Alex Glikas. Foto: Baguete.

O Brasil liderou o mercado de serviços de data center da América Latina em 2012, com fatia de 58,5% dos US$ 2,3 bilhões movimentados na região, e deve alcançar market share de 59% até 2017, segundo dados da Frost & Sullivan apresentados durante a abertura do Floripa TICs Forum, que a Dígitro realiza na capital catarinense até a quinta-feira, 09.

Ainda assim, o país corre o risco de ficar apenas de “voyeur” do setor nos próximos anos, segundo avaliação dos painelistas do evento, o diretor de Infraestrutura e Convergência Digital da Brasscom, Nelson Wortsman, o diretor Comercial e de Parcerias Estratégicas da Locaweb, Alex Glikas, e o diretor da Websolute, Luíz Eduardo dos Santos.

Para eles, esta posição passiva do país acontecerá se os data centers locais não se tornarem competitivos em relação, por exemplo, aos norte-americanos, onde Miami já é sede de diversas infraestruturas de hosting e cloud latinos, incluindo a brasileira Locaweb.

“Enfrentamos questões difíceis, como a alta carga tributária e outros custos, como os de energia. Para não falar em termos de disponibilidade de recurso: a Eletropaulo, por exemplo, já nos informou que não pode nos fornecer mais energia antes de 2020”, ressalta Glikas.

Reclamação embasada por Wortsman, que cita a energia como responsável por em torno de 33% do custo de um data center, e aponta que entre Brasil e EUA é possível chegar a diferenças entre 40% e 50% nos gastos com este insumo.

Para Wortsman, custos como estes barram o crescimento da cloud computing, especialmente porque esta expansão passa pela adesão das pequenas e médias empresas ao modelo.

“É preciso garantir um preço competitivo para a oferta, mas também uma oferta competitiva”, avalia ele, referindo a tal oferta como variedade nas opções de pagamento boas, nos serviços e nos produtos.
Ponto em que a Locaweb vem trabalhando para se sobressair.

Com R$ 100 milhões para investir entre 2011 e 2017, a companhia aproveita sua infraestrutura para oferecer o portfólio de companhias adquiridas parcial ou totalmente, como exemplificam a ERPFlex, de ERP em nuvem; a Eventials, de software para organização e transmissão de eventos online, e a Tray Commerce, de solução para criação de plataformas de e-commerce.

“Nossa intenção é aproveitar nossa infra de três data centers, dois no Brasil e um em Miami, para oferecer uma base de soluções que atende a todas as demandas dos clientes, tanto grandes quanto pequenos e médios, que, por sinal, são responsáveis por cerca de 70% da nossa receita”, detalha Glikas.

A oferta variada – hoje, a empresa tem 21 produtos no portfólio - e o custo menor, entretanto, são apenas alguns dos itens para atração das PMEs à nuvem.

Para Glikas, assim como para Wortsman e Santos, a cultura é uma barreira ainda maior do que o preço a ser transposta.

O diretor da Brasscom é enfático: é preciso criar-se uma cultura de tratar o processamento de dados como utillitie, o que inclui a participação dos fornecedores corporativos, mas também esforços do governo em popularizar esta ideia com base em incentivos para aumento do consumo de soluções tangentes.

“O pequeno empresário precisa parar de achar que é mais fácil ter lá seus computadores velhos, atendidos pelo amigo do filho, para gastar menos. Temos que mostrar a ele que a cloud traz economia”, afirma Wortsman.

Santos acrescenta que, além de economia, tem de se falar em contingência, escalabilidade e continuidade de negócio.

“A cultura de que ‘a minha informação fica dentro da minha casa’ é muito difícil de quebrar. Mas à medida que conseguimos mostrar que a informação fora da casa do pequeno empresário está mais segura, se torna fácil ele perceber e aderir. Costumo usar argumentos como, por exemplo: já imaginou se sua auxiliar de serviços chutar a tomada de seu servidor? Lá no nosso data center isso não acontece”, brinca Santos.

Já Glikas reúne tudo: economia, contingência, escalabilidade.

“É preciso garantir o nível de SLA para o cliente final. Nisso, ter a contingência de mais de um data center com um único fornecedor, é muito importante”, destaca.

Se o cliente não for do segmento SMB, a Locaweb chega, segundo Glikas, a sugerir que o cliente contrate, ainda, um data center terceiro. Tudo pela contingência.

E de cliente grande, a empresa entende: se os pequenos têm presença forte entre os cerca de 250 mil atendidos pela Locaweb, também entram na lista nomes do porte de Ipiranga, Marisa e Kraft Foods.

A primeira usa nuvem privada, banco de dados em Failover, storage e outros recursos da companhia para o portal do KM de Vantagens, portal de seu programa de fidelidade que é o maior do país, conforme dados da rede.

Para a Marisa, a Locaweb fornece balanceamento web, cloud e servidor dedicado para o portal de e-commerce, entre outras soluções; e, para a Kraft Foods vai também o balanceamento, banco de dados em Failover e elasticidade para os mais de 30 mil acessos simultâneos gerados pelas campanhas publicitárias online da marca.

Entre pequenos e grandes atendidos, a empresa soma market share de 24% no mercado brasileiro de hosting. Glikas garante: “somos os líderes”.

Desempenho que refresca a cabeça de quem se preocupa com a possível posição de mero espectador do Brasil no crescimento mundial de data centers no longo prazo. Refresca, mas não tranquiliza.

“O mercado brasileiro de TI movimentou US$ 123 bilhões em 2012, uma expansão de 10,8% sobre 2011, o que representa praticamente o dobro do aumento médio mundial, que foi de 5,9%. Há potencial para crescer, mas ainda há os entraves que já falamos, para não mencionar a questão da mão de obra carente. É preciso melhorar”, avalia Wortsman.