFS que acontece em Boston nesta semana, eles compartilham o tipo de meta ambiciosa capaz de engajar as pessoas que em um última análise fez da enciclopédia online um sucesso.

“Nós poderíamos ter começado a Wikipedia com um alvo menor, como publicar a biografia dos presidentes americanos. Isso geraria algum engajamento, mas nada comparado com a ideia de colocar todo o conhecimento disponível grátis online”, analisa Wales.

De acordo com Wales, o poder do boca a boca pode fazer um empreendimento nos moldes do People Operator decolar, ao mesmo tempo em que libera a empresa de fazer os vultuosos investimentos em marketing típicos do mercado de telecomunicações.

Esse tipo de modelo de negócios, baseado na satisfação do cliente por fazer uma “compra consciente” tem se tornado popular nos Estados Unidos nos últimos tempos. 

A Warby Parker, uma fabricante de óculos estilo vintage doa uma unidade por cada compra. Já foram doados mais de 500 mil óculos e empresa é avaliada em US$ 1,2 bilhão. 

A fabricante de sapatos Toms tem o mesmo modelo e vendeu 50% das suas ações para a Bain Capital por mais de US$ 300 milhões.

Ainda está por se provar, no entanto, se esse modelo de negócio pode ser replicado na área de serviços. Wales uniu-se à People operator, fundada em 2012, no começo do ano passado.

A empresa já fez um IPO de £ 100 milhões na Bolsa de Londres, mas permanece uma desconhecida no mercado.

No final de 2014, a empresa tinha 14 mil clientes no Reino Unido, o único país onde o serviço está disponível (o plano é fazer um lançamento nos Estados Unidos ainda este ano).

A meta é chegar a 2% do mercado britânico até 2021, algo em torno de 1,6 milhão de assinantes.

Os clientes da empresa, no entanto, geram o dobro de receitas mensais do que a média do mercado e tem um churn de apenas 3%, a menor média entre os competidores, o que Wales atribui ao apego emocional dos usuários.

Maurício Renner cobre o IFS World em Boston a convite da IFS.